Tony Blair reafirma que disputa o último mandato

Rafael Ramos
Em Londres

Enigmático e sedutor como um galã de cinema dos anos 50, Tony Blair empreendeu nesta quinta-feira (14/04) o longo adeus da política britânica, com a apresentação de seu último manifesto eleitoral na dupla condição de inventor e líder do novo trabalhismo. Um livrete de 112 páginas, tão apaixonante quanto um romance de Raymond Chandler, com capas vermelhas como as rosas do socialismo de antigamente.

Rosário de promessas possíveis e impossíveis, criticado pela oposição como todo programa político, o manifesto para a eleição de Blair --pela terceira e última vez ele garantiu que não se apresentará para um quarto mandato-- tem caramelos para todos os segmentos do eleitorado e bem poderia se intitular "Mil Gardênias para Você".

O slogan é sem dúvida um pouco mais convencional: "Para a frente, e não para trás", porque os ingleses, apesar da globalização, não estão familiarizados com os boleros de Antonio Machín. Música, maestro.

A campanha trabalhista fez o possível para que parecesse o lançamento de uma superprodução de Hollywood em um cinema de Leicester Square. A encenação foi impecável, com o premiê e meia dúzia de ministros dividindo a plataforma, com os discursos de praxe, ataques à oposição, efeitos especiais e até um vídeo realizado por Anthony Minghella, diretor de "O Paciente Inglês" e "O Talentoso Ripley".

Foi muito apropriado, porque o governo diz que a saúde pública melhorou, e a oposição insiste que os hospitais estão mais sujos que nunca, e uma pessoa tem muitas possibilidades de pegar um vírus e sair mais morta que viva.

Em todo caso, o filme de Minghella, trabalhista fervente, é um gênero novo que poderia se chamar romance de ficção-científica, porque apresenta Tony Blair e Gordon Brown, aparente herdeiro do trono, como se fossem Romeu e Julieta à meia-luz da política do Reino Unido, olhando-se com olhos enamorados apesar de não se suportarem há muito tempo, concretamente desde que o primeiro-ministro prometeu que passaria a batuta a seu ministro das Finanças e depois mudou de idéia.

A isso Brown respondeu que nunca mais acreditaria em uma palavra de Tony, frase convenientemente reciclada pelos conservadores em seu benefício. A única coisa que fizeram foi uma trégua durante a campanha.

A mensagem oficial do manifesto para a reeleição trabalhista é "Oportunidades para todos, responsabilidade por parte de todos, segurança para todos". A mensagem subliminar é compre dois pelo preço de um, como nas ofertas dos supermercados. Quer dizer, vote em Blair em 5 de maio e em algum momento antes das próximas eleições encontrará Gordon Brown no nº 10 de Downing Street.

E não é um mau atrativo, porque as pesquisas de opinião sugerem que o chanceler do Tesouro é muito mais popular que o primeiro-ministro entre todas as camadas do eleitorado. Oito anos são uma eternidade em política, e o líder do novo trabalhismo desgastou-se como uma falésia com o bater das ondas do Iraque, da adulação do poder e uma certa desonestidade, das manipulações e meias verdades, da ambigüidade e um idealismo light, das mesmas frases, gestos e tiques repetidos à saciedade. Os eleitores são pessoas, e entediam-se de tudo.

Tony Blair repetiu nesta quinta-feira que sairá, para que ninguém se esqueça, ainda menos os milhões de seguidores que vão se despedir dele com censuras mas seguramente com o último voto (qualquer coisa menos os conservadores, que ainda estão no Parque Jurássico da evolução política).

O primeiro-ministro prometeu que, enquanto procura o caminho de saída, não aumentará o imposto de renda (mas sim talvez as cotas da Previdência Social), elevará o salário mínimo, transformará dois milhões de britânicos em proprietários, manterá a inflação em 2%, reduzirá para 18 meses as listas de espera nos hospitais para operações não urgentes, modernizará todas as escolas secundárias do país, devolverá o correio ao esplendor dos tempos do império, combaterá a posse de navalhas e pistolas, acabará a reforma da Câmara dos Lordes, dará milhões para lutar contra a Aids e estabelecerá um sistema de pontos para os imigrantes. E depois disso tudo, entre fogos de artifício e coroas de louro, entregará finalmente o passe a Brown, enquanto ocupa seu ansiado lugar na história.

Se o manifesto trabalhista fosse realmente "O Longo Adeus" de Raymond Chandler, a intriga não consistiria em se Lennox matou Sylvia, mas em quando Tony Blair sairá de verdade.

A face do primeiro-ministro foi retirada dos cartazes de propaganda trabalhista e substituída pela de Brown, personagem austero mas sem o lastro do Iraque, a melhor prova de que o líder já não vende como antes. Uma vitória apertada o obrigaria a precipitar a sucessão, e no dia seguinte das eleições não se falará de outra coisa. Assim é a política.

Há quem diga que a autêntica data das eleições britânicas não é o dia 5, mas 29 de maio, quando os franceses votam o referendo sobre a Constituição européia. O manifesto trabalhista promete que a Grã-Bretanha realizará sua consulta no ano que vem, haja o que houver do outro lado do canal, e obriga todos os ministros a fazer campanha a favor do sim.

Uma ocasião perfeita para que Blair se despeça do cenário, triunfalmente ou com o rabo entre as pernas. Mas a pressão seria infinitamente menor se no país vizinho triunfar o "não", tirando a importância do acontecimento.

"Diga-me quando, quando, quando...", pedem a Blair os jornalistas, os eleitores e sobretudo o herdeiro extra-oficial do trono, Gordon Brown.

Mas Blair, metafórico e com o mesmo ar de Jesus Cristo urbano que o detetive Marlowe, se faz um pouco lânguido. "A maioria das pessoas gasta a metade de sua energia protegendo uma dignidade que nunca teve", diz o protagonista de "O Longo Adeus".

Blair precisa de um pouco mais de tempo para limpar as manchas do Iraque, antes de entrar em seu sono profundo. Mas uma coisa está clara, e é que esse galã chamado Tony nunca voltará a dizer "Play it again, Sam".

Dois escoceses e um transilvano

A rejeição inglesa à imigração é um dos grandes temas de campanha, mas há um paradoxo de que concorrem pelo poder dois escoceses e um transilvano.

Na realidade o conservador Michael Howard nasceu no País de Gales, filho de um imigrante de origem romena (da Transilvânia), coisa que nunca teria ocorrido se fosse aplicada então a política contra o asilo político patrocinada pelo atual líder conservador. Seu mote é Drácula.

Tony Blair é um escocês anglófilo de Edimburgo, e nunca se identificou com o nacionalismo e a cultura do país que o viu nascer. O primeiro-ministro trabalhista da Escócia, Jack McConnell, pediu que lhe envie os imigrantes que a Inglaterra recusa, porque precisa de mão-de-obra.

O único fiel a suas raízes é o liberal democrata Charles Kennedy, das Terras Altas escocesas e bom bebedor de uísque, mas suas possibilidades de ganhar são tão remotas (100 para 1 segundo as casas de apostas) quanto as de seu filho Donald, recém-nascido, tornar-se político e chegar a Downing Street. Imagem do premiê é substituída pela de Gordon Brown em cartaz Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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