Blair vence o referendo ao trabalhismo britânico

Rafael Ramos
Correspondente em Londres

Tony Blair gostaria de ter mudado a Inglaterra e o mundo, mas deve se conformar com ter mudado o Partido Trabalhista. É um feito nada desprezível, mas os eleitores são mal-agradecidos por natureza. Em vez de aplaudir seu terceiro triunfo eleitoral consecutivo, foram às urnas com o nariz tapado para não sentir o mau cheiro do Iraque e sugerindo que ele deixe Downing Street o mais rápido possível.

Os liberal-democratas pediam que as eleições na Grã-Bretanha fossem um referendo sobre a invasão iraquiana, os conservadores propunham que fossem um referendo sobre Tony Blair, e os trabalhistas, que fossem um referendo sobre o estado da economia e dos serviços públicos.

Os cidadãos, mais sofisticados, colocaram tudo no mesmo saco e simplesmente elegeram o governo que representa melhor seus interesses, aspirações e valores. O mesmo que têm agora.

O sistema eleitoral majoritário do Reino Unido faz que as eleições sejam tratadas pelos políticos e pela imprensa como um fenômeno unitário, mas na realidade são um quebra-cabeça de disputas individuais nas mais de 600 circunscrições de todo o país, da Cornualha às Terras Altas da Escócia, cada uma com seus problemas locais e candidatos mais ou menos carismáticos.

Se a porcentagem de votos fosse indicativa, o trabalhismo voltaria a arrasar e os liberal-democratas obteriam seu melhor resultado desde 1929, quando Lloyd George foi primeiro-ministro. Mas os conservadores aplicaram seus recursos em uma centena de circunscrições marginais que lhes permitiram atenuar o golpe. Entre eles já se fala em uma possível catástrofe: a decapitação de Michael Howard e a busca de um novo líder.

Salvo surpresas de última hora, a verdadeira pergunta depois das eleições é se os trabalhistas ganharão graças a Blair ou apesar dele, e a maioria dos comentaristas se inclina pela primeira opção.

As mentiras da guerra do Iraque, o espírito autoritário, o messianismo do primeiro-ministro e o desgaste de oito anos no poder provocaram uma considerável hostilidade, não só entre a intelectualidade mas também entre as bases trabalhistas dos guetos urbanos do norte. Em toda parte há a sensação de que uma época terminou.

Mas o legado de Blair está mais cheio de matizes do que pode parecer à primeira vista. Ele decepcionou a esquerda ao subordinar a política externa britânica aos desígnios de George W. Bush e ter parte da responsabilidade pela morte de dezenas de milhares de iraquianos.

O outrora superpopular líder trabalhista também é acusado de assumir com entusiasmo a herança thatcherista, restringir as liberdades civis, renunciar a uma redistribuição maciça da riqueza, enterrar o socialismo e não dar mais ênfase à busca de soluções para a crise ambiental.

Mas também é verdade que combateu a pobreza infantil, implantou um salário mínimo e melhorou a vida de adolescentes, aposentados e famílias monoparentais de uma maneira que teria sido impensável sob um regime conservador.

Blair não é um ideólogo (a terceira via ficou reduzida à fumaça que sempre foi), mas um ganhador de eleições nato que roubou dos conservadores a condição de partido natural do poder.

Ele respeitou as privatizações das ferrovias, da água, do gás, da eletricidade e do telefone, reforçando o argumento de que é um mero continuador do thatcherismo. Depois de renunciar à incorporação ao núcleo duro da Europa, sua grande aspiração é reformar os serviços públicos, criados por Clement Atlee depois da Segunda Guerra Mundial, dando espaço à empresa privada.

Em questões de imigração, direitos civis, terrorismo e lei e ordem, explorou o medo das classes médias com tanto frenesi quanto a direita, temeroso de ceder um espaço político vital. O novo trabalhismo é um híbrido de social-democrata e social-cristão.

Mas uma coisa é o que indicam os políticos e analisam os especialistas em sua infinita sabedoria, e outra é o julgamento dos eleitores. E os britânicos dispuseram-se a reeleger os trabalhistas com seus prós e seus contras, conscientes de que Tony Blair continuará por um tempo e logo passará o cargo ao ministro das Finanças, Gordon Brown, porque o consideram um governo criticável mas que administrou bem a economia e que representa seus interesses melhor que os conservadores.

Milhões de britânicos votaram como cidadãos, baseando-se em julgamentos morais como a guerra do Iraque. Mas muitos milhões a mais o farão como consumidores, tendo o pragmatismo como bandeira, temerosos das manipulações de Downing Street mas conscientes de que suas vidas melhoraram desde que Blair é primeiro-ministro.

Os intelectuais e as classes médias, da torre de seus privilégios, podem se permitir o luxo de criticar a política externa e de defesa do governo. Os aposentados dos guetos urbanos de Yorkshire se perguntam com quem chegam melhor ao fim do mês, se com os de antes ou com os de agora.

Blair sabe que tem prazo de validade desde o momento em que anunciou que não se candidatará em outras eleições, e que a partir desta sexta-feira (6/5), independentemente de sua maioria, a única pergunta nos corredores de Westminster será o momento de seu adeus.

Sua estratégia eleitoral foi masoquista: enfrentar de peito descoberto as platéias mais hostis, ingerir o veneno e carregar nas costas todo o lixo político para que o partido fique limpo. Os eleitores trabalhistas apreciam sua autoridade e carisma, lhe agradecem a bonança econômica e lamentam que não tenha dado um empurrão maior na consciência social, mas há feridas que não cicatrizam nunca, como o Iraque.

Será o epitáfio de um líder eloqüente, calculista, ambíguo e com uma honestidade sui generis, que tende a confundir retórica com realidade. A verdadeira incógnita é quando Brown vai assumir o partido Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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