Roma assiste ao desembarque dos "papa boys"

Josep Play Maset
Enviado especial ao Vaticano

São jovens de 14 a 20 anos. Chegam com seus monitores de escoteiros, com os sacerdotes das paróquias, com os professores do colégio ou simplesmente com seus amigos. Desembarcam em Roma de ônibus ou trens. Muitos nem ficam para dormir, vão diretamente para a Praça de São Pedro para se despedir de seu papa e voltam para casa. São os "papa boys", os "ragazzi" de Karol.

Como Serena, 16 anos, que chegou de Benevento, na Campania, com outros jovens da paróquia de Santa Inês. Chegaram à estação central de Roma, Termini, que desde esta quinta-feira (7/4) por decisão do prefeito se chama João Paulo 2º, às 23h30 de terça-feira e foram de ônibus até a Basílica de São Pedro. Às 12hs15 de quinta, quase 13h depois, conseguiram entrar na capela ardente. E à tarde, sonolentos, esperavam de novo na plataforma para regressar.

"Era um dos nossos, um vizinho, mas um homem com um carisma especial. Por isso viemos nos despedir", diz Serena. A seu lado, Peppino, que fala discretamente o castelhano, dá sua visão particular: "O papa se sentia bem com os jovens, e nós com ele. Por isso em seu testamento não disse que queria ser enterrado na Polônia, mas aqui, na cidade que sempre o protegeu".

E quando o padre que os acompanha se afasta alguns metros, acrescentam uma opinião que seus companheiros corroboram: "Este papa foi único, não criava diferenças. Por outro lado, a hierarquia da igreja, os bispos, parecem distantes".

Eles foram dos principais agentes de João Paulo 2º. E sua presença maciça e alegre nas ruas romanas ainda causa surpresa. Adolescentes que passam mensagens por celular com brincadeiras, que levam um terço na mochila e pegam o violão para cantar ao papa: "Aleluia, ressurgirá".

Concordam com a idéia de que era um papa progressista no social e conservador no moral? "Não creio que fosse um conservador; pelo contrário, era um inovador. Ele dizia as coisas que ninguém se atrevia, foi uma referência", acrescenta Peppino.

De Reggio Calabria chegaram 20 escoteiros. Passaram seis horas no trem e farão o mesmo percurso. "Ele é o maior e foi o mais humilde. É difícil sintetizar seus méritos, não sei...", diz um menino que não quer dar seu nome. Seus companheiros vão dando opiniões. "Talvez o melhor seja sua maneira simples de se aproximar dos jovens", aponta Sergio. "Sua capacidade de comunicar-se", diz outro.

O bom tempo permitiu que pudessem passar essas horas na rua. Comem nas praças, dormem nos jardins e mal se aproximaram dos estádios oferecidos pela Defesa Civil. Na imensa esplanada do Circo Máximo na tarde de quinta havia uma centena de jovens. Vários casais beijando-se na grama, alheios a tudo, um grupo de adolescentes jogando futebol e o resto dormindo ou montando tendas. E na Fontana de Trevi não cabia uma agulha. Perto de São Pedro já era uma loucura.

Os "papa boys" não vieram a Roma para ver o papa em uma das 26 telas gigantes que foram instaladas em diversos pontos. Querem mostrar os cartazes simples montados sobre cartolina com a palavra "Obrigado".

Nos arredores da Via della Conciliazione foram distribuídas milhares de folhas da Gioventú Ardente Mariana com esta frase: "Nos veremos no paraíso".

Um sacerdote se aproxima: "Ele soube ganhar o afeto dos jovens por seu rigor, por sua intransigência moral e por seu radicalismo evangélico". São testemunhos de uma sintonia que dificilmente voltará a se repetir.

Aliança com o padre Karol

O fascínio dos jovens por João Paulo 2º vai além de seus poderes midiáticos. Seus próprios biógrafos falam em uma "força enigmática" que cria afeto, fidelidade e respeito entre as novas gerações. Uma aliança que começou quando Karol Wojtyla pensava em se tornar salesiano, fruto de sua admiração por Dom Bosco.

Em 1984, ele criou a Jornada Mundial da Juventude e, segundo a cúria vaticana, em sua agenda de 2005, quando já tinha apagado todos os compromissos devido à doença, só restava a jornada de agosto próximo, em Colônia. Em 1997 Wojtyla se consagrou como o amigo dos jovens na Jornada Mundial da Juventude em Paris, com mais de um milhão de participantes. Os jovens seguidores de João Paulo 2º vão em massa se despedir Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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