Em encontro com Hitler, Franco concordou que entraria na guerra

Eduardo Martín de Pozuelo

Franco e Hitler aparentemente se simpatizavam e se escreviam, mas só se conheceram em 23 de outubro de 1940, quando se encontraram na estação de Hendaye, na França ocupada. O caudilho espanhol desejava saudar seu admirado chanceler, e o Führer não ocultou simpatia pelo encontro. "Devo lhe agradecer sua idéia, manifestada ao ministro Súñer, de nos oferecer a oportunidade de nos encontrarmos perto da fronteira espanhola", Franco escreveu para Hitler em 22 de setembro de 1940. Franco queria dar sua opinião sobre a entrada da Espanha na guerra e acusou diante do Führer a Argentina e a Grã-Bretanha de serem culpadas pela falta de víveres na Espanha. No entanto o objetivo real das conversas era criar uma frente antiinglesa unida e importante, e assim abreviar a guerra. Só as queixas da Espanha e as esperanças da França colaboracionista de Pétain se interpunham no caminho traçado por um Hitler que desprezava essa França e temia a representada por De Gaulle, segundo um documento secreto redigido pela espionagem dos Estados Unidos a partir de documentos apreendidos com os alemães no final da guerra. Outro relatório, de fevereiro de 1941, confirma que Franco concordou em Hendaye que participaria da guerra.

A histórica reunião ocorreu à tarde. Hitler chegou às 15h30, e Franco, um pouco depois, ambos em seus respectivos trens especiais. A conversa aconteceu no vagão especial do Führer, um carro Pullman, como explicaram os funcionários do Terceiro Reich que transcreveram a entrevista, que a espionagem americana enviou em 21 de agosto de 1945 à embaixada dos Estados Unidos em Madri.

A impressão que os alemães tiveram da reunião é que "Franco estava feliz por encontrar-se pessoalmente com Hitler e desejava lhe agradecer tudo o que a Alemanha tinha feito por seu país". "A Espanha estava espiritualmente unida ao povo alemão, sem reservas, sentia-se um de seus eixos, especialmente depois que soldados das três potências haviam lutado lado a lado na Guerra Civil. No futuro, a Espanha sempre estaria do lado da Alemanha." Também concluíram que "a Espanha gostaria de se unir à Alemanha na guerra atual", mas que havia dificuldades bem conhecidas relativas a assuntos econômicos, militares e políticos. "A Espanha estava tendo problemas com os elementos anti-Eixo na América e na Europa e, portanto, com freqüência tinha de aceitar coisas com que não concordava", descreve o documento.

O "generalíssimo" pôs sobre a mesa os problemas de abastecimento e culpou a Argentina e a Inglaterra pela questão: "Franco mencionou o crescente problema espanhol das provisões e disse que pensava que a Argentina e a América ficavam com seus pedidos de Londres, já que sabia de exemplos nos quais as transações iniciadas pela embaixada britânica pareciam ter todas as dificuldades na Argentina e se evaporavam na América. As más colheitas estavam piorando o problema, e por isso a atitude da Espanha em relação à guerra era a mesma que a da Itália durante o outono anterior". No entanto, como se evidencia em outros documentos posteriores, as reclamações de Franco não impediram que ambos os líderes concordassem que a Espanha assinaria o pacto das Três Potências e entraria na guerra.

De sua parte, Hitler disse a Franco que estava contente por vê-lo pela primeira vez, depois de haver estado com ele "espiritualmente" durante a Guerra Civil, e "começou a descrição da situação militar atual". O chanceler alemão afirmou que a guerra estava realmente decidida, que a frente alemã desde a Polônia até a Espanha manteria distante qualquer desembarque inglês e que as únicas esperanças da Inglaterra eram a Rússia e os Estados Unidos.

Hitler anunciou que a Alemanha havia feito um pacto com os russos e que além disso estava fortalecendo seu exército até alcançar 186 divisões de ataque. "Os Estados Unidos não atacarão no inverno e precisarão de um ano e meio ou dois para sua mobilização", afirmou o Führer, que não descartou a possibilidade de que ingleses e americanos desembarcassem nas ilhas em frente à África. Quanto à batalha da Inglaterra, Hitler atribuiu a situação --os ingleses o haviam rechaçado-- à falta de hegemonia marítima da Alemanha e às más condições de vôo sobre o canal, razão pela qual não havia começado "o grande ataque" contra o Reino Unido. Os meteorologistas haviam previsto sete ou oito dias de céus claros, e o grande ataque começaria logo, Hitler anunciou a Franco, ao qual explicou que era cauteloso com o tempo --algo que esqueceu na campanha da Rússia.

Depois revelou que bombardearia Londres dia e noite até que pudesse atacar a Inglaterra, sobre a qual já havia lançado entre 300 mil e 500 mil kg de bombas. "Enquanto isso os aviões continuarão causando baixas", afirmou, anunciando que tratava-se de uma guerra de desgaste e que invadiria a Inglaterra "agora ou no início da primavera", quando o tempo mudasse.

"É claro que a Alemanha deseja finalizar a guerra o mais cedo possível e evitar a perda de dinheiro e de sangue", foi dito em Hendaye. E foi revelado que, com o fim de assegurar que os Estados Unidos manteriam sua armada no Pacífico, a Alemanha tinha firmado o pacto com três potências e que "confidencialmente muitos outros países europeus haviam anunciado sua intenção de unir-se a ele".

O petróleo, o futuro da França ocupada e rendida e a preocupação que lhes causava o líder da França livre, o general Charles de Gaulle, também foram objeto da conversa entre Franco e Hitler, que não ocultou o que pensava do país gálico. O chanceler alemão revelou que para garantir o abastecimento de petróleo havia enviado aviões e tropas à Romênia, mas que sua maior preocupação era comprovar se De Gaulle ampliava sua influência e portanto proporcionava bases para ingleses e americanos na costa africana. Hitler sabia "que o governo de Pétain encontrava dificuldades tentando administrar as conseqüências de uma guerra pela qual não era responsável".

Em relação à França, Hitler disse a Franco o mesmo que havia dito na véspera ao presidente do governo francês de Vichy, Pierre Laval. O alemão era consciente de que De Gaulle devia levar a França a tomar uma atitude definitivamente favorável à Inglaterra. E "isso é duro, já que, além da orientação fascista de Laval, há os franceses que desejam um jogo duplo com a Inglaterra".

Para Hitler era difícil que a França tomasse uma decisão definitiva porque a guerra continuava. Mas, uma vez que a Inglaterra fosse vencida, a Alemanha poderia oferecer à França termos de paz mais simples. No entanto o Führer afirmou que, se a guerra continuasse e a Inglaterra pedisse um compromisso, a Alemanha não se esforçaria para salvar a França. O chanceler confessou que precisava da cooperação da França se continuasse a guerra contra a Inglaterra, com uma exceção: no caso de que a Inglaterra e De Gaulle fossem neutralizados. A Alemanha não se importaria em cumprir nenhum dos pedidos do governo colaboracionista de Vichy: "A França simplesmente terá de concordar, sob a ameaça de uma ocupação imediata". Segundo documentos da espionagem norte-americana, os ditadores negociaram aliança e discutiram detalhes para abreviar a guerra Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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