"Cinema é imaginação", diz o cineasta Tim Burton

Gabriel Lerman
Em Nassau, Bahamas

O diretor Tim Burton carrega consigo uma foto horrível de Michael Jackson para mostrá-la a qualquer um que se atreva a comparar a imagem de Johnny Depp no papel de Willy Wonka com a do polêmico cantor americano. Basta algum jornalista mencionar o tema que Burton tira a foto do bolso dos jeans, a coloca junto ao cartaz do filme que está promovendo e pergunta: "Realmente, você acha que têm algo parecido?"

Divulgação 
Tradicional parceiro de Tim Burton, Jhonny Depp (dir.) lidera o elenco de "A Fantástica Fábrica de Chocolate"
Burton nos convocou a Nassau para aproveitar alguns dias de descanso de Depp na rodagem da segunda e terceira partes de "Piratas do Caribe".

Vestido com sua tradicional roupa escura, o lendário diretor de filmes como "Edward Mãos de Tesoura", "Ed Wood" e "A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça" continua trabalhando também em "Noiva-Cadáver", um filme de animação "stop-motion" em que também colaborou com Depp e que estreará nos Estados Unidos no final do ano.

"A Fantástica Fábrica de Chocolate" se baseia em uma história de Roald Dahl já filmada por Mel Stuart com o título "Um Mundo de Fantasia", no qual o papel de Willy Wonka era interpretado por Gene Wilder.

O pai de Willy Wonka é um dentista abusivo que colocava aparelhos ortodônticos gigantescos em seu filho só para se divertir. Mas o que Willy nunca lhe perdoou era que tivesse queimado o saco de guloseimas que ganhou em Halloween, o que o fez dedicar sua vida a inventar novas variedades de chocolate.

Reuters 
O diretor Tim Burton, no cenário de outro grande sucesso, "Planeta dos Macacos"
La Vanguardia - Esta é a segunda vez que trabalha em uma adaptação de Roald Dahl para o cinema, depois de "James and the giant peach"...

Tim Burton -
Sempre gostei muito de Dahl como autor. Além disso, seus textos têm um senso de humor muito especial. Hoje todas as crianças estão fascinadas por Harry Potter, mas quando eu era pequeno ele era o autor de que eu mais gostava.

LV - Durante as entrevistas de "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas" o senhor explicou que a primeira versão não lhe agradava.

Burton -
Nunca quis criticar a adaptação de Stuart. O que eu quis dizer é que quando somos crianças temos nossos filmes favoritos, e sei que "Charlie e a Fábrica de Chocolate" é o favorito de muita gente, mas nunca foi para mim. É só isso. Eu nunca quis dizer que fosse um filme ruim. Na versão de Stuart tiraram o pai de Charlie do filme, e nós achamos melhor deixá-lo. O que tentamos é que fosse a adaptação mais fiel e autêntica do livro de Dahl. Por exemplo, não queria que o rio de chocolate fosse simplesmente água marrom: queria que parecesse um rio de chocolate.

LV - A idéia foi sua, ou encomenda de estúdio?

Burton -
Sim, me ofereceram. É um livro de que eu sempre gostei, mas também era um desses projetos que esteve dando voltas durante anos antes de se concretizar, e por isso fui muito afortunado de terem me oferecido num momento em que eu estava disponível.

LV - Alguma vez o senhor pensou que Johnny Deep não fosse o ator ideal para interpretar Wonka?

Burton -
Essa foi a primeira vez que não precisei convencer nenhum executivo para que o contratasse. Antes que eu pudesse abrir a boca, o pessoal do estúdio me perguntou: o que você acha de Johnny Depp?

LV - Como foi o processo de negociação com o estúdio sobre o tipo de filme que fariam?

Burton -
Eles haviam desenvolvido o projeto durante vários anos, mas tinham propostas como a de que Charlie fosse uma figura mais ativa, ou que deixássemos o pai de fora para que Willy Wonka passasse a ser uma figura paterna. E eu respondi que não, de modo algum, porque Willy Wonka não é uma figura paterna. Esse é um tema que na minha opinião era inalterável.

Com John August, tentamos ser o mais fiéis possível ao livro. Nos roteiros que haviam feito antes, havia idéias muito boas, mas nós tentamos começar do zero e tomar o livro de Roald Dahl como se fosse nossa bíblia.

O estúdio às vezes tinha problemas com tanta fidelidade ao material original e queria que Charlie fosse um pouco mais que uma criança comum. Me diziam: "Tem de haver uma conexão entre Willy Wonka e Charlie". E eu lhes respondia que não, que exatamente não precisava haver nenhuma conexão entre os dois.

Fui muito feliz por ter contado com Freddie Highmore para interpretar Charlie. Seu aspecto físico é muito importante. Charlie é um menino desnutrido que pode sair voando se for apanhado por um temporal. Esse elemento do livro tinha que ficar muito claro no filme, porque para mim era imprescindível que Charlie fosse um personagem muito simples.

LV - O senhor acha que Wonka é meio louco?

Burton -
Não, eu creio que se percebe que é um homem que tem uma grande repressão emocional. Quando as pessoas estão traumatizadas, colocam barreiras em toda parte. Mas além disso eu conheci muita gente que é um gênio em certas coisas e totalmente ineficiente em outras áreas da vida. Creio que Willy Wonka é uma combinação desses dois elementos.

LV - Quase todos os seus filmes têm elementos fantásticos. Sempre foi sua opção, ou Hollywood o rotulou?

Burton -
Não creio que seja uma rotulação, mas devido ao tipo de filmes de que eu gostava quando menino, porque minha inspiração sempre foram os filmes que tinham elementos fantásticos. O motivo pelo qual faço os filmes que faço é simplesmente porque vejo o cinema com um meio visual e desfruto muito de todos aqueles filmes que fazem um bom uso da imagem, e conseqüentemente da imaginação.

LV - O senhor já é aceito em Hollywood?

Burton -
É curioso. Sinto-me muito feliz por poder continuar fazendo filmes, o que equivale a certo nível de aceitação, mas ao mesmo tempo minha impressão é que Hollywood está mudando o tempo todo e que ultimamente a única coisa que pesa é o aspecto empresarial dos filmes.

Cada vez há mais gente que nunca fez um filme na vida tomando decisões sobre qual é o filme que deve ser feito. Isso faz que o tempo todo estejam se fixando em minha trajetória comercial. Não me aceitam totalmente, porque eles vêm de um mundo diferente do que eu venho. Diretor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate" dá entrevista ao LV Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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