Eleição traz 3 formas de entender o Reino Unido

Rafael Ramos
Em Londres

O Partido Trabalhista defende um Estado grande; o Conservador, um Estado pequeno; e o Liberal Democrata um Estado nem grande nem pequeno, muito pelo contrário.

A inclinação do novo trabalhismo para o centro da política britânica durante a era Blair minimizou as diferenças entre os principais partidos que se encontrarão nas urnas no próximo dia 5, mas mesmo assim estas são evidentes na questão do papel do Estado.

Os trabalhistas acreditam no Estado do bem-estar social, embora modernizando-o com a incorporação do setor privado. Os conservadores defendem um executivo autoritário em questões de terrorismo e lei e ordem, que interfira o mínimo possível na vida dos cidadãos.

Os liberal-democratas, do terceiro partido, nadam forçosamente entre duas águas, precisando roubar votos tanto à esquerda quanto à direita. Opõem-se à guerra do Iraque e se consideram um dos principais defensores dos direitos civis. Estas são as políticas dos três principais blocos:

Economia

  • Trabalhistas:

    Aumentariam o gasto público em 95 bilhões de libras até 2011, com a maioria dos fundos dedicados a melhorar a saúde e educação públicas. Eliminariam 80 mil funcionários para reduzir a burocracia governamental. Afirmam que não aumentariam o imposto de renda, mas deixam portas abertas para aumentar as cotas da previdência social.

  • Conservadores:

    Prometem uma poupança de 35 bilhões de libras graças à desaceleração do aumento de gastos públicos em comparação com os trabalhistas, e utilizariam a receita adicional para cortar 4 bilhões de libras em impostos. Demitiriam 235 mil funcionários públicos, mas afirmam que os serviços não sofreriam deterioração apesar do corte de investimentos.

  • Liberal-democratas:

    Criariam uma nova faixa fiscal de 50% para as rendas superiores a 100 mil libras anuais, o que lhes permitiria arrecadar 2,5 bilhões de libras. Suprimiriam o Ministério do Comércio e Indústria.

    Terrorismo

  • Trabalhistas:

    Tornariam obrigatória a carteira de identidade (com a nova tecnologia digital), desafiando a tradição britânica. Permitiriam a prisão domiciliar de suspeitos de terrorismo por uma simples ordem do ministro do Interior. Reduziriam as liberdades civis.

  • Conservadores:

    Nomeariam um ministro da Segurança Interna, como nos Estados Unidos, e criariam uma nova polícia de controle de fronteiras. Estão divididos sobre a carteira de identidade, mas seu líder, Michael Howard, é partidário. Reduziriam as liberdades civis.

  • Liberal-democratas:

    São os únicos que defendem prioritariamente as liberdades individuais. São contrários à carteira de identidade obrigatória e à prisão domiciliar de suspeitos de planejar atividades terroristas como medida preventiva, a não ser que haja intervenção de um juiz. Em vez disso, preferem o uso de escutas e mensagens eletrônicas interceptadas pela inteligência como prova diante dos tribunais.

    Europa

  • Trabalhistas:

    Comprometem-se a realizar um plebiscito sobre a Constituição européia e a fazer campanha a favor do sim, mas estão sondando o possível cancelamento da convocação se sair antes o não na França e na Holanda. Consideram que a Grã-Bretanha deve ser um líder na Europa e desempenhar um papel de destaque nas estruturas comunitárias para adaptar-se à ampliação, mas até agora adotaram uma atitude de espera e não aprovaram a moeda única, esperando que as "circunstâncias econômicas" sejam propícias. Defendem um modelo liberal e a flexibilidade dos mercados de trabalho.

  • Conservadores:

    Comprometem-se a realizar o plebiscito sobre a Constituição neste outono, fazendo campanha pelo não. São partidários de uma Europa "à la carte", em que cada membro adote somente as políticas comuns com as quais esteja de acordo e no restante conserve sua plena soberania. Defendem a manutenção da libra esterlina. Um grande setor do partido quer renegociar do zero a relação do Reino Unido com a União Européia.

  • Liberal-democratas:

    É o partido mais pró-europeu, sem ambigüidades. Pedem o sim à Constituição européia e defendem a adoção do euro. Lutariam pelo direito de veto britânico em termos de impostos e defesa.

    Imigração

  • Trabalhistas:

    Introduziriam um sistema de pontuação, à maneira australiana, para controlar a imigração, concedendo prioridade aos trabalhadores estrangeiros conforme o país de origem, a situação familiar, o domínio da língua inglesa e sobretudo suas qualificações laborais em relação à demanda.

  • Conservadores:

    O Parlamento estabeleceria a cada ano uma cota de imigrantes e asilados políticos, que permaneceriam em centros de internação no estrangeiro enquanto seus documentos são providenciados. A nova polícia de fronteiras se encarregaria de impedir sua entrada ilegal. Também adotaria um sistema de pontos para a concessão de licenças.

  • Liberal-democratas:

    Não introduziriam cotas para asilados políticos, mas sim para os imigrantes econômicos. Despolitizariam o tema, deixando as decisões nas mãos de um órgão governamental independente.

    Política Internacional

  • Trabalhistas:

    Consideram que a Grã-Bretanha deve preservar a todo custo sua "relação especial" com os Estados Unidos e funcionar como uma ponte entre a América do Norte e a Europa. Manteriam as tropas no Iraque enquanto Bush desejar. Pressionariam a Casa Branca para que trabalhe em prol de uma solução para o problema palestino. Compartilham a ênfase neoconservadora para a necessidade de democratizar o Oriente Médio.

  • Conservadores:

    Manteriam as tropas no Iraque. Se opõem ao levantamento do embargo da União Européia sobre a venda de armas à China. Apóiam o Mapa do Caminho para resolver o conflito entre israelenses e palestinos. Acreditam que a Grã-Bretanha deve ser "sócio, mas não rival" dos Estados Unidos e da União Européia.

  • Liberal-democratas:

    É o partido mais multilateralista. Pensa que a Grã-Bretanha tem uma obrigação moral com o povo iraquiano de procurar a segurança e a estabilidade do país, apesar de a invasão ter sido um erro contraproducente. Elaborariam um calendário para a retirada das tropas britânicas do Iraque, de acordo com a ONU. Propõem uma relação mais equilibrada com Washington e um papel mais ativo na Europa. Partidos divergem sobre papel do estado e visão da União Européia Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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