Colégio de cardeais simboliza uma dimensão supranacional inédita no mundo

Enric Juliana
Em Roma

O jornalista Giuliano Ferrara é um bom exemplo do italiano perspicaz, astuto, de inteligência prática, mas culto. Filho do correspondente em Moscou do jornal comunista "L'Unitá", seguiu primeiro os passos do pai, depois fez bobagens com os socialistas de Bettino Craxi e acabou sendo um dos principais assessores de Silvio Berlusconi.

James Hill/The New York Times

Fumaça negra na chaminé da Capela Sistina indica que o novo papa não foi escolhido no 1º dia do conclave
É uma história perfeitamente italiana. Também poderia ser espanhola, mas deve-se convir que eles têm mais graça na arte das biografias oscilantes. Suas mudanças de inclinação são mentalmente alegres e costumam ser acompanhadas de uma habilidade e uma fantasia que os distancia desse tom amargo e dogmático de nossos liberais de toda a vida, que numa vida anterior não o foram tanto.

O caso é que Ferrara dirige o jornal "Il Foglio", que é um caso quase único na Itália. Oito páginas em tamanho tablóide, dedicadas quase exclusivamente a análise, comentário e histórias de fundo.

As notícias do dia anterior --que o leitor já conhece pela televisão, a rádio ou a Internet-- aparecem resumidas brevemente em duas colunas. É um diário original e inteligente que está fazendo escola. "Il Reformista" e "Libero" já seguem seus passos.

"Il Foglio" teve o acerto de republicar estes dias uma entrevista que favoreceu a eleição de Karol Wojtyla no conclave de outubro de 1978. Poucos dias antes da reunião decisiva, o cardeal Giuseppe Siri, então o expoente da ala mais conservadora da Igreja italiana e claro candidato ao pontificado, deixou-se entrevistar por Gianni Licheri, de "La Gazzetta del Popolo" de Turim.

O arcebispo de Gênova era um homem bastante franco, para não dizer rude, e se soltou. Apenas iniciado o conclave, os 111 cardeais participantes encontraram em seus quartos uma cópia da entrevista, publicada naquele mesmo dia pelo jornal de Turim. Siri ficou fora do jogo.

Quem ordenou sua distribuição? Ninguém sabe ao certo, mas seu grande concorrente, o cardeal florentino Giovanni Benelli, considerado um montiniano progressista, tinha muita margem de manobra na cúria vaticana. Benelli tampouco foi eleito, porém. Ganhou a terceira via polonesa.

A leitura da entrevista de Siri é especialmente interessante hoje. Em primeiro lugar pela linguagem, muito mais doméstica do que a se costuma utilizar atualmente na confecção dos jornais.

Também era muito coloquial, muito direta, inclusive provinciana, a linguagem empregada pelo cardeal Siri. Todas as suas palavras exalam a idéia de que em 1978 a eleição do novo papa era colocada como uma questão essencialmente italiana. "I fatti nostri", como dizem eles.

O que nos leva a uma das grandes novidades do conclave que começou na segunda. A cúpula da Igreja se renovou totalmente, transformando-se em um órgão de grande dimensão internacional.

"A Igreja Católica é a única Internacional verdadeiramente existente hoje no mundo", costuma afirmar com certa ironia Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e bom conhecedor da história da igreja.

O professor Riccardi refere-se a que não existe nenhuma outra entidade supranacional equivalente no plano das idéias e da organização: está presente em quase todos os países do mundo, regida por uma autoridade central que adquiriu um extraordinário prestígio nos últimos anos.

E é uma entidade independente. Muitos países, não só os Estados Unidos, certamente gostariam de influir na eleição do novo papa, mas hoje parece impensável uma ingerência manifesta como a que ocorreu no conclave de 1903, no qual o imperador da Áustria Francisco José vetou o cardeal Mariano Rampolla, considerado francófilo e conciliador com a Itália unificada.

A Espanha também meteu a mão. Em 1644, por exemplo, Felipe 4º vetou o cardeal Sachetti, demasiado amigo de Mazarino. Mas Franco nada pôde fazer, além de rezar em sua capela, para evitar que em 1963 fosse eleito o perigoso liberal Giovanni Battista Montini.

O "Osservatore" pede calma

O jornal "Osservatore Roamno", órgão oficioso da Santa Sé, pediu calma ontem diante do processo de eleição do novo papa e criticou de maneira sutil as hipóteses publicadas nos últimos dias pelos principais jornais do mundo sobre as possíveis candidaturas.

"Os meios de comunicação", afirma o "Osservatore", "deixaram-se levar: cada dia tinham necessidade de uma notícia depois da morte do papa. O nome de um candidato, uma hipótese, uma indiscrição, uma fantasia... ocuparam as páginas dos jornais. Talvez tenha havido uma pressa excessiva para identificar as posições dos cardeais e tentar adivinhar quem será eleito. Mas os tempos da Igreja não são os da mídia. O tempo de espera não é um tempo de prognósticos e intrigas."

Assina o artigo Andrea Riccardi, fundador de Santo Egídio e colaborador mensal de La Vanguardia.

O papa supera Dan Brown

O escritor americano Dan Brown, autor dos folhetins "O Código Da Vinci" e "Anjos e Demônios", dois dos best-sellers de maior difusão mundial nos últimos anos, deixou de ser o autor mais vendido na Itália em benefício de João Paulo 2º.

"Memória e Identidade", o último livro assinado pelo falecido papa, ocupa o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos na Itália publicada semanalmente pelo jornal "Corriere della Sera".

Outros dois livros do papa ("Abri Vossos Corações" e "Levantai-vos") ocupam o terceiro e o quinto lugares na classificação. O segundo lugar é de "El Zahir", o último livro de Paulo Coelho, prolífico autor brasileiro de espiritualidade new age, não muito grata ao Vaticano.

Os dois livros de Dan Brown ocupam o sétimo e o oitavo lugares. O êxito dos livros do papa também empurrou para baixo a última novela do escritor Andrea Camilleri, "Sem Título".

Nas cadeiras de Savonarola

Os quartos em que os cardeais se hospedam desde segunda-feira estão mobiliados com cadeiras e poltronas em estilo Savonarola. São réplicas das cadeiras usadas no convento florentino de San Marco nos tempos do frade dominicano Girolamo Savonarola, durante séculos considerado um herege pela Igreja Católica.

Ardente pregador --foi o indutor da célebre fogueira das vaidades, na qual os ricos de Florença, arrependidos de seus pecados, chegaram a queimar quadros e móveis--, conseguiu tomar o poder em Florença com a ambição de transformá-la na Nova Jerusalém diante da Roma corrupta dos papas.

Quando os Medici recuperaram o poder, o papa Borgia (Alexandre 6º) fez o possível para que acabasse na fogueira. Foi enforcado e queimado em maio de 1498. Maquiavel o definiu como "o profeta desarmado". E a Igreja o reabilitou parcialmente. Primeiro dia do conclave não elege o sucessor de João Paulo 2º Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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