"O cinema pode servir para as pessoas serem menos imbecis", diz Claude Chabrol

Diego Muñoz
Enviado especial a Paris

Na próxima semana estréia na Espanha "A Dama de Honra". É o filme nº 52 --sem contar mais uma vintena de filmes para televisão-- de Claude Chabrol, que há quase meio século é uma das figuras mais destacadas do cinema francês, fundador da Nouvelle Vague e possivelmente um dos maiores franco-atiradores que houve contra a burguesia no século 20.

Prestes a completar 75 anos, seu cinema não apenas se mantém distante do formol como é o mais radical, perverso e polar em cada filme.

Exatamente no gênero "noir" é ambientada "A Dama de Honra" e, como "A Cerimônia", se baseia em um romance de Ruth Rendell, no qual Benoit Magimel e Laura Smet formam um casal tão pouco convencional que se atreve a defender o assassinato como prova máxima de amor.

"O cinema às vezes pode servir para que as pessoas sejam menos imbecis", afirma Chabrol na entrevista que deu a este jornal na última quinta-feira em Paris.

La Vanguardia - Os protagonistas de seus filmes são jovens. Como o senhor se sente?

Claude Chabrol -
Não tenho outro remédio senão comprovar há alguns anos que os protagonistas de meus filmes são cada vez mais jovens, e me causa muito prazer que não me digam que parecem filmes feitos por um velho. Creio que isso se deve ao fato de eu não me sentir tão velho.

LV - O senhor tem vontade de dar conselhos aos jovens?

Chabrol -
O único conselho que eu penso em dar a qualquer pessoa é: nunca escute um conselho.

LV - Os protagonistas de "A Dama de Honra" são um pouco menos burgueses que os de outros filmes, mas não se pode negar o encanto nada discreto que teve a burguesia para o senhor.

Chabrol -
É verdade. Mas, embora pareça estranho, não fiz tantos filmes sobre a burguesia como se diz geralmente. Pouco mais da metade deles se passa em um ambiente burguês. O que ocorre é que a grande maioria de meus filmes tem lugar nesse meio, o da burguesia, porque é o que conheço melhor. De meus últimos filmes, "Uma Festa de Prazer" e "A Teia de Chocolate" tratavam da burguesia; "Negócios à Parte" não, e este agora tampouco.

LV - Em "A Dama de Honra", o senhor projeta uma imagem da família pouco edificante, não?

Chabrol -
A família é uma das maiores fraudes que existem. A idéia tradicional da família é abominável e a da árvore familiar é uma invenção monstruosa. A família torna-se atroz quando se transforma em uma estrutura social obrigatória.

LV - Seu filme contém uma das propostas mais libertárias e selvagens que apareceram no cinema nos últimos anos: assassinar alguém para demonstrar o amor é a única maneira de rebelar-se. Agora que dizem que a anarquia morreu, Chabrol se considera o último anarquista?

Chabrol -
Não, absolutamente. Não me considero um anarquista, mas sim considero que a personagem de Senta, interpretada por Laura Smet, que na vida real é filha de Johnny Halliday e Nathalie Baye, é como uma anarquista pura. Eu irei ainda mais longe. Ela representa mais ou menos a metade dos anarquistas: aqueles que são anarquistas pelo que lêem, que se tornam anarquistas assim como seriam seguidores da filosofia hindu se lessem sobre o carma.

LV - Para alguns, "A Dama de Honra" não é apenas mais um filme seu; é um Chabrol em estado puro. O senhor pode se permitir não fazer cinema alimentício?

Chabrol -
Reconheço que de meus 50 e tantos filmes uma dúzia deles foi para comer. E de hoje até o dia de minha morte espero, se não viver tanto como Manoel de Oliveira, não precisar fazer filmes para comer. Já estou há alguns anos desfrutando o luxo de fazer só os filmes que quero.

LV - Quando o comparam, como em "A Dama de Honra", ao mestre do suspense Alfred Hitchcock, o senhor se incomoda, não se importa ou aprecia?

Chabrol -
Acho mais agradável que me comparem com Hitchcock do que com um diretor ruim. Mas se é para fazer comparações creio que meus últimos filmes se parecem mais com os de Buñuel do com que os de Hitchcock, que me interessa menos, enquanto Buñuel é um mestre para mim.

LV - Já que falamos de mestres e de gêneros, para quê o senhor acredita que o cinema deve servir?

Chabrol -
Eu sou uma pessoa muito feliz na vida. Tenho uma vida muito agradável e vivo quase em beatitude. Mas uma coisa que impede minha beatitude completa é saber que há muita gente que não é feliz. Eu tendo a fazer filmes para que essa gente que não é feliz, se quiser pensar, tenha um elemento que favoreça essa reflexão para tentar ser mais feliz. Mas não posso fazer tudo sozinho, porque há muita gente que vive como um imbecil, uma vida idiota, embora o cinema às vezes possa servir para que as pessoas sejam menos imbecis. Não sou paranóico, mas na sociedade há uma conspiração para que as pessoas levem uma vida idiota.

Um diretor fascinado pelas mulheres

Seu companheiro de labuta da Nouvelle Vague, François Truffaut, era conhecido como o homem que amava as mulheres.

Truffaut já não está entre nós, mas Chabrol sim, e embora de maneira menos carnal que o autor de "Os Incompreendidos", analisando seus filmes não resta dúvida de seu fascínio pelas mulheres. Enquanto os homens geralmente aparecem como na realidade, anódinos, as mulheres de Chabrol são sempre fascinantes.

"Assim como o poeta Aragon, creio que a mulher é o futuro do homem", confessa o diretor de "A Dama de Honra". "As mulheres são mais fortes que os homens", acrescenta, "e cada vez mais homens se transformam em mulheres."

Sobre se o cinema de hoje precisa de outra Nouvelle Vague, responde: "Talvez não fosse ruim, porque uma grande parte do cinema atual só é feita por dinheiro. Mas me disseram que o último de Clint Eastwood é ótimo, o que demonstra que até nos Estados Unidos de Bush se pode fazer um bom filme!" Diretor do novo "A Dama de Honra" concede entrevista a LV Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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