Relatório constata "anarquia" no Iraque e "incapacidade" dos EUA para contê-la

Xavier Batalla
Em Barcelona

Bill Clinton entrou na Casa Branca em 1993 como comandante em chefe da única superpotência. A ameaça soviética havia desaparecido, mas os incêndios abundavam. Desde a queda do Muro de Berlim, em 1989, até os atentados de 11 de setembro de 2001, a maioria das crises internacionais girou em torno de países frágeis ou fracassados, como Somália, Haiti, Camboja, Bósnia, Kosovo, Ruanda, Libéria, Serra Leoa, Congo e Timor Leste.

Nesse novo cenário internacional, o instinto de Clinton foi intervencionista, com a notável exceção de Ruanda. O governo Clinton interveio na Bósnia, Haiti, Somália e Kosovo, embora os interesses americanos não parecessem diretamente comprometidos.

Segundo calculou Nancy Soderberg, autora de "The Superpower Myth" (2005) [O Mito da Superpotência], o presidente democrata nomeou um número recorde (55) de enviados especiais para resolver ou prevenir conflitos, desde a Irlanda do Norte até o Oriente Médio e da Índia e Paquistão até Equador e Peru.

Quer dizer, Clinton foi ativo no exterior, mas, confrontado com um estamento militar reticente e um Congresso hostil, não atuou decisivamente em muitos casos.

As intervenções na década de 90 foram majoritariamente consideradas de caráter humanitário. No debate predominou o argumento de que o sistema surgido em Vestfália [1648 - fim da Guerra dos 30 Anos], cujas pedras angulares são a soberania e o Estado-nação, havia deixado de constituir um esquema próprio para as relações internacionais do final do século 20.

Por isso, uma vez acabada a Guerra Fria, os ditadores e violadores dos direitos humanos não deveriam continuar usando o princípio de soberania para se proteger enquanto cometiam crimes contra a humanidade.

Nesse contexto, a ação de Clinton foi multilateral, mas também começou a mudar as regras no que se refere à utilização da força. Essa mudança foi corrigida e aumentada pelo governo Bush, cuja fraqueza não foi a intervenção humanitária.

Em 1999, Clinton interveio em Kosovo contra a Sérvia, um Estado soberano, sem a autorização da ONU. Interveio por razões humanitárias, para evitar a violação dos direitos humanos pelo regime de Slobodan Milosevic, mas afinal começou a modificar as regras do jogo, o que posteriormente beneficiaria o governo Bush, que em nome da segurança desacreditou a intervenção humanitária.

Com o primeiro Bush, o papel das forças americanas nas operações de manutenção da paz da ONU se reduziu drasticamente, e a idéia de construir nações, tão manipulada por Clinton, foi arquivada. As prioridades do novo governo passaram a ser o projeto de defesa antimísseis e a contenção da China, a potência emergente.

Mas os atentados de 11 de setembro facilitaram a mudança. Desde então, os Estados Unidos travaram duas guerras, no Afeganistão e no Iraque, embora na primeira tivesse o apoio da ONU para responder à agressão e na segunda tenha ressuscitado a velha doutrina do ataque preventivo.

Clinton, que suspendeu a ajuda ao Paquistão devido ao golpe do general Pervez Musharraf, nunca investiu tantas energias como na reconstrução do Afeganistão e do Iraque.

Pelo contrário, Bush, que começou sem vocação para arquiteto de nações, agora está comprometido --ou enredado, conforme se olhe-- em edificar nesses países um modelo democrático para o resto do mundo muçulmano.

Afeganistão e Iraque, no entanto, ainda não sabem o que é um boom no setor da construção democrática. E o Paquistão, embora aliado de Bush, contém os ovos da serpente.

Em solo afegão, o taliban continua guerreando. Um informe da Rand Corporation, "Establishing law and order after conflict" [Estabelecendo a lei e a ordem depois do conflito], concluiu que as reconstruções do Afeganistão e do Iraque "estão muito longe de ter tido êxito no estabelecimento da lei e da ordem".

A organização Iraq Body Count [Contagem de corpos no Iraque] revelou esta semana que 70% dos 25 mil civis mortos desde o início da guerra iraquiana, segundo seus cálculos, foram registrados depois que Bush anunciou triunfalmente em 1º de maio de 2003 que os grandes combates haviam terminado.

Toby Dodge, professor da Universidade de Londres e co-autor desse relatório, declarou ao jornal "The Independent": "O Iraque está caindo na anarquia, e a presença dos Estados Unidos não ajuda. Ficou demonstrada sua incapacidade para construir um Estado pacífico".

A ironia é que o Iraque, transformado num Estado frágil, agora parece necessitar de uma intervenção humanitária para proteger os direitos da população civil. Agora é que o país precisa de intervenção: com caráter humanitário Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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