Grã-Bretanha procura o quinto homem

Rafael Ramos

Mil libras esterlinas é o preço na Inglaterra de duas semanas de aluguel, ou um terno da Saville Row, ou um pacote de férias na praia. Também é quanto custou fabricar quatro bombas que mergulharam o país numa espécie de catarse coletiva, perguntando-se como é possível que jovens de aparência normal que jogavam críquete no bairro se transformassem nos primeiros terroristas suicidas do Reino Unido.

Dois processos paralelos surgiram dos escombros do metrô e do ônibus nº 30. O primeiro é de caráter policial e consiste na busca do quinto homem dos atentados de 7 de julho, o suposto cérebro da operação, talvez ligado ao núcleo da al Qaeda, que teria vindo à Grã-Bretanha para dar instruções aos quatro fanáticos de Leeds e Luton dispostos a sacrificar-se, e desaparecido logo depois com o mesmo sigilo fantasmagórico com que chegou. Ontem à noite a Scotland Yard informou que a polícia efetuou várias batidas em casas no condado de Aylesbury, a cerca de 64 quilômetros a noroeste de Londres, mas não houve detenções.

O segundo processo é psicológico, e busca um antídoto para o veneno dessa radicalização islâmica que parece ter penetrado até os ossos da sociedade britânica. Uma vez identificados os autores materiais dos atentados - quatro jovens britânicos de origem paquistanesa -, a investigação se concentra nos aspectos cruciais de infra-estrutura. A Scotland Yard pediu as listas de passageiros que entraram e saíram do país nas últimas semanas e continua examinando as imagens das câmeras da estação de metrô de King's Cross.

Além do misterioso quinto homem, as autoridades não descartam a existência de um sexto, que seria o fabricante das bombas. Uma das grandes prioridades é seguir a pista dos explosivos utilizados, que segundo algumas fontes policiais poderiam vir dos Bálcãs. A polícia pediu a colaboração de todos os países europeus para verificar se desapareceram explosivos de minas ou bases militares.

O semtex, material utilizado durante muitos anos pelo IRA, praticamente deixou de circular na Grã-Bretanha em conseqüência da paz na Irlanda do Norte, mas existem alternativas como o C4 - plástico de alta qualidade -, que é fabricado nos Estados Unidos mas comum nos mercados negros da Sérvia e da Croácia (foi utilizado pelos terroristas de Bali, pelos do USS Cole no Iêmen e pelo terrorista do sapato, Robert Reid).

Ao que parece, os terroristas pretendiam crucificar Londres com ataques simultâneos em todas as direções, nas linhas de metrô que partiam da estação de King' Cross. Mas a colocação de uma bomba na linha norte foi frustrada por uma avaria que a deixou paralisada desde as 6 horas da manhã, daí a confusão de Hasib Hussain, o membro mais jovem da célula, que decidiu pegar o ônibus nº 30 com seu pacote mortal.

O ministro do Interior francês, Nicholas Sarkozy, afirmou ontem que os suicidas foram detidos pelas autoridades britânicas na primavera de 2004 em relação com outra operação, mas foram libertados. Em meio a outra polêmica anglo-francesa, o Ministério do Interior britânico desmentiu categoricamente essa afirmação e insistiu que os terroristas não estavam fichados no MI-5.

Em Islamabad, o governo paquistanês afirmou ter contribuído para abortar "um grande atentado" durante a campanha eleitoral de maio passado no Reino Unido. Em Leeds, a duas horas e meia de carro de Londres, os moradores de Beeston e Hyde Park se perguntam como rapazes de aparência normal puderam se radicalizar até esse ponto e passar despercebidos nas mesquitas, parques e lojas de peixe com batata frita dos subúrbios da classe trabalhadora.

Em uma das residências a polícia encontrou uma "pequena fábrica de explosivos". O fato de que fossem britânicos e suicidas causou consternação e levantou a pergunta de quantos mais haverá, espalhados pelas cidades do país. Os serviços de inteligência aceleraram a campanha de recrutamento de agentes muçulmanos para infiltrar-se nas comunidades islâmicas.

Os britânicos temem uma israelização de sua sociedade, na qual os atentados suicidas se estendam a discotecas, cafés, restaurantes e grandes lojas, transformando-se quase em rotina e criando um clima de paranóia permanente. No cenário mais pessimista, tanto os partidos políticos quanto as comunidades étnicas se radicalizariam, e ambos os extremos se alimentariam um do outro. Tony Blair advertiu sobre esse perigo ontem na Câmara dos Comuns, com um apelo dramático para que os muçulmanos "encontrem a voz autêntica e moderada do islã".

Blair mostrou-se disposto a acelerar a tramitação das leis previstas para combater como delito a incitação ao terrorismo e o ódio racial, medida que facilitaria a detenção e deportação dos extremistas que semeiam o ódio entre jovens muçulmanos.

Mas todos os especialistas concordam que a verdadeira solução deverá partir da própria comunidade islâmica, por um lado vitimizada por radicais de direita e que se sente estrangeira em seu próprio país (o que cria um problema de identidade que é caldo de cultivo para o integralismo), e por outro lado com uma postura ambivalente em relação ao terror, que é interpretada por alguns setores como de tolerância ou até aprovação implícita.

Shahid Malik, um muçulmano que é deputado trabalhista por Dewsbury, pediu o "despertar" de seus companheiros de credo, "para que gritos até agora aceitos deixem de sê-lo", por mais que sejam criticáveis as guerras no Iraque e no Afeganistão, o drama palestino, Abu Ghraib e Guantánamo. Por mais que Bin Laden, Saddam Hussein e a al Qaeda sejam monstros criados em parte pelo Ocidente na troca de "petróleo por tiranos" que esmagou qualquer tentativa democrática e reformista no Oriente Médio.

Com mil libras esterlinas pode-se comprar na Inglaterra um computador portátil, um sofá-cama barato, um vestido de Chanel. E também o ódio suficiente para fabricar quatro bombas e destruir inúmeras vidas. A investigação se concentra na pista dos explosivos e no cérebro do atentado. Blair está disposto a acelerar as leis contra incitação ao terrorismo e ódio racial. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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