Tony Blair faz cúpula com lideranças muçulmanas

Rafael Ramos
Em Londres

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, convocou uma cúpula com dirigentes das comunidades muçulmanas.

Assunto: as causas do atentado de 7 de julho. Objetivo: erradicar o integralismo islâmico no Reino Unido. Lugar: Downing Street, residência do primeiro-ministro. Participantes: Tony Blair, os líderes da oposição e 25 deputados, empresários, religiosos e acadêmicos da comunidade muçulmana no país. Conclusão: criar um grupo de trabalho para agarrar o touro pelos chifres e evitar um novo ataque terrorista, embora a própria polícia britânica admita com deprimente fatalismo que isso é virtualmente impossível.

Na grande reunião político-religiosa desta quarta-feira (20/07), chocaram-se duas visões radicalmente opostas dos motivos que levaram quatro cidadãos britânicos a se sacrificar e provocar um massacre no centro de Londres. Para Tony Blair, trata-se de um câncer dentro da comunidade muçulmana que leva a "abraçar o mal" e deve ser extirpado "com a força da razão".

Para os líderes islâmicos isso é apenas uma parte da fórmula, e é preciso acrescentar outros fatores, como a pobreza, o desemprego, a marginalização, a crise de identidade dos jovens, a política externa dos Estados Unidos e do Reino Unido, o problema palestino, a exploração dos recursos petrolíferos do Ocidente, os abusos em Guantánamo e Abu Ghraib ou as guerras do Iraque e do Afeganistão.

Blair e seus interlocutores entraram em acordo para enfrentar os problemas e manter-se em contato.

Não foram dados detalhes concretos de uma longa hora de conversa franca e tensa, mas o primeiro-ministro pediu aos líderes religiosos que ponham ênfase em condenar a violência, marginalizar os imãs radicais que vêm do exterior (em muitos casos sem falar inglês) e sejam a voz e os olhos do governo em suas respectivas comunidades, informando sobre qualquer atividade que considerem suspeita.

O serviço de inteligência britânico, MI5, está recrutando com urgência espiões de origem muçulmana.

Quase duas semanas depois dos atentados, e embora permaneça o consenso entre governo e oposição, dois fenômenos deram o que pensar a Blair: o primeiro é uma pesquisa publicada pelo jornal "The Guardian" na qual 33% dos britânicos atribuem a ele grande responsabilidade pelos atentados, e 31% um pouco.

O segundo é o vazamento para o jornal americano "The New York Times" de um relatório secreto dos serviços de segurança britânicos, que em junho proclamaram categoricamente a ausência de grupos com capacidade para cometer um atentado.

O documento, somado à decisão de não vigiar uma figura da al Qaeda que entrou no país, e ignorar que o nome de um dos terroristas havia aparecido em conexão com um plano anterior para explodir um caminhão-bomba em Londres, criou uma certa imagem de ineficiência.

A obsessão de Blair é impedir que os britânicos considerem que fatores políticos como o Iraque ou a aliança com Bush contribuíram para o 7 de Julho. Por isso ele voltou a pôr a culpa em uma ideologia diabólica e a lembrar que já houve atentados terroristas antes da guerra.

"Sou contra aqueles que defendem colocar bombas no Reino Unido, Afeganistão, Turquia, Palestina, Caxemira ou qualquer lugar. Para essa gente não deve haver lugar em nosso país."

Os acadêmicos, deputados, filósofos, empresários e religiosos muçulmanos tentaram em vão convencê-lo de que as coisas são mais complexas. E que, embora a invasão do Iraque ou os abusos cometidos em Abu Ghraib não justifiquem o terrorismo, são um fator de recrutamento de jovens frustrados que não se sentem nem britânicos nem paquistaneses e encontram refúgio na jihad (guerra santa) e na versão mais radical do islã. O líder dos conservadores muçulmanos propôs dialogar com os grupos fundamentalistas como se fez com o IRA.

Enquanto isso, a polícia paquistanesa deteve ontem 25 supostos fundamentalistas islâmicos que poderiam estar relacionados aos suicidas que cometeram os atentados em Londres.

França expulsa religiosos radicais

O ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozy, comprometeu-se nesta quarta a retomar os processos de privação de nacionalidade francesa aos imãs radicais e de expulsão "sistemática" dos que não a tiverem.

Afirmando que haverá "tolerância zero" contra os radicais islâmicos, com o fim de combater o terrorismo, Sarkozy salientou que os atentados na capital britânica lhe ensinaram que é preciso ser muito mais severo com os que alistam os jovens camicase e prometeu "retomar os processos de privação da nacionalidade contra os imãs franceses que mantenham discursos violentos e fundamentalistas". Objetivo é traçar estratégia antiterror; os britânicos culpam o premiê Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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