Facções conservadoras cresceram no papado de João Paulo 2º e dominam a igreja

Luis Fermín Moreno*
Especial para o LV

Das ordens religiosas clássicas para os novos movimentos eclesiais. Assim se pode descrever um dos principais efeitos do pontificado de João Paulo 2º no interior da Igreja Católica. Ou, quando menos, nas relações de influência e poder dos diversos grupos da igreja em torno do Vaticano e da hierarquia eclesiástica. Tanto é assim que movimentos como Opus Dei ou Comunhão e Libertação poderão ser decisivos no resultado do próximo conclave, a julgar pelos cardeais que pertencem a eles ou se movem em sua órbita.

James Hill/The New York Times

Multidão caminha através da basílica de São Pedro para ver João Paulo 2º
O advento de Karol Wojtyla ao trono pontifício representou, praticamente desde o início, uma clara mudança de orientação. Pouco depois de chegar ao Vaticano, o papa elaborou seu projeto de nova evangelização, que tinha um duplo objetivo: de um lado restaurar a força de uma igreja que considerava debilitada pelos desvios do Concílio Vaticano 2º e, de outro, reforçar a presença católica em uma sociedade cada vez mais secularizada.

João Paulo 2º decidiu pôr seu projeto nas mãos do que depois veio a se chamar de "novos movimentos eclesiásticos", em detrimento da antiga vanguarda dos exércitos papais: jesuítas, dominicanos e franciscanos, principalmente, que, na opinião dele, tinham ido longe demais na interpretação da nova igreja anunciada pelo concílio, aproveitando o mar de dúvidas que foi Paulo 6º em seus últimos anos.

Esses novos movimentos, todos de criação recente e eminentemente laicos, tinham nomes desconhecidos que hoje são familiares para quase todos: Opus Dei, Caminho Neocatecumenal, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação ou Focolares, entre outros.

Em 1978, a Companhia de Jesus era a maior ordem religiosa do mundo, com 30 mil membros, colégios e universidades nos países mais ricos do planeta e numerosos meios de comunicação. Mas também era a principal animadora da teologia da libertação, cuja aproximação do marxismo não podia ser aprovada por um papa originário da Polônia subjugada pelo comunismo.

O controle da companhia começou em 1980. O papa proibiu Pedro Arrupe, preposto geral, de convocar uma congregação geral --na qual este, doente, pensava em se demitir-- para evitar a eleição do americano O'Keefe, homem polêmico e partidário, entre outras coisas, do sacerdócio dos homens casados.

João Paulo 2º manteve Arrupe isolado durante um ano, suspendeu a constituição jesuítica e nomeou para chefiar a ordem uma pessoa de sua confiança, o italiano Paolo Dezza, de 80 anos. O governo da companhia só se normalizou em 1983, com a eleição do atual preposto geral, Peter Hans Kolvenbach.

Hoje, os jesuítas são pouco mais de 20.400 e continuam na vanguarda da evangelização, mas, embora ainda dirijam a prestigiosa Universidade Gregoriana de Roma e nove deles sejam cardeais, só poderão votar no conclave e sua influência na igreja é escassa.

Com os demais, bastou o exemplo do que ocorreu com os jesuítas: a condenação da teologia da libertação em Puebla (1979), os processos abertos pela Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício, de teólogos como Hans Küng (1979) ou o franciscano Leonardo Boff (1984), e as chamadas de atenção aos episcopados considerados mais avançados, como a advertência aos bispos holandeses em 1980.

Paralelamente, os novos movimentos foram tomando posições em torno de Roma, com a Opus Dei como ponta-de-lança. De fato, João Paulo 2º nunca ocultou sua proximidade desse movimento, que até então fora visto com desconfiança pelo Vaticano.

Com o novo papa, sua ascensão foi vertiginosa. Já em 1978, poucos dias antes do primeiro conclave após a morte de Paulo 6º, o então cardeal Wojtyla visitou Villa Tevere, sede do Opus Dei, e rezou diante do túmulo de Escrivá.

Em 1982, com as reticências da maioria dos cardeais, deu à organização o título de "prelatura pessoal". Criado na medida para a Opus Dei, esse estatuto lhe concede os atributos de uma verdadeira diocese sem limitação territorial. O prelado da Obra depende diretamente do papa, escapando assim à autoridade dos bispos diocesanos.

Em 1984, João Paulo 2º nomeou diretor do escritório de imprensa da Santa Sé, e portanto o único porta-voz papal, um jornalista espanhol membro da Obra, Joaquín Navarro Valls, autêntico criador de toda a estratégia de comunicação do papa.

Em 1992, o fundador da Obra foi beatificado apenas 17 anos depois de sua morte. Em 1994, depois da morte do sucessor do fundador, monsenhor Álvaro del Portillo, João Paulo 2º voltou à sede da prelatura e rompeu significativamente o protocolo --segundo qual o papa só se ajoelha diante dos restos mortais de um cardeal-- e ajoelhou-se diante de seu caixão. Em 2002, finalmente, Escrivá de Balaguer chegou aos altares como São José Maria.

O apoio do papa aos movimentos foi claro desde o início. Em diversas ocasiões, João Paulo 2º reuniu seus líderes, aprovou sua tarefa e os animou a continuar em sua missão. Em 1981, declarou em um congresso sobre novas realidades da igreja que esses "movimentos e as manifestações de energia e de vitalidade eclesiais que os caracterizam devem ser considerados certamente um dos mais belos frutos da vasta e profunda renovação espiritual promovida pelo último concílio".

João Paulo 2º reiterou em outras ocasiões, como em 1996: "um dos dons do espírito em nosso tempo é o florescimento dos novos movimentos eclesiais, que desde o início de meu pontificado continuo indicando como motivo de esperança para os homens. Eles são um sinal da liberdade de formas nas quais se realiza a única igreja e representam uma segura novidade".

Esse apoio ficou oficializado no famoso Congresso Internacional dos Movimentos Eclesiásticos, realizado em Roma no significativo dia de Pentecostes de 1998. Embora o encontro tenha reunido 56 desses novos grupos, o papa decidiu reunir-se em público com os líderes e fundadores de sete deles, escolhidos "em virtude de sua extensão e representatividade universal".

São eles: Kiko Argüello, do Caminho Neocatecumenal; Chiara Lubich, dos Focolares; Luigi Giussani, da Comunhão e Libertação; Patti Mansfield, da Renovação Carismática Católica; Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo; Andrea Riccardi, da Comunidade de São Egídio, e Joaquín Allende, da Schoenstatt.

"O espírito santo está aqui", disse João Paulo 2º naquele dia, "esta tarde, conosco, e vocês são a prova dessa nova efusão, a resposta providencial ao dramático desafio deste fim de milênio". E concluiu: "A partir de agora abre-se uma nova etapa, a da maturidade eclesial".

Assim, enquanto as congregações tradicionais perdem vocações em ritmo acelerado e a idade média de seus membros ronda os 63 anos, os movimentos minoritários antes de 1978 conseguiram reunir vários milhões de fiéis em todo o mundo, a maioria deles jovens.

Tais movimentos conseguiram aumentar sua influência na igreja. Esse auge deve-se sem dúvida a algumas de suas características --líderes carismáticos, promoção dos leigos, preeminência da espiritualidade, fidelidade absoluta ao pontífice-- que os levou a pessoas e lugares aos quais a estrutura tradicional da igreja não chega.

Mas ninguém deixa de notar que precisamente essas características provocaram no início --e ainda o fazem em alguns setores-- sérias reticências na igreja institucionalizada: congregações, paróquias e muitos bispos, devidas em parte a outros traços negativos que também são imputados aos movimentos, como o fundamentalismo de suas posições, a ausência de dimensão social ou a criação de uma igreja paralela.

O próprio João Paulo 2º reconheceu isso no congresso de 1998: "a difusão das novas comunidades provocou interrogações, mal-estares e tensões; algumas vezes implicou presunções e intemperanças, por um lado, e por outro não poucos preconceitos e reservas. Foi um período de prova para sua fidelidade, uma ocasião importante para verificar a autenticidade de seus carismas".

Uma fidelidade que o pontífice retribuiu generosamente. Em 1991, deu um primeiro aviso que depois repetiu em várias ocasiões: "A grande novidade consiste na co-essencialidade dos movimentos na vida da igreja junto à hierarquia".

Hoje, os movimentos gozam de um respaldo vigoroso por parte dessa hierarquia, e muitos bispos os solicitam para animar a vida católica em suas dioceses. Sabem também que Roma está com eles e não hesitam em apelar diretamente ao papa quando necessário, como ressaltou Kiko Argüello no Congresso de Católicos e Vida Pública celebrado em novembro de 2003 em Madri: "Contamos cem por cento com o apoio do papa".

Nessa mesma linha, os novos movimentos, sem abandonar os laicos, foram se clericalizando em maior ou menor grau, criando ramos sacerdotais, formando seus próprios padres e até fundando seus próprios seminários.

Naturalmente, os sacerdotes associados ou membros desses movimentos foram promovidos à hierarquia nos últimos anos e se situaram nas estruturas de poder, tanto no Vaticano como nas igrejas locais.

Opus Dei

O movimento mais influente na igreja atual é o Opus Dei. Com 84 mil membros, segundo o escritório de informação da prelatura, 1.800 deles sacerdotes e 26% solteiros, está presente nos cinco continentes e tem dois cardeais e numerosos bispos, principalmente na América Latina: sete no Peru (um deles, monsenhor Cipriani, cardeal-arcebispo de Lima), quatro no Chile, dois no Equador, um na Colômbia, um na Venezuela, um na Argentina e um no Brasil.

É significativo que dois deles tenham sido nomeados sucessores de personalidades como Óscar Romero, em San Salvador, e Hélder Cámara, em Recife.

A Suíça e a Áustria também têm bispos da Obra, enquanto na Espanha há dois: Jaume Pujol, nomeado diretamente arcebispo de Tarragona, e Francisco Gil Hellín, arcebispo de Burgos, vindo da cúria romana.

Mas conta com a simpatia de quase todos os demais bispos espanhóis: 50 deles assistiram à canonização de São José Maria em outubro de 2002. O mais entusiasta é sem dúvida o primaz de Toledo, Antonio Cañizares.

Mas sua influência se nota sobretudo na cúria romana. Membros do Opus ocupam postos importantes em quase todos os órgãos vaticanos.

Entre eles, destacam-se os espanhóis Julián Herranz, nomeado cardeal em outubro de 2003 e presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos; Joaquín Navarro Valls, porta-voz do Vaticano, e Justo Mullor, diretor da Escola Diplomática.

Também se consideram próximos o secretário pessoal do papa, monsenhor Diwisz; os cardeais Sodano, López Trujillo e Moreira Neves; o secretário para as Relações com os Estados, monsenhor Lajolo, e o cardeal-arcebispo de Milão e papável Dionigi Tettamanzi.

Além disso, a influência da Obra se estende às elites políticas, econômicas, militares e universitárias de diversos países, sobretudo na Espanha, Itália e América Latina. No total, o Opus Dei está relacionado com 500 colégios e universidades no mundo, 52 rádios, 12 produtoras de cinema e televisão, 12 editoras --uma delas a poderosa Mondadori italiana--, 604 jornais e revistas, 38 agências de informação e 18 bancos.

Caminho Neocatecumenal

Por seu número, já que não pela influência, deve-se mencionar depois o Caminho Neocatecumenal. Esse "itinerário de formação cristã", como o definem seus estatutos, está difundido em 105 países e conta com pouco mais de um milhão de seguidores, integrados em 16.700 comunidades.

Dada sua juventude (nasceu em 1964 em Madri), não conta com membros entre a hierarquia romana, mas seus fundadores, Kiko Argüello e Carmen Hernández, supostamente têm "abertos os aposentos privados do papa", e o grande teólogo do movimento é o recém-eleito presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Ricardo Blázquez, titular da diocese de Bilbao.

Seu forte é o envolvimento nas paróquias e a animação paroquial. Assim, há 16.700 comunidades em 4.900 paróquias de 883 dioceses de todo o mundo. O Caminho também sustenta 53 seminários próprios, chamados Redemptoris Mater, com 1.500 alunos e de onde já saíram 731 sacerdotes.

A cada ano, convidam cerca de 150 bispos para encontros, para lhes explicar o Caminho; e têm centros religiosos em Israel, a Domus Galilae, para organizar cursos bíblicos; em Porto San Giorgio (Itália), Lima (Peru) e San Pedro del Pinatar e El Escorial (Espanha).

Na Espanha, além de Blázquez, têm o apoio declarado dos cardeais Rouco y Carles e do bispo de Segorbe-Castellón, Juan Antonio Reig. Levante, Múrcia --onde dirigem a Universidade Católica--, San Antonio, Andaluzia e Madri são suas zonas de maior implantação.

CyL

Menor em número, a Comunhão e Libertação (CyL) é o movimento que tem apoio mais explícito entre a hierarquia, dada sua forte implantação na Itália, onde foi fundado em 1954. Não se conhecem os números globais de membros, mas estão em 70 países, embora sua presença, ativa e sobretudo vinculada aos ambientes universitários, seja geralmente testemunhal.

Um bom exemplo disso é a Espanha, onde chegam a apenas 1.500 em 24 cidades, mas têm a editora Encuentro, o Banco de Alimentos e as associações estudantis Universitas.

Contudo, estão próximos desse movimento os bispos de Granada, Francisco Javier Martínez, e de Oviedo, Carlos Osoro. E também estão próximos os de Valladolid, Braulio Rodríguez; os bispos auxiliares de Madri Eugenio Romero Pose e César Augusto Franco, homens de confiança do cardeal Rouco, e grande parte dos escrituristas da Escola de Madri.

Na Itália, pelo contrário, são mais de 100 mil, espalhados principalmente pelo norte do país, e contam com os cardeais Scola, patriarca de Veneza e primeiro purpurado do movimento, e Biffi, arcebispo de Bolonha, ambos também papáveis, como grandes protetores, além do aval de teólogos como o igualmente cardeal falecido Hans Urs von Baltasar.

Outros grupos

No país transalpino, gozam também de certa influência cultural e econômica por meio da Companhia de Obras, associação que engloba mais de 9 mil empresas e obras de caridade e política por meio do Movimento Popular, ramo da refundada democracia-cristã. O jesuíta e cardeal Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, é outra das figuras eclesiásticas próximas desse grupo.

Muito menor, talvez, é a influência de outros movimentos claramente respaldados pelo Vaticano, como os Focolares ou os Legionários de Cristo. Os primeiros, conhecidos oficialmente como Obra de Maria, estão em 182 países, mas são apenas 110 mil, cifra que alguns ampliam para 4,5 milhões ao somar os simpatizantes que integram as 22 organizações de todo tipo para sacerdotes, jovens, famílias, laicos de paróquias, etc., que giram em torno desse movimento.

Os países de maior presença são Itália e Brasil, e sua influência não se deve tanto a sua proximidade da hierarquia da igreja como à economia de comunhão, uma modalidade de gestão empresarial que utiliza os benefícios obtidos para obras de ação social e serviços aos próprios clientes.

Na atualidade, mais de 700 empresas funcionam no mundo segundo esse método. Delas, 274 estão na Itália, 90 no Brasil, 38 nos Estados Unidos, 19 na Argentina e 13 na Espanha. Embora vivam e atuem muito mais silenciosamente, pelo menos cinco bispos na Itália e um na Espanha --monsenhor Francisco Pérez, arcebispo castrense e diretor das Obras Missionárias Pontifícias-- pertencem ou são próximos do movimento focolar.

Por último, os Legionários de Cristo --cujo ramo laico chama-se na realidade Regnum Christi-- são cerca de 400 mil distribuídos por 34 países, principalmente o México, seu país natal, Estados Unidos, Chile e Colômbia.

Deles, 530 são sacerdotes e cerca de 2.500 seminaristas. Na Europa ainda estão pouco difundidos, e quase todos na Espanha. Segundo o jornalista José Martínez de Velasco, autor do livro "Os Legionários de Cristo", "a Espanha é a base operacional para a expansão legionária para Roma e o continente europeu".

Titulares da universidade privada Francisco de Vitoria, os legionários se concentram na educação dos mais jovens. Hoje a Legião escolariza 60 mil alunos em todo o mundo.

Pelo contrário, na América os legionários chegaram a rivalizar em poder com a Opus Dei. Como esta, contaram com o apoio explícito do papa e de vários cardeais da cúria. Seu fundador, o padre Marcial Maciel, dirigiu a primeira viagem de João Paulo 2º pelo México no início de seu pontificado.

O papa ordenou pessoalmente 60 legionários em uma cerimônia inédita na Basílica de São Pedro em 1991. Quatro anos depois beatificou Rafael Guizar, pai espiritual e avô de Maciel, primeiro bispo latino-americano beatificado.

Além disso, no México, dois centros universitários da região levam o nome de João Paulo 2º, o que teria sido inconcebível sem seu aval. Gestos públicos à parte, a influência dos Legionários de Cristo está a anos-luz do Opus Dei --em cujas mãos pode estar a eleição do novo papa-- ou o resto dos principais movimentos.

Seja como for, os novos movimentos eclesiais aprenderam a atuar caladamente nas questões de política interna da igreja, por isso é difícil conhecer os dados ou a influência real de cada um deles. Mas, como indica um conhecido teólogo madrilenho que prefere permanecer no anonimato, "seu poder atual é tamanho que seria preciso um pontificado pelo menos tão longo quanto o de João Paulo 2º para acabar com ele".

Quer dizer: haverá novos movimentos por um bom tempo.

*Luis Fermín Moreno é jornalista e colaborador de publicações cristãs. O fim do papa polonês Karol Wojtyla. O papa dos movimentos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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