Nova Alemanha aparece na Praça de São Pedro

Marc Bassets
Enviado especial a Roma

Podia-se discutir durante a missa inaugural do pontificado de Bento 16, se se agitavam mais bandeiras alemãs ou bávaras na Praça de São Pedro. Provavelmente predominavam as azuis e brancas da Baviera, mas a novidade era outra: ver tremular em Roma as cores da Alemanha, 60 anos depois da Segunda Guerra Mundial.

Os alemães que foram a Roma para presenciar a entronização de Joseph Ratzinger se fizeram notar. A língua italiana predominava entre a multidão que assistiu à missa, mas a segunda mais escutada era a alemã, sobretudo com o sotaque cantado da Baviera, região natal do papa. Eles vieram de avião, trem, carro ou ônibus da Alemanha católica, com bandeiras e outros sinais folclóricos como os típicos chapéus alpinos.

Muitos alemães mantêm uma relação de pudor com sua bandeira. Até agora ela era exibida quase exclusivamente nas competições esportivas. O futebol foi durante décadas a válvula de escape de um país que, desde a catástrofe do nacional-socialismo, tem dificuldade para proclamar seu patriotismo sem complexos, como fazem os franceses ou os britânicos.

A relação incômoda dos alemães com o próprio país está começando a mudar. Dois anos atrás, o chanceler alemão Gerhard Schröder se opôs à guerra do Iraque com um discurso patriótico, argumentando que "a política externa alemã se decide em Berlim".

O presidente federal, Horst Köhler, estreou há um ano no cargo proclamando: "Amo meu país", frase que nem todos os políticos alemães se atrevem a pronunciar.

E agora, Bento 16. Quando se acabava de comemorar o 60º aniversário da libertação de Auschwitz, um cardeal nascido na Baviera em 1927 se transforma no alemão mais influente do planeta.

"Que um alemão que viveu a guerra possa ser o papa é um novo sinal", escreveu o jornal populista "Bild Zeitung", lido diariamente por cerca de 10 milhões de alemães e que tenta transformar Ratzinger em herói nacional.

Ontem, antes de se iniciar a missa em São Pedro, Brigit Köppe, 30, e Markus Nägel, 36, diziam estar orgulhosos. Como bávaros e como alemães. Ambos portavam enormes bandeiras, alemãs e bávaras, entre as maiores da praça.

"Como alemão, onde quer que você vá sempre lhe lembram o passado", explicou Nägel. "As gerações mais jovens não têm culpa do que aconteceu há 60 anos. Deve-se admitir o que aconteceu, não se deve esquecer, mas é preciso comportar-se com normalidade. Esperamos que isto represente um reconhecimento para a Alemanha e sirva para a normalização."

Na Praça de São Pedro, alguns peregrinos alemães manifestavam seu mal-estar com a imprensa sensacionalista britânica, que nos últimos dias insistiu no fato de Ratzinger ter pertencido na adolescência às Juventudes Hitleristas: durante a guerra era obrigatório ser membro dessa organização. A insistência nesse episódio salienta que os alemães encontram dificuldades para se livrar de Hitler.

Alguns acreditavam que Ratzinger não seria eleito papa exatamente por ser alemão. A eleição viria confirmar que pouco a pouco o país se emancipa de seu passado. "É muito importante para nós, embora não tenhamos motivos para ser fãs de Ratzinger", disse Helmut Wagner, um peregrino de 58 anos que viajou de Munique de ônibus.

Outros, entre eles o "Bild Zeitung", esperam que a eleição do papa bávaro seja uma injeção de confiança num país que até pouco tempo atrás era o número um em quase tudo e agora, com mais de 5 milhões de desempregados e três anos de estagnação, está com a auto-estima em baixa.

Contudo, a frieza com que a maioria dos alemães reagiu à eleição do papa revela que essa Alemanha secularizada não será para Ratzinger o que a Polônia foi para Karol Wojtyla.

"Bento 16 não foi eleito por ser alemão", advertiu o jornal de centro-esquerda "Süddeutsche Zeitung". "Está no Vaticano há décadas e quase poderíamos dizer que é alemão por acaso." Alemães desfilam em Roma 60 anos depois da 2ª Guerra Mundial Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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