França celebra cem anos da morte de Júlio Verne

Oscar Caballer
Enviado especial a Amiens

"Senhoras e senhores, certamente leram com assombro no programa de uma tertúlia musical o nome do artista que lhes fala..." O artista era Júlio Verne; o de sábado passado, Michel Duchaussoy, da Comédie Française. O Cirque Jules Verne, da praça Longueville, em Amiens [norte da França], ficou totalmente lotado para celebrar antecipadamente o 116º aniversário de sua fundação, com 200 músicos e o mesmo programa --Rossini, Meyerbeer, Mendelssohn-- daquele 23 de junho de 1889. E abriu a semana chave do centenário da morte de Verne.

É o apogeu do Ano Verne, programado em comum por Nantes, sua cidade natal, e Amiens, onde trabalhou e morreu. Mas na visita prévia à Maison Jules Verne, a casa-museu na qual ele escreveu entre 1872 e 1900, destino de vernemaníacos do mundo inteiro, o jornalista descobriu que fecha no próximo dia 31 para "uma reabilitação completa". Pior ainda, a casa-museu de Nantes, onde ele nasceu, está fechada até setembro "para obras de revalorização".

Jean-Paul Dekiss, autor de duas biografias de Verne, diretor da casa de Amiens e do Centro Internacional Jules Verne, afirma que, em 2001 entreguou à prefeitura 200 páginas com o detalhamento das obras, e até agora não obteve resposta.

No município, o responsável pela Jules Verne 2005 se justifica: "Conseguir os 2,5 milhões de euros levou tempo. Mas reabriremos em dezembro; será o coroamento".

Os vernemaníacos protestam. Jean-Michel Margot publica um documentado "Jules Verne en son temps"; um colecionador americano afirmou ao semanário "Le Point" que decidiu doar seus tesouros à Maison d'Ailleurs, na Suíça.

Um colega, o escritor Robert Scipion, não dá, vende: no próprio dia 24 do centenário, a Artcurial leiloa em Paris sua impressionante biblioteca Verne. "Ocupava oito salas do apartamento do romancista."

Entre as peças que voarão alto, uma versão inédita de "A Ilha Misteriosa", encadernação soberba da primeira edição ilustrada. Outra jóia: "As Aventuras do Capitão Hatteras", de 1876. Dois desenhos obrigaram a uma nova edição; um erro técnico --um barco entra na água pelo lado contrário-- e outro moral: dois marinheiros de uniforme em uma taberna.

Teriam feito melhor figura no Museu da Marinha em Paris, onde "Jules Verne, le roman de la mer" [O romance do mar], está provocando filas de 100 metros de comprimento desde sua inauguração em 9 de março (vai até 31 de agosto). Normal para quem teve três barcos e dedicou ao mar sete em cada dez romances.

Uma semana depois, outro marinheiro lhe rendia a mais vital das homenagens: Bruno Peyron, 47 anos, ganhou pela terceira vez o Troféu Júlio Verne, ou seja, a volta ao mundo (com seu catamarã monstruoso Orange 2º) em 50 dias, 16 horas e 20 minutos.

Claro que um lobo do mar pode preferir a marca de 71 dias, 14 horas e 18 minutos de Ellen Mac Arthur, em fevereiro. A inglesa conseguiu o feito sozinha em um multicasco.

Verne teria ficado encantado com Peyron. Porque se Phileas Fogg arriscou seu recorde para salvar da fogueira a bela viúva do marajá, essa é uma das poucas mulheres na obra do misógino: ele as evitou em 63 romances e várias obras teatrais. Quando as inclui, é para causar problemas: a mãe de Strogoff, refém dos chechenos, causa sua prisão e tortura.

Para o romancista e acadêmico Michel Tournier, "o modelo do esquema Verne é Dom Quixote. O protagonista tem o cérebro cheio de romances de cavalaria. Impõe-se a idéia de comprovar a realidade dessas histórias; veste armaduras, monta a cavalo e sai pelo mundo.

Fogg, maníaco da exatidão, possui os horários de trens e barcos do mundo inteiro. Assim prepara em casa sua volta ao mundo em 1.920 horas. Fogg vai confrontar sua teoria com a prática e assim se chocará com as infidelidades que o mundo empírico inflige ao pensamento puro".

Relação com o editor

O editor de Verne, Pierre-Jules Hetzel, teria sido quem o fez abandonar os sonhos de triunfo no teatro de bulevar, em troca de um salário e da difusão mundial.

Sob a condição de romancear o progresso para os adolescentes. Jean-Paul Gourévitch conta isso em "Pierre-Jules Hetzel, le bon génie des livres" (Le Serpent à Plumes).

Por contrato, Verne devia entregar 450 páginas por ano --um romance longo ou dois curtos. Hetzel se ocupava de multiplicá-los: primeira publicação em sua revista para jovens; depois meio volume ou plaquete e segunda edição de luxo para as festas. Sem esquecer as diversas apresentações de um mesmo título.

Capa de papelão em uma cor, em duas cores, adornadas com ramos de rosas, em leque, com um par de elefantes. Em 1891 entra em cena a policromia e pouco depois a famosa série do globo dourado. Tão diversificada que hoje, entre os colecionadores, um exemplar da série pode variar entre 300 e 100 mil euros.

Hetzel não inventou o livro ilustrado, que nasceu nos anos 1850. Mas foi um de seus primeiros editores. Além disso, lançou a encadernação em papelão, a literatura juvenil e o marketing editorial. E também a reescritura, hoje habitual na França.

"Só aceitou publicar 'Cinco Semanas em Balão', a primeira das 65 viagens extraordinárias, quando Verne aprimorou seu estilo, mudou a ordem de capítulos e a hierarquia de personagens", escreve Gourévitch.

Hetzel, que interrompeu no 11º volume a "Comédia Humana" --"Balzac exigia antecipações e não entregava páginas"--, mas editou George Sand e Victor Hugo, esmiuçava os textos.

"Hetzel insiste; Verne resiste", ironiza o autor em uma das 800 cartas do epistolário comum, mas apreciava a regularidade de Verne. E o escritor, que em Paris havia tido sua cota de boemia, dizia ter-se "casado profissionalmente" com Hetzel, "o melhor partido". O amor é cego.

Difícil ser profeta. Em 25 de março de 1905, o redator do necrológio de "Le Matin" qualificava o legado de Verne como "uma obra gigantesca, mas efêmera. Não durará".

Atividades da terra à lua

Pela primeira vez, fãs de Júlio Verne do mundo todo, representados por 800 pessoas reunidas em diversas associações e grupos da Internet, passam uma semana juntos. Amiens oferece encontros, debates, visitas "seguindo os passos de Júlio Verne na Picardia"...

Os presidentes das Sociedades Júlio Verne do mundo trocam conhecimentos, pontos de interesse e organizam atividades país por país. Uma revista "Júlio Verne" reunirá as intervenções.

Segundo o departamento de turismo de Amiens, também "participaram colecionadores do mundo inteiro para comprar e trocar livros em edições antigas e recentes, cartões-postais, jogos, gadgets..." Na livraria do centro internacional, centenas de obras e produtos dedicados a Júlio Verne.

Por sua vez, Nantes propõe um percurso temático pela cidade, um espetáculo de rua da companhia Royal de Luxe, a reinauguração do Museu Júlio Verne e um festival internacional de ficção-científica, dedicado "ao universo onírico do visionário".

Em Paris, a Actes Sud Juniors apresentou a reedição das "Viagens", que já têm edição completa da Folio Gallimard. Na Albin Michel, "L'Odysée de Jules Verne", de Jean Dermerliac e Michel Serres, com mais de 300 ilustrações e um DVD.

Entre uma dezena de novidades, o estranho e esotérico --à moda de Dan Brown-- "Jules Verne initié et initiateur" (Payot), no qual Michel Lamy afirma que Verne foi o porta-voz de uma seita "que se infiltrou em grande parte do mundo literário e artístico no final do século 19 e início do 20".

Mais apropriados são os 80 dias que a Cité des Sciences dedica ao escritor: três maquetes gigantescas, a reconstituição de sua biblioteca, festival de cinema (26 de março a 22 de abril) e em 29 de março a estréia do documentário "Jules Verne et la mer". Centenário de viagens literárias de um inventor de mundos futuros Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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