Blair acredita o Iraque não impedirá sua reeleição

Rafael Ramos
Em Londres

A linha muitas vezes difusa que separa o passado do futuro parece claramente definida para Tony Blair. O passado são os dois anos transcorridos desde o início da guerra no Iraque e o final de sua história de amor com os eleitores britânicos. O futuro são os 46 dias (salvo surpresas) que faltam para as eleições gerais na Grã-Bretanha e a conquista de um histórico terceiro mandato como primeiro-ministro.

Para o bem ou para o mal, mais o segundo que o primeiro, o Iraque definiu a liderança de um Blair que gostaria de passar à história por outras razões, como transformar o Trabalhista no partido natural do poder no Reino Unido, reformar os serviços públicos ou encontrar uma terceira via que incorporasse um sentido de justiça social ao darwinismo thatcherista.

Para muitos eleitores, o julgamento é positivo e o premiê surgiu das trevas da guerra como um líder firme, resoluto e competente, que não vacila diante de decisões difíceis.

Para muitos mais, porém, ficou como um manipulador nato, que distorceu a realidade para adaptá-la a seus fins, manipulou os relatórios da inteligência e enganou a imprensa, o Parlamento e o país. "Não se pode acreditar em uma palavra do que ele diz", é o slogan dos conservadores.

Dois anos depois de uma invasão do Iraque declarada ilegal pela ONU, políticos e intelectuais discutem se o fim justificou os meios. Em um prato da balança estão o fim da cruel ditadura de Saddam Hussein, os primórdios de uma democracia, a constituição de um Parlamento em Bagdá, as pressões pela retirada síria do Líbano, a convocação de eleições no Egito e a aproximação entre israelenses e palestinos depois da morte de Arafat.

No outro prato estão os 80 mortos britânicos, os 1.500 soldados americanos que perderam a vida, as bombas quase diárias, as dezenas de milhares de vítimas iraquianas que as potências ocupantes nem se dão ao trabalho de contar, o desprezo pelo direito internacional, a fratura entre os aliados, as chamas do fundamentalismo islâmico radical atiçadas por um conflito de caráter pós-colonial, o aumento da ameaça terrorista, a diminuição das liberdades sob o pretexto da segurança, os lucros de empresas como Halliburton e o aumento da presença militar americana em todo o Oriente Médio para custodiar os poços de petróleo e de gás.

O Iraque alterou a imagem de Blair diante de seus conterrâneos, mas não necessariamente o resultado das próximas eleições. Na solidão das urnas, os eleitores costumam abandonar o romantismo e votar com o bolso, e nada sugere que a maioria dos britânicos será diferente em 5 de maio.

Os grandes inimigos do primeiro-ministro são a apatia, o desencanto da esquerda com os trabalhistas e a irritação da comunidade árabe da Grã-Bretanha, que juntos poderão lhe custar assentos nos distritos menores e reduzir sua maioria avassaladora.

Em termos eleitorais, Blair é um pessimista nato, mas o governo tem três enormes vantagens. A primeira é a doença crônica que aflige os conservadores, um partido acostumado ao poder mas pouco hábil nas lides da oposição, ainda perseguido pelos fantasmas do magnicídio de Margaret Thatcher e que perdeu seu principal trunfo --o prestígio como gestor da economia depois da quarta-feira negra e da saída da libra do sistema monetário europeu.

A segunda é um sistema eleitoral majoritário, no qual precisa de muito menos votos que os tóris para obter uma maioria parlamentar substancial. E a terceira é a bonança econômica.

Mas o trabalhismo, no amanhecer da campanha eleitoral, também tem dois problemas, um interno e outro externo. O interno é a ruptura entre seus dois pesos-pesados, Blair e Brown, e a luta pela sucessão à frente do partido; o externo é a inquietação de alguns eleitores que, apesar do bem-estar de que desfrutam, sentem-se ofendidos pelas manipulações da guerra do Iraque e as artimanhas de um governo forte na apresentação, mas nem tanto na substância. Além disso, muitos se acostumaram tanto com o bem-estar econômico que nem mesmo dão o devido crédito ao governo.

A campanha apenas começou. Blair optou pela estratégia do masoquismo, discutindo diretamente com os eleitores em busca de sinergias, comparando sua crise atual com a de um casamento qualquer e recebendo flechadas como um moderno São Sebastião da política.

Mas todos os esforços para despertar a paixão dos eleitores foram em vão. Perder a confiança da população é um problema, e o Iraque apresenta sua fatura. O líder trabalhista acredita que será cara, mas nem tanto para causar sua derrota nas urnas.

Salva-vidas econômico

O trabalhismo recorreu à apresentação do orçamento como uma descarga elétrica para reativar uma campanha eleitoral na qual começou meio adormecido, na letargia de sua maioria absoluta, com o prognóstico de triunfar nas urnas pela terceira vez consecutiva e a apatia de alguns eleitores que perderam a ilusão em Tony Blair mas não vêem ninguém melhor no horizonte político.

Por mais que as pesquisas apontem uma maioria trabalhista em torno de 80 a 100 cadeiras, e que os analistas descartem quase completamente uma surpresa, o governo não esconde sua preocupação pelo desenvolvimento das primeiras escaramuças eleitorais, com o conservador Michael Howard em plano agressivo, encadeando golpes que não atiram Blair à lona mas vão somando pontos.

Dois fatores prejudicam especialmente o trabalhismo: a perda de respeito por um amplo setor da imprensa, que até agora tinha no bolso, e os esforços inúteis para recuperar a confiança dos eleitores que se afastaram por causa da guerra do Iraque.

Em anos eleitorais, o anúncio do orçamento é a arma mais letal nas mãos do governo no turno, com a possibilidade de distribuir caramelos à vontade entre grupos de eleitores segundo as necessidades do momento. Desta vez ele os atirou na direção dos aposentados --os eleitores menos apáticos--, os gays, as mães trabalhadoras e as classes médias baixas, tradicionais eleitores trabalhistas que, se não tiverem motivação, poderão ficar em casa.

O Waterloo onde se decidirá a sorte de Blair são as "midlands" e os subúrbios de cidades-dormitórios, com dois carros na garagem e dois empregos por família, que há oito anos abandonaram os conservadores e ainda não voltaram ao rebanho.

O primeiro-ministro fez o possível para seduzi-los através de privatizações no estilo Thatcher, a terceirização de serviços, o medo do terrorismo, a dialética contra a imigração e políticas de lei e ordem. Ganhou seu respeito, mas não seu amor, e menos ainda sua lealdade incondicional. Apesar da impopularidade do conflito, trabalhistas devem triunfar Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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