Bolívia rica exige ser autônoma do resto do país

Joaquim Ibarz
Em La Paz

"Nós somos a Bolívia produtiva; eles são a Bolívia conflituosa", dizem os empresários de Santa Cruz de la Sierra, referindo-se aos habitantes de La Paz e outras cidades andinas. Ao chegar à capital, vindo do aeroporto de El Alto, lê-se em um arco de pedra que dá as boas-vindas ao viajante: "Bolívia, unidade na diversidade".

Com efeito, a Bolívia é o país com mais diferenças étnicas, geográficas e econômicas da América Latina. Mas essa unidade proclamada parece uma utopia, não só pelas divisões das forças políticas e sociais e os confrontos de origem étnica, como pelo perigo latente de secessão por parte das prósperas províncias do leste.

As poucas referências que os europeus têm da Bolívia são de um território montanhoso e árido, com indígenas curtidos pelo sol implacável do altiplano. Nos últimos anos, o líder cocaleiro Evo Morales adquiriu notoriedade pelos bloqueios de estradas. Mas existe outra Bolívia desconhecida, selvagem, de terra quente, com imensas planícies, que se estende por mais de metade do território e tem como capital Santa Cruz de la Sierra.

Santa Cruz, uma cidade pujante levantada na planície oriental que os Andes despejam para o Amazonas e o Prata, é o motor econômico da Bolívia.

Nessa cidade de 1,5 milhão de habitantes, olha-se com desdém, quando não com rejeição, para os moradores da capital, La Paz. Sem falar dos indígenas do altiplano, aos quais em tons racistas consideram culpados pelos constantes conflitos sociais e políticos que levam o caos ao país.

Esse complexo de superioridade da população de Santa Cruz foi mostrado sem pudor por Gabriela Oviedo, representante da Bolívia no último concurso para Miss Universo. Quando se dirigiu aos juízes do certame, Gabriela disse que nem todos os seus compatriotas eram "gente pobre, baixinha e de origem indígena". E proclamou com orgulho: "Eu sou de Santa Cruz, de outra parte do país, onde não faz frio; na minha terra faz calor e as pessoas são altas, brancas e falam inglês".

Logicamente, a candidata irritou os andinos. Pelo contrário, os cruzenhos, como são chamados os moradores de Santa Cruz, mostram-se orgulhosos de Gabriela, porque assumem que são muitas as diferenças culturais, étnicas e sociais que os separam dos bolivianos de origem indígena.

Os poucos indígenas originários das províncias do leste falam línguas da família tupi-guarani, e não os idiomas indígenas das regiões andinas, aymara e quechua. Os cruzenhos chamam a si mesmos de "cambas" e tendem a considerar atrasados e conflituosos os andinos, "collas".

Essa região nunca fez parte do império inca; há meio século, Santa Cruz era um povoado atrasado de 40 mil hábitos. Graças a planos de desenvolvimento agropecuário, ao impulso de pioneiros bolivianos e estrangeiros, e sobretudo à injeção de dinheiro trazida pelo narcotráfico, o petróleo e o gás natural, o antigo posto militar se transformou na cidade mais desenvolvida do país.

Um país fraturado

As tensões raciais e o avanço político do líder cocaleiro Evo Morales não são os únicos desafios em um país fraturado política, social e geograficamente. As antigas demandas de autonomia de Santa Cruz põem lenha na fogueira da instabilidade e expõem o fantasma de uma possível secessão.

O empresário cruzenho Enrique Sandoval comenta que quando vê pela televisão indígenas caminhando pelos páramos andinos parece que está vendo "um programa do Discovery Channel; vivemos em outro mundo".

Segundo Sandoval, muitos de seus conterrâneos dizem ter mais afinidades com o Brasil do que com La Paz. "Começa a haver gente que não se sente boliviana; somos uma nação à parte, como os catalães, uma nação sem Estado", disse Sergio Antelo, ex-prefeito de Santa Cruz e dirigente da Nación Camba, um influente grupo que pretende que as províncias orientais de Beni, Pando, Santa Cruz, Tarija e Chuquisaca (60% do território nacional) formem um Estado livre associado à Bolívia pobre das províncias de La Paz, Oruro, Potosí e Cochabamba.

Svonko Matkovic, presidente da Câmara de Indústria e Comércio de Santa Cruz, cabeça da secessão empresarial, aponta uma tese sobre o fundo do conflito: "A causa dos problemas da Bolívia é o tradicional pensamento inca de se opor a tudo o que é desenvolvimento e continuar pensando em voltar ao que foi 500 anos atrás, em permanente animosidade contra o que investe, sobretudo se seus sobrenomes não são indígenas".

Tarija e Santa Cruz, principais províncias produtoras de gás e petróleo, recusam a lei de hidrocarbonetos promovida pelo Movimento para o Socialismo (MAS), que está sendo debatida no Congresso, por considerar que põe em risco os projetos de exportação de gás promovidos pelas empresas Repsol (espanhola) e Petrobrás.

Santa Cruz quer poder decidir sobre seus recursos porque gera um terço do PIB da Bolívia, mais da metade das exportações e da receita fiscal do Estado e 40,7% da produção de petróleo. Dessa província sai 0,7% da produção mundial de soja e por ela passa o gasoduto para o Brasil.

Os pedidos de autonomia de Santa Cruz e Tarija, apoiados por greves e manifestações, não foram atendidos enquanto Santa Cruz não se proclamou região autônoma e anunciou que formaria um governo para administrar seus recursos e editar suas próprias leis.

Diante do risco de ruptura, o presidente Carlos Mesa aceitou convocar um plebiscito para transformar o estado central em um regime autonômico, ainda por definir. Mas na Bolívia ninguém descarta que em certo momento, se não for viável um projeto de Bolívia unida, as províncias mais ricas optem pela secessão. Região de Santa Cruz exalta suas diferenças econômicas e étnicas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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