Nomeação de Ratzinger surpreende e causa frieza na Alemanha

Marc Bassets
Em Berlim

Bento 16 é alemão, nascido na Baviera, mas será muito difícil que consiga o mesmo fervor entre seus compatriotas que seu antecessor, João Paulo 2º. A Alemanha recebeu a eleição com surpresa, curiosidade e distância em relação a um cardeal que mesmo entre a hierarquia católica alemã gozava de pouca consideração.

Muito poucos alemães haviam apostado abertamente na eleição do cardeal Joseph Ratzinger. Nos últimos dias a imprensa tinha relegado as informações sobre o conclave às páginas internas, e até a publicação de seu último livro, na semana passada, passou quase despercebida.

A eleição inesperada e rápida desconcertou muitos alemães. Por volta das 20h, chegavam as primeiras reações, tingidas de um inevitável patriotismo. "O novo papa Bento 16 vem da Alemanha. Isso é uma grande honra para todo o país", disse o chanceler federal, o social-democrata Gerhard Schröder, em uma breve entrevista coletiva.

"Estou surpreso", disse à televisão pública o presidente do Conselho da Igreja Evangélica alemã, bispo Wolfgang Huber. "Espero que as coisas sejam mais fáceis para o diálogo ecumênico, mas não é evidente que será assim", acrescentou.

O diálogo entre as religiões é um assunto fundamental em um país como a Alemanha, onde 33% da população são protestantes e 33% católicos. Durante o papado de João Paulo 2º muitos católicos alemães confrontaram a hierarquia romana, porque esta impunha obstáculos à comunhão conjunta dos alemães de ambas as confissões.

As dissidências entre Ratzinger e cardeais católicos como Karl Lehmann, presidente da conferência episcopal, também agitaram o antigo papado.

A eleição de Ratzinger "é uma enorme decepção para as inúmeras pessoas que esperavam um papa reformista", declarou em comunicado o teólogo dissidente Hans Küng. Considerado por muitos uma espécie de inimigo íntimo do novo papa, Küng advertiu porém que se deve dar "uma oportunidade" a ele.

As conseqüências da eleição de Bento 16 para o catolicismo alemão são incertas. Ratzinger está há décadas longe da Alemanha. Por enquanto não parecia despertar sentimentos de orgulho excessivo. Que isso mude depois de sua eleição é outra coisa.

Passagem pela Juventude Hitlerista

Ratzinger fez parte das Juventudes Hitleristas (JH), como era obrigatório durante a guerra para todos os jovens alemães de mais de 14 anos. Mas, segundo conta em "Sal da Terra", um livro-entrevista publicado na Alemanha em 1996, foi uma espécie de membro passivo.

"O senhor esteve nas Juventudes Hitleristas?", perguntou o entrevistador. "No início não estávamos", responde, referindo-se a ele e seu irmão. "Com a introdução da obrigação de participar das Juventudes Hitleristas em 1941, meu irmão entrou obrigatoriamente. Eu era jovem demais, mas no seminário fui inscrito nas Juventudes Hitleristas. Quando saí do seminário, nunca voltei lá. E era difícil (...). Graças a Deus tinha um professor de matemática muito compreensivo." "É uma grande honra para todo o país", disse o chanceler Schröder Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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