CIA deu informações falsas sobre o Iraque

Andy Robinson
Em Nova York

Em fevereiro de 2004 o presidente George W. Bush nomeou uma comissão para investigar os erros cometidos pela inteligência americana no Iraque, e a comissão divulgou ontem seu relatório: o texto qualifica de "totalmente errônea" a informação sobre as armas de destruição em massa que Saddam Hussein supostamente possuía, argumento utilizado pelos governos americano e britânico para justificar a guerra no Iraque.

A comissão critica a Agência Central de Inteligência (CIA) por sua "incapacidade para recolher informações confiáveis sobre os programas de armas de destruição em massa" e por cometer "erros graves" ao avaliar se suas conclusões "se baseavam em suposições, em vez de provas confiáveis". O informe adverte que "a má notícia é que ainda sabemos tão pouco, de modo a ser inquietante, sobre as intenções de muitos de nossos adversários mais perigosos", numa referência, supõe-se, à Coréia do Norte e ao Irã.

Mas são as ausências do relatório de quase 700 páginas o que mais chama a atenção. Os dez integrantes da comissão, todos do establishment político de Washington e nomeados pela Casa Branca, acrescentam ao informe uma carta na qual afirmam que "a comissão não encontrou qualquer indício de que a comunidade de inteligência tenha distorcido provas em relação às armas de destruição em massa no Iraque". Mas tampouco apresentam uma explicação alternativa verossímil para erros tão garrafais.

"Só se conta a metade da história", disse a "La Vanguardia" Ray McGovern, um ex-agente da CIA que investigou a história dos trabalhos da inteligência americana no Iraque. McGovern afirma que há indícios abundantes de que a CIA foi pressionada por altos representantes do governo em 2002 para justificar a decisão de ir à guerra, que fora tomada meses antes.

"Dick Cheney visitou a sede da CIA em diversas ocasiões em 2002. Em meus 25 anos na agência, jamais um vice-presidente havia passado por lá", acrescentou McGovern. Condoleezza Rice, então conselheira de Segurança, e Colin Powell como secretário de Estado também visitaram a sede da agência em 2002. Há outros indícios de que o governo exerceu forte pressão sobre a CIA para encontrar provas que justificassem a guerra. Em seu depoimento diante de uma comissão do Senado, o ombudsman da CIA afirmou no ano passado: "Em meus 32 anos na CIA nunca tinha visto uma pressão tão forte".

Não há qualquer referência a essas pressões no amplo informe da comissão, presidida pelo conservador republicano Lawrence Silberman e o democrata Charles Robb, e da qual participam representantes políticos como o senador dissidente republicano John McCain ou Henry Rowen, um dos autores do documento neoconservador "New american century" [Novo século americano].

O mais próximo que o relatório chega de salpicar a Casa Branca é em sua recomendação para "modificar as consultas que o presidente tem diariamente em questões de inteligência". O relatório constata que "devido a títulos elaborados para chamar a atenção e à repetição de dados discutíveis, esses 'briefings' exageraram o argumento de que o Iraque estava reconstruindo seus programas de armas de destruição em massa". O relatório da comissão omite o fato de que agentes do Pentágono vazavam essa informação duvidosa diretamente para os meios de comunicação, com o fim de conseguir manchetes na imprensa, algo ainda mais importante no esforço para legitimar a guerra diante da opinião pública.

A comissão foi nomeada em fevereiro de 2004 pelo presidente Bush, forçado na época a reagir às declarações de David Kay, o investigador da CIA que afirmava não ter encontrado nem rastro de armas de destruição em massa no Iraque. O presidente americano estipulou que as conclusões do relatório só deveriam ser publicadas depois das eleições.

Na verdade, porém, o tom duro do documento, assim como na comissão do 11 de Setembro em suas críticas à inteligência sem mencionar as pressões do governo, veio a calhar para a Casa Branca. "Não podemos nos permitir o luxo de falhas de semelhante magnitude", sentencia o relatório. Atualmente, sob seu novo diretor, Porter Goss, realiza-se um expurgo entre os diretores da CIA, alguns dos quais tentaram se defender através de vazamentos para a mídia.

O relatório propõe medidas. Fazendo eco à comissão do 11 de Setembro, recomenda que o novo diretor da Inteligência Nacional, John Negroponte, receba poderes sobre programas, questões orçamentárias, pessoal e prioridades. Isso de fato põe fim à CIA como se conhece hoje, e a subordina a esse novo cargo de diretor da Inteligência Nacional, que reúne poderes no âmbito da inteligência nacional e internacional. Também aconselha que o FBI se integre à comunidade de inteligência, transformando seus recursos de contraterrorismo e contra-inteligência em um só serviço nacional de segurança.

Bush quer reformar espionagem

Depois da apresentação do relatório, o presidente americano afirmou que há necessidade de "uma mudança fundamental" nos órgãos de espionagem para reagir à ameaça do terrorismo. Bush qualificou o documento de "sério e extremamente significativo", uma análise "sem enfeites" dos serviços de inteligência americanos. "Precisamos entender as ameaças e nos adaptar" para enfrentá-las, declarou.

Nesse sentido, Bush pediu ontem ao Senado para confirmar John Negroponte, seu ex-embaixador no Iraque, como primeiro diretor da Inteligência Nacional. A votação está programada para dentro de duas semanas. Negroponte, um homem que carece de experiência nos serviços secretos, apesar de ter sido embaixador na América Central durante os anos de maior atividade dos grupos paramilitares e antiesquerdistas, terá entre seus deveres o de coordenar os diversos órgãos de inteligência e informar ao presidente sobre os dados que esses serviços podem trazer. A nomeação do diplomata veterano é considerada certa, devido à maioria republicana no Senado. Comissão nomeada por Bush vê "erros graves" mas descarta "distorção de provas" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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