Teatro Bolshoi vai fechar por 3 anos para reforma

Gonzalo Aragonés
Em Moscou

Os milhares de moscovitas que diariamente procuram os quiosques para comprar entradas para os espetáculos culturais da capital russa sabiam há algum tempo que o edifício principal do Teatro Bolshoi precisava de uma reforma profunda.

Yola Monakhov/The New York Times

Teatro Bolshoi ficará fechado por três anos
As autoridades culturais da Rússia e a direção do histórico edifício já a haviam anunciado há três anos, adiantando-se a críticas de organismos como a Unesco, que insistiam na urgência dessas obras. O edifício central do Bolshoi fechará suas portas em 1º de julho próximo, segundo anunciou o diretor-geral da casa, Anatoli Iksanov.

Embora o principal responsável tenha reconhecido que "o teatro está ameaçado de morte", o fechamento temporário está sendo preparado há anos. "O projeto de reconstrução e restauração é dos anos 90, mas para enfrentá-lo com garantias era preciso seguir vários passos", explica ao La Vanguardia a porta-voz do teatro, Ekaterina Novikova.

"Primeiro era preciso construir novos edifícios, depois encarregar-se das companhias. Mas a crise de 98 paralisou todos os projetos por falta de dinheiro."

Em 2002, o Bolshoi passou a depender diretamente do Ministério da Cultura. Foram concedidas verbas, e o projeto recomeçou. Um ano depois, foi levantado um teatro menor junto ao edifício principal, que data de 1825.

"A reconstrução significa viver em condições extremas. Os espetáculos e a companhia continuarão atuando nesse Novo Palco", afirma Iksanov. "Mas devido à transferência os espetáculos deverão ser adaptados para um palco menor."

De 1º de julho de 2005 até 1º de janeiro de 2008, quando está prevista a reinauguração, o Bolshoi não poderá apresentar espetáculo de massas, "como 'Boris Godunov', 'Spartacus' ou 'A Filha do Faraó'".

As companhias de ópera e de balé do Bolshoi abandonarão sua histórica casa pela primeira vez em 150 anos. Ambas foram fundadas em meados do século 19, depois do segundo grande incêndio, em 1853.

O governo russo está empenhado nas obras. O presidente Vladimir Putin visitou pessoalmente as instalações e ofereceu a Iksanov o teatro Kremliovsky Dvorets para ser utilizado por suas companhias durante o tempo que durar a reconstrução.

Outro assunto muito diferente é o financeiro. O próprio Putin disse que o US$ 1 bilhão calculado pelos especialistas é muito dinheiro, tendo em vista as verbas de que dispõe o governo.

Novikova explicou que as autoridades não querem reconstruir o Bolshoi com dinheiro privado. "O Bolshoi é um símbolo de prestígio do país, e por isso se recusou qualquer financiamento não público."

Alguns jornais locais apoiaram o primeiro arquiteto dos trabalhos de reconstrução, Nikita Shanguin, que segundo a "Nezavísimaya Gazeta" sugeriu a Putin que fosse utilizado o fundo de estabilidade do Estado para financiar as obras. Mas o governo não parece disposto.

Novikova, que dirige o departamento de imprensa, deixa claro que a falta de acordo sobre quanto gastar nesse símbolo da cultura russa não mudará os planos da direção. "Há prioridades, o mais importante é a reconstrução, depois a restauração do interior e da platéia."

A primeira coisa que os arquitetos precisam assegurar são os alicerces do edifício. "Os alicerces não estão sobre cimento, e foram afetados pelas constantes mudanças nas correntes de águas subterrâneas", aponta Alexander Melnikov, diretor musical do Bolshoi. Depois desse elemento seria preciso considerar os sistemas de evacuação e antiincêndios.

Mas depois é preciso pensar na qualidade do espetáculo. "As diversas reformas, especialmente nos anos 50, causaram a perda da qualidade sonora do teatro", diz Novikova. Nessa época, os arquitetos mudaram alguns materiais e os substituíram por concreto armado.

Depois da reconstrução o objetivo é que o eterno Bolshoi possa voltar a ser comparado com o Covent Garden de Londres ou o Metropolitan de Nova York.

Dois séculos e meio de vida

  • 1776-1779 - O Sonho de um Mecenas:

    O príncipe Piotr Urusov, que havia organizado uma companhia de teatro em 1772, consegue pôr em ação o projeto de construir um teatro graças ao apoio financeiro da imperatriz Catarina 2ª.

    O edifício começa a ser construído em 1776 na rua Pedro o Grande (Bolshoi Petrovsky). Mas um incêndio o destrói três anos depois, antes que fosse encenada uma única peça.

  • - 1825 A Estréia:

    O sonho do príncipe Urusov será retomado décadas depois por seu sócio, o inglês Michael Medox, que consegue terminar o teatro contra ventos e marés e abri-lo em 1825, com a obra que Urusov tinha planejado: "A festa das musas".

    Início do Século 19

  • A Tradição Russa:

    O Bolshoi se transforma no centro da cultura nacional russa. Seu repertório inclui óperas e espetáculos nacionais como o balé "Ruslan e Ludmila", personagens popularizados pelo poeta Pushkin.

    Nessa época, estréiam as primeiras óperas, como "A Vida pelo Czar", rebatizada em tempos soviéticos como "Ivan Susanin", com a qual se iniciam tradicionalmente as temporadas em setembro.

  • 1853 - Segundo Incêndio:

    O fogo destrói grande parte da fachada neoclássica idealizada pelo arquiteto Osip Bové e completamente as decorações e esculturas do interior. Serão necessários dois anos para reconstruir o edifício.

  • 1857 - Período Italiano:

    A reabertura do teatro marca o início de um período em que os administradores do edifício se encantam pelo "bel canto" italiano. Bellini é a estrela, com óperas como "Os puritanos".

    Século de Ouro Russo

    O êxito e a qualidade da literatura russa chegam também à ópera e ao balé, incluindo o Bolshoi. É a época de Tchaikovski (Evgeny Onegin, A Dama de Espadas, O Lago dos Cisnes), Rimsky-Korsakov (Branca de Neve) ou Borodin (O príncipe Igor).

  • 1917 - Revolução:

    Nesse ano, coincidem dois fatos importantes para o Bolshoi: começam a ser apresentados nele concertos sinfônicos, mas a Revolução de Outubro provoca o fechamento temporário da sala.

  • 1930 - Concreto:

    As reformas com concreto armado danificam a acústica do Bolshoi.

  • 2002 - Reconstrução:

    Neste ano, decide-se a reconstrução do teatro, e um ano depois se constrói um teatro adjacente (Novo Palco), onde continuarão as apresentações durante as obras. Obras vão durar entre 1º de julho de 2005 e 1º de janeiro de 2008 Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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