Espionagem britânica ignorou sinais de perigo

Rafael Ramos
Em Londres

Nenhuma placa identifica a Thames House, um enorme edifício neoclássico de pedra granítica às margens do Tâmisa, como a sede do MI5. Mas em seu interior, entre telefones vermelhos, computadores de última geração e monitores de plasma, 80 agentes da equipe G permanecem em contato permanente via satélite com a CIA, o Mossad e espiões espalhados por todo o Oriente Médio, desde Beirute até as montanhas do Waziristão, para seguir a pista da al Qaeda.

O sistema, no entanto, falhou em 7 de julho passado.

A desculpa dos orgulhosos serviços de inteligência de sua majestade, que se consideram os melhores do mundo, é que não têm recursos suficientes para vigiar todos os possíveis terroristas.

Mas sua reputação não foi exatamente beneficiada pela notícia de que o nome de Mohamed Sidique Khan, um dos terroristas suicidas de Leeds, apareceu entre exclamações em suas telas, relacionado a um projeto de atentado frustrado em Londres em 2004.

Uma investigação preliminar do MI5 determinou no ano passado que o perigo de Khan, um professor de 30 anos que ajudava a integrar crianças imigrantes recém-chegadas à sociedade inglesa, era de baixa voltagem, apesar de suas viagens ao Paquistão e seus contatos com grupos radicais, e não justificava que seus movimentos ou amizades fossem objeto de observação.

Em 7 de julho passado, ele pôs uma bomba no metrô de Londres perto da estação de Egware Road, matando a si mesmo e a outros seis passageiros.

O nome de Khan tinha aparecido vinculado a um plano abortado para explodir um clube no Soho, com a ajuda de um caminhão-bomba carregado com 300 quilos de explosivos. O terrorista visitou um dos membros daquela célula, mas os serviços de inteligência determinaram que era uma figura periférica demais para merecer sua atenção.

Falar em acúmulo de erros talvez seja excessivo em um mundo tão complexo e cheio de pistas falsas, mas diversas revelações começaram a criar na Grã-Bretanha a impressão de que poderiam ter sido tomado medidas preventivas mais eficazes, e que a CIA, o Mossad, o MI5 e o ISI paquistanês não se coordenaram muito bem.

Dois agentes americanos disseram que Mohamed Junaid Babar, que em junho de 2004 se declarou culpado de dar assistência material à al Qaeda e estabelecer um campo de treinamento terrorista no Afeganistão, conhecia Khan e contava com ele como possível soldado para os planos de explodir bares, restaurantes e estações de trem na Grã-Bretanha.

As falhas, porém, não teriam terminado aí, já que o quarto suicida, o britânico de origem jamaicana Lindsey Germaine, também parece ter figurado nas listas de potenciais terroristas, por seus contatos com figuras ligadas à al Qaeda nos Estados Unidos, e nem a CIA nem o MI5 deram a devida atenção a suas atividades.

Além disso, as autoridades britânicas suspeitam que o cérebro do 7 de Julho entrou no país pelos portos de Dover ou Felixtown, no canal da Mancha, três semanas antes dos atentados.

A própria espionagem do Reino Unido alimentou a sensação de um certo caos, ao indicar nesta segunda-feira (18/07) que não tem certeza se o Lindsey Germaine que aparece em seus sistemas e nos do FBI é o mesmo que colocou a bomba em Liverpool Street, ou outro de nome e aspecto parecidos, e que as versões sobre a presença de um dirigente da al Qaeda na Inglaterra possam ser erradas e corresponder a um caso de identidade falsa.

A polícia continua operando sobre a base de um ataque suicida, mas não descarta a possibilidade de que o cérebro tenha programado os temporizadores sem o conhecimento dos terroristas para que morressem, o que explicaria o fato de eles terem comprado bilhetes de ida e volta no trem e colocado moedas no estacionamento de Luton. Tanta confusão e contradições inquietaram a opinião pública em um momento em que esta quer respostas.

O MI5 alega que carece de recursos humanos suficientes e solicitou ao governo mais 500 agentes para patrulhar portos, aeroportos e instalações de segurança máxima, assim como para vigiar o maior número de potenciais terroristas que aparecem marginalmente em seus radares mas não são objeto de atenção prioritária, como foi o caso de Mohamed Sidique Kahn.

Em 6 de julho, véspera dos atentados em Londres, a inteligência britânica seguia a pista de mais de 200 islâmicos radicais que considerava capazes de cometer atentados, tinha em andamento dez operações diferentes de vigilância nas comunidades muçulmanas de Luton, Bradford, Slough, Birmingham, Manchester, Bristol e Reading, e dois meses antes tinha recebido informes do governo paquistanês sobre planos para atacar o sistema de transporte público de Londres.

Mas o alerta antiterror era baixo, e centenas de agentes foram enviados à Escócia para proteger os líderes do G-8 reunidos em Gleneagles. Já se fala em uma investigação interna do MI5 e outra externa por parte do Parlamento, mas para as vítimas do 7 de Julho será tarde demais.

Muçulmano comemora atentados

A sociedade britânica está escandalizada pelas declarações do egípcio Hani Al Sibai, um professor islâmico radical que se vangloria da "grande vitória da al Qaeda".

Esse fundamentalista, diretor de uma escola de estudos islâmicos no bairro londrino de Hammersmith, confirmou na edição dominical do "Times", pontualmente, suas declarações anteriores em defesa de Bin Laden, que já haviam causado revolta.

As novas leis que o governo Blair prepara contra os que incitam à violência religiosa, os profetas do ódio, apontam para personagens como Al Sibai. Serviço secreto MI5 investigou terrorista em 2004, e não viu ameaça Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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