Grã-Bretanha convencida de nova vitória de Blair

Rafael Ramos
Em Londres

Tony Blair quer um lugar nas enciclopédias históricas com três vitórias eleitorais, e Michael Howard se conforma em mostrar o caminho do oásis para os conservadores derrotados da Escócia, Gales e das grandes cidades. A provável conseqüência é que o ganhador em 5 de maio seja o partido da apatia.

Uns e outros se dedicaram por enquanto a desacreditar as iniciativas do rival, em vez de atrair o eleitorado com novas idéias. Os conservadores exploram a xenofobia e propõem limites drásticos para a imigração, enquanto os trabalhistas denunciam que os números conservadores estão errados e que seu programa de menos impostos e gastos públicos arruinaria o Estado do bem-estar social. Nada de novo sob o sol.

A direita precisa de urgência e ambição, porque no fundo não se sente ameaçada por Blair, mas o considera "o melhor primeiro-ministro conservador" que é possível ter hoje no Reino Unido, e o homem mais adequado para levar o thatcherismo à próxima etapa. E a esquerda se sente decepcionada pelo projeto do novo trabalhismo, com a renúncia ao coletivismo e a aceitação de um modelo social herdado.

Michael Howard, o líder conservador, conforma-se em dar uma mordida na arrasadora maioria trabalhista de 161 assentos, e já assumiu a chamada estratégia do assobio: fazer soar com palavras-chaves a rejeição aos imigrantes, aos impostos e à criminalidade para que as ovelhas desgarradas voltem ao curral.

A tática deu certo resultado até agora, mas tem um duplo inconveniente: não conquista novos eleitores e lembra a muitos trabalhistas os motivos pelos quais Tony Blair é um mal menor.

Como disse o dissidente Robin Cook, que se demitiu do gabinete por causa da guerra do Iraque, "é preciso tapar o nariz, votar trabalhista e esperar que Gordon Brown (o ministro das Finanças) assuma logo o lugar".

O único motivo de preocupação entre os conservadores britânicos é a distância das benesses do governo e o medo de que os trabalhistas definam a agenda e estabeleçam o âmbito do debate político.

Mas o desespero não se disseminou, porque o primeiro-ministro é um triangulador da escola Clinton, cuja maior obsessão é ter o poder, em vez de utilizá-lo, para o que busca uma acomodação com os multimilionários, com a City, com o jornal "Financial Times" e com o magnata das comunicações Rupert Murdoch.

Escaldado por 18 anos de oposição trabalhista, Blair busca antídotos para evitar que isso volte a ocorrer, como aceitar o fundamentalismo dos mercados, introduzi-lo na gestão dos serviços públicos e assumir o papel de neoliberal thatcherista de bom coração dentro de um traje social-democrata.

Os panfletos eleitorais do novo trabalhismo consideram injustas as críticas, e apresentam Blair como um fabiano gradual que está transformando o país sem sobressaltos, pouco a pouco, conseguindo erradicar a pobreza infantil, melhorar a educação e a saúde públicas, estabelecendo um salário mínimo e mantendo uma economia dinâmica, tudo isso sem aumentar a carga fiscal de maneira ostensiva. E na opinião deles não é pouca coisa.

Blair faz cálculos com o poder, cultiva a ambigüidade, triangula, busca consensos. Howard importa a guerra cultural dos Estados Unidos, mas com menos êxito porque os neoconservadores são menos na Grã-Bretanha e ainda estão nos cueiros. E a apatia avança porque, ganhe quem ganhar, os britânicos acordarão em 6 de maio com um primeiro-ministro que apoiou a guerra do Iraque, vende armas para o Terceiro Mundo, tem alergia a aumentar impostos, ignora o meio ambiente e assume com entusiasmo o legado thatcherista.

A loteria das eleições

Os números da loteria das eleições gerais britânicas de 2005 são: 161 (a atual maioria trabalhista sobre os conservadores), 646 (o total de deputados na nova Câmara dos Comuns), 59,4% (o índice de participação quatro anos atrás), 301 (o número de partidos políticos e agremiações que se registraram na comissão eleitoral), 44 milhões (número de eleitores registrados), 6,6 milhões (a quantidade de votos por correio que se espera em 5 de maio), 10,8 milhões (os britânicos que votaram nos trabalhistas em 2001) e 19,3 milhões (o máximo em libras esterlinas que um partido pode gastar durante a campanha se apresentar candidatos em todas as circunscrições do país). A estimativa é que Tony Blair tem mais chances que ninguém de levar o prêmio. Nem os conservadores acreditam que trabalhistas perderão eleição Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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