Índia restabelece ajuda militar ao Nepal para não perder influência

Rafael Poch
Em Pequim

Pouco durou o escândalo pelo golpe de Estado do rei do Nepal, Gyanendra, que em fevereiro reinstaurou o absolutismo no reino do Himalaia, alegando um novo esforço em sua luta contra a guerrilha maoísta.

A Índia já anunciou que restabelecerá a ajuda militar ao Nepal, que congelou em fevereiro em reação ao golpe. Ao que parece, o anúncio foi transmitido a Gyanendra pelo próprio primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, na cúpula Ásia-África realizada em Jacarta (Indonésia).

A notícia causou descontentamento no Partido do Congresso e entre seus aliados da coalizão em Déli, que protestaram energicamente contra o golpe do rei nepalês.

A virada de Déli, seguida pelos Estados Unidos e o Reino Unido hoje, já era prevista em fevereiro por um analista indiano. "O rei do Nepal alegará 'ou eu ou a guerrilha maoísta', e a Índia e todos os que protestam agora logo acabarão optando novamente por ele", dizia.

Mas há mais que isso. Se a Índia protestou contra o golpe, a China se manteve impassível. O apoio de Pequim ao rei Gyanendra parece blindado.

Por um lado, porque para a China é importante a estabilidade de suas fronteiras com a complicada região do Tibete. Por outro, não há nada que espante mais os dirigentes chineses do que serem relacionados a um movimento guerrilheiro que se declara maoísta.

Essa atitude danificou o considerável prestígio que a China tem entre o setor ilustrado de Katmandu, o grupo social que animava e liderava os partidos e movimentos políticos que o rei aboliu.

Vários grupos e associações nepaleses entregaram à embaixada chinesa em Katmandu uma carta aberta ao primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao.

"Tememos que um pleno apoio diplomático da China ao movimento anticonstitucional do rei se estenda ao âmbito logístico e militar", diz o documento, que pede que a China "apóie as aspirações democráticas do povo do Nepal".

Segundo vários observadores, a publicação desse documento e a suspeita de que a China poderia ocupar o vazio deixado pela Índia teriam levado as autoridades de Déli a restabelecer o fornecimento ao Nepal.

Enquanto isso, o ex-primeiro-ministro nepalês Sher Bahadur Deuba foi detido nesta quinta, acusado de corrupção. A detenção ocorreu somente quatro dias depois do cancelamento do Estado de exceção imposto em 1º de fevereiro depois do golpe do rei.

Nos últimos meses, o governo nomeado a dedo por Gyanendra libertou 500 políticos e ativistas, que denunciam que as detenções continuam. O próprio Deuba, que foi primeiro-ministro do governo destituído em fevereiro, já sofreu desde então uma prisão domiciliar de várias semanas.

Desde 1996 morreram 11 mil pessoas no conflito no Nepal, 80% delas civis, segundo organizações de direitos humanos locais. O exército e a polícia do Nepal teriam propiciado o desaparecimento de mais de 1.200 cidadãos nos últimos cinco anos, segundo as mesmas fontes, o que situa o Nepal como líder mundial em casos de desaparecidos em 2003 e 2004, segundo uma missão da ONU. Autoridades de Nova Déli temiam que a China ocupasse seu lugar Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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