"Somos macacos com hiperatividade sexual", afirma sexólogo espanhol

Victor M. Amela
Em Barcelona

Tenho 47 anos, nasci em Barbate (Cádiz) e vivo em Barcelona. Sou biólogo, mestre em filosofia da ciência e assessor científico do Museu CosmoCaixa. Pesquiso a sexualidade humana. Estou solteiro e não tenho filhos. Sou de esquerda no campo moral e centrista no campo econômico. Sou um agnóstico firme. Nós, seres humanos, somos monógamos adúlteros.

La Vanguardia - Para um biólogo, o que é o sexo?

Ambrosio García Leal -
Uma mistura de genes. Uma reprodução das mais complicadas!

LV - E que alternativa teríamos?

García Leal -
Nos dividirmos em dois, por exemplo.

LV - Fico com o sexo.

García Leal -
Foi isso que fez a evolução: a mistura de genes favorece a diversidade e promove uma maior adaptabilidade da espécie a ambientes bióticos mutáveis (vírus, parasitas...).

LV - E aqui estamos, homens e mulheres.

García Leal -
E com uma sexualidade hiperativa e singular, se compararmos com a de outros primatas.

LV - Em que somos singulares?

García Leal -
No estro oculto, o desejo permanente, o tamanho do pênis, o orgasmo feminino...

LV - O senhor citou muitas coisas: vamos repassar...

García Leal -
Sim, mas antes vou resumir: como espécie, somos um macaco lascivo, um macaco sexual.

LV - Já desconfiava... Vamos por partes: o que é o estro?

García Leal -
O período de ovulação, de fertilidade: na fêmea das demais espécies, tem sinais externos, diante dos quais os machos se excitam e tentam inseminá-la. Mas na fêmea humana não ocorrem esses sinais externos!

LV - E o macho não sabe quando ela ovula.

García Leal -
Nem a fêmea. Garantir a fecundação exige copular muito: a bulimia sexual é mais adaptativa que a anorexia sexual.

LV - Copular muito... são quantas cópulas?

García Leal -
Uma a cada três dias no mínimo, pois um espermatozóide só sobrevive três dias.

LV - Copulamos mais que os chimpanzés?

García Leal -
Muito mais! A atividade sexual humana é frenética, comparada com chimpanzés e gorilas: eles só copulam durante o estro, e entre a gestação e a lactação as fêmeas ficam sem estro durante quatro anos! Nesse período desaparece o apetite sexual da fêmea, e o de todos os machos por essa fêmea.

LV - É um sexo ligado à fecundação.

García Leal -
Nos seres humanos, por outro lado, a atividade sexual tornou-se independente da fecundação.

LV - Os machos humanos não necessitamos de estro para nos excitar diante da fêmea.

García Leal -
É isso. A chimpanzé fêmea é peluda e mostra o sexo desnudo, inflamado e rosado, diante do qual o macho se excita. A fêmea humana... ela inteira é como um sexo sem pêlos, desnudo, inflamado, rosado: um anúncio!

LV - O que nos transmite esse corpo-anúncio?

García Leal -
Terei de lhe falar dos seios túrgidos, das nádegas, dos quadris e da cintura...

LV - Por mim, estou adorando.

García Leal -
Então vamos remontar ao momento em que o primata se torna carnívoro: o macho aprendeu a caçar... e a oferecer carne à fêmea (que era coletora) para obter sexo.

LV - Agora entendo a história do "comércio carnal"...!

García Leal -
No princípio o homem não era um caçador muito competente, o que não inclinava a fêmea a escolher um e ser monógama...

LV - Então a fêmea era promíscua?

García Leal -
O australopiteco viveu uma alta concorrência espermática, sim. Ou seja, uma fêmea copulava com diversos machos... o que modelou o desenho peculiar de nosso pênis!

LV - O que acontece com nosso pênis?

García Leal -
Por que tem esse tamanho grande, mais de dez vezes superior ao dos chimpanzés?

LV - Oh, obrigado, seleção natural!

García Leal -
E por que tem a glande dessa forma?

LV - Escuto com interesse.

García Leal -
Porque atua como um êmbolo na vagina: extrai o sêmen do macho anterior e deposita o próprio. Assim, o último a ejacular ganha: esse sêmen é o que fecunda. Outra solução teria sido ganhar o macho que produzisse mais espermatozóides, mas --dado o estro oculto da mulher-- a solução do pênis extrator era mais econômica, e foi a selecionada.

LV - E o orgasmo feminino, também deriva de alguma adaptação evolutiva?

García Leal -
Se um macho via uma fêmea copular com outro macho, se excitava e se aproximava: isso é congruente com o fato de que o orgasmo feminino demora mais a chegar que o masculino... Sabemos que o orgasmo feminino provoca um leve mecanismo de sucção do esperma: isso favoreceu o macho que o provocasse.

LV - Vejo que meu pênis foi desenhado por um antigo Éden de fêmeas promíscuas!

García Leal -
Sim. Quando o macho aperfeiçoou sua eficácia como caçador, deu-se a monogamia: a fêmea quer atrair só para ela o melhor provedor de carne, e o macho a investia nela.

LV - O que o leva a escolher uma e não outra?

García Leal -
Aqui intervém o mistério dos peitos. Por que gostamos dos seios túrgidos?

LV - É disso que vivem os cirurgiões plásticos...

García Leal -
O seio túrgido é o seio núbil, adolescente: acasalar-se com mulher jovem, de longa fecundidade pela frente, teve um prêmio evolutivo... E por isso a evolução escolheu para a fêmea humana um rosto infantil.

LV - E por que gostamos da cintura estreita em relação aos quadris e à nádega?

García Leal -
A gordura prepara a fêmea para a maternidade. Mas se essa reserva se depositar na cintura (como no macho), pareceria grávida, então a evolução a desviou para baixo.

LV - Afinal, somos monógamos ou polígamos?

García Leal -
Temos tendência natural a nos acasalar, mas estaríamos aqui se tudo tivesse sido sexo conjugal? Temos tendência natural também ao sexo extraconjugal. O adaptativo são as duas condutas simultâneas.

LV - Somos monógamos adúlteros, então!

García Leal -
A verdade é que a estabilidade do casal humano não se baseou tanto na satisfação sexual quanto nos filhos e na dependência psicológica mútua.

LV - E que acontecerá com o sexo no futuro?

García Leal -
Os machos, ao saber que a reprodução vinha do sexo, reprimiram a sexualidade feminina (por medo de criar filhos de outro pai). Acabemos já com essa conjuração! Somos uma espécie selecionada para uma sexualidade lúdica. Por que continuamos a penalizá-la com inércias culturais lastimáveis?

O jogo do sexo

"O pênis e os seios têm tanta relevância na evolução da espécie humana quanto o bipedismo ou o crescimento do cérebro", afirma García Leal. "Por que se fala tanto do crescimento do cérebro e nada do crescimento do pênis?", ele se intriga.

E ele mesmo dá respostas científicas para todos os enigmas da sexualidade humana ao longo de nosso processo evolutivo em "La conjura de los machos" [A conjuração dos machos] (ed. Tusquets), uma leitura essencial, apaixonante.

Ela nos ensina que a seleção natural nos adaptou para um sexo lúdico (como os bonobos [chimpanzés pigmeus] e os golfinhos, outras espécies inteligentes e sociáveis da Terra), o que inclui a homossexualidade, mas que uma cultura projetada para proteger os genes do macho conseguiu nos submeter a uma idéia de sexo basicamente reprodutiva. Para especialista, os seres humanos são "monógamos adúlteros" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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