Multidão cerca Pedro Casaldáliga em sua substituição como bispo do Araguaia

Bernardo Gutiérrez
Enviado especial a São Félix do Araguaia

"Quando vou embora? Fiquem tranqüilos, o velho bispo fica até seu enterro." Pedro Casaldáliga está há dias atendendo a ligações de apoio. Fala com carinho, desenhando um sorriso em seu português doce. Seu olhar constrói uma paz inquebrantável no pátio de sua humilde casa em São Félix do Araguaia.

Sérgio Lima/FI

Bispo Casaldáliga ajudou a fundar Comissão Pastoral da Terra no ano de 1975
Parece que Pedro não está prestes a se aposentar, como se a chegada do novo bispo, o franciscano Leonardo Ulrich, que tomou posse do cargo nesta segunda-feira (2/5), nada representasse. Somente um ponto e parágrafo em uma vida de entrega.

Nas ruas há grandes cartazes: "Bem-vindo nosso novo bispo Leonardo Ulrich". E no Centro Comunitário da Prelatura, alguns cartazes de aviso: "Dom Pedro, a luta continua".

Na Prelatura de São Félix do Araguaia, depois da tormenta veio a calma. "Soubemos que o novo bispo nunca quis que eu fosse embora.

Talvez fosse o núncio ou um primeiro candidato a bispo que confundiram", afirma Pedro em declarações ao jornal La Vanguardia. Além disso, explica Casaldáliga, "Ulrich demonstrou uma grande sintonia, é muito humilde e inteligente".

Desde a última sexta-feira, Ulrich é um hóspede a mais na casa de Pedro. E mostra-se surpreso com a acolhida da população. "Estão me fazendo sentir em casa", afirmou. Vão viver juntos, dando, nas palavras de Pedro, "uma imagem de continuidade e sintonia".

Ulrich conversa com amabilidade sob uma pequena estátua de Nossa Senhora que domina o pátio de Dom Pedro. "Preciso aprender com a sabedoria de Pedro e ouvir os líderes locais. Não se pode impor a verdade de fora. Vamos continuar o caminho, mas adaptando-nos aos tempos", afirma.

E confirma: "Temos de continuar lutando pelos povos indígenas e pela reforma agrária". Quando é questionado sobre a teologia da libertação, mede suas palavras e, um pouco nervoso, cruza os braços: "Foi uma maneira de aproximar os evangelhos do povo em uma realidade diferente. Isso nos ajudou, porque sempre é preciso ir ao encontro do povo".

O Centro Comunitário da Prelatura foi uma festa contínua na segunda-feira. Chegaram dezenas de ônibus de todo o Brasil, barcos, ônibus lotados. Camponeses em caminhões, índios carajás, tapirapé e xavantes. Uma dezena de bispos.

Nomes míticos da influente Comissão Pastoral da Terra, a ala progressista da igreja brasileira que Casaldáliga ajudou a fundar em 1975.

"Acho que esta prelatura é uma referência mundial na luta pelos pobres", afirma Antônio Canuto, secretário nacional da CPT e companheiro incansável de Pedro em seus primeiros anos.

O velho bispo passou o dia todo em casa, descansando. E seu emocionante banho de multidões chegou à tarde, com uma caminhada popular que começou junto ao rio, onde Pedro foi ordenado bispo em 1971, embaixo das mangueiras que ele plantou ao chegar. Depois, a missa e a transferência do cargo. Alguns choraram.

Um dia antes, também no Centro Comunitário, Casaldáliga fez um balanço. Com um prato de arroz e carne, sentado em uma cadeira. "Talvez tenhamos nos equivocado em algo, mas despertamos as consciências. O que ocorre é que agora não se sabe de que lado está cada um". Refere-se aos que "o acusam de ser contra o progresso". Aos agricultores favoráveis à monocultura da soja porque crêem que gerará empregos.

Mas Ulrich parece estar ao seu lado: "Utilizaremos o evangelho para que os poderosos sintam que têm de parar com os assassinatos, que não é ético".

A equipe de Pedro está relativamente otimista.

"Ulrich começou bem. Aprendendo, com humildade", afirma Pablo Gabriel López, um agostiniano espanhol que está há 30 anos no Brasil e há muitos perto de Casaldáliga. A imposição de um bispo sem consultar a população continua sendo a principal crítica.

"Que não esqueçam que ele foi imposto e é ele quem tem de nos conquistar. Nada contra Ulrich, mas sim contra o sistema de nomeação", afirma Félix Valenzuela, outro agostiniano espanhol que está há 43 anos no Brasil e 18 ao lado de Pedro.

Dom Pedro já não é o bispo de São Félix. Mas ficará, segundo ele, "em minha terra e com minha gente". O adeus emocionado a Dom Pedro, substituído nesta segunda Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos