EUA desconfiavam do ditador Franco apesar de negociar com ele, mostram documentos

Eduardo Martin de Pozuelo
Em Barcelona

Quando em 26 de setembro de 1953, a Espanha e os Estados Unidos assinaram os três históricos convênios de ajuda defensiva e econômica, o governo americano reconhecia em segredo que os assinava porque "o general Franco é a única força na Espanha com a qual se pode negociar de forma prática", e também porque "na atualidade a Espanha só está preparada para aceitar um acordo limitado, e isso só faria conosco".

Para os Estados Unidos, já sob a presidência republicana do general Dwight Douglas Eisenhower, o acerto com Franco se apresentava internamente como um mal menor ou uma contrariedade necessária, pois o maior país do mundo era plenamente conhecedor da realidade da Espanha sob a ditadura de Franco e seu regime.

Embora as duas citações que iniciam esta reportagem façam parte da exposição ultra secreta realizada pelo diretor do Escritório de Assuntos da Europa Ocidental na Universidade de Guerra do Exército americano em maio de 1952, de fato os documentos daquele tempo, hoje revelados, transmitem a mesma idéia.

Por exemplo, na informação de segurança (top secret) para o Departamento de Estado de 11 de fevereiro de 1953, perto do final da negociação, designam-se como objetivos dos Estados Unidos na Espanha o desenvolvimento "com urgência da potencialidade militar da posição geográfica estratégica da Espanha para a defesa da zona da Otan; a ajuda para melhorar as relações da Espanha com outros países da Europa ocidental; e, se for politicamente possível, obter uma pronta participação da Espanha na Otan".

Mas no mesmo documento se explica que "a Espanha, nominalmente uma monarquia, é um Estado autoritário" e que "o general Franco, que foi chefe de Estado desde 29 de setembro de 1936, também é comandante em chefe das forças armadas, presidente do governo e chefe do partido Falange", que "é o único partido político legal".

Mais adiante, analisa as instituições: "as Cortes, o Parlamento espanhol, composto por cerca de 475 membros, é um corpo de aprovação com caráter oficial predominantemente sob o controle do chefe de Estado. Na prática houve muito pouca liberalização dos controles de expressão e de imprensa nos últimos três anos. Os meios de expressão pública são efetivamente controlados pelo governo".

E, com frieza de um relatório, continua: "Como sob o regime de Franco não existem critérios para determinar o alcance da opinião pública, como eleições livres, liberdade de reunião ou uma imprensa livre, é difícil julgar as tendências políticas do povo espanhol. A Falange carece de um programa dinâmico e aparentemente mantém seus membros principalmente porque conta com o monopólio da atividade política..."

Definitivamente, o Departamento de Estado pensava que "a posição do governo do general Franco é provavelmente mais forte hoje do que foi anteriormente, desde 1940, embora o regime deva permanecer alerta à oposição, tanto interna quanto externa" e que "embora as relações da Espanha com seus vizinhos da Europa ocidental tenham melhorado, o sentimento popular em alguns desses países continua sendo tão hostil que para seus governos seria potencialmente difícil neste momento aceitar a Espanha na Otan".

A verdade é que ainda faltavam 33 anos para que a Espanha passasse a fazer parte oficialmente da organização atlântica.

Com os Estados Unidos conscientes das limitações políticas espanholas, da inviabilidade objetiva para a integração da Espanha na Otan e de que a península Ibérica era literalmente imprescindível para a defesa do Ocidente, restava aos Estados Unidos a via dos pactos bilaterais para instalar suas bases militares na Espanha. E assim se fez, mas sob premissas e intenções que obviamente permaneceram secretas.

Os documentos agora revelados evidenciam que o plano era que a montagem de bases na Espanha "não atrapalhasse tudo o que se conseguiu até agora com os países da Otan".

Também provam que "as autoridades militares britânicas e francesas estavam de acordo" com o "primeiro e imediato objetivo" de instalar bases na Espanha sempre e quando "o fluxo de apoio militar e econômico dos Estados Unidos para eles não seja diminuído por seu desvio para a Espanha".

É claro que Washington também supunha que "o desenvolvimento do programa de bases na Espanha, mais a evolução da força de defesa européia para que inclua a participação da Alemanha, criará uma situação na qual podemos progredir para o fortalecimento do exército espanhol para que faça parte da defesa da Europa".

Enquanto o mencionado progresso permanecia no terreno da especulação teórica, as pretensões da Casa Branca em relação à Espanha estavam perfeitamente definidas.

Entre os principais requisitos militares classificados "top secret" acordados pelo Departamento de Estado e Defesa, e que só foram explicados em termos gerais ao governo espanhol, contemplava-se montar bases da força aérea "em Madri, Barcelona, Sevilha, Zaragoza e Albacete (perto de Valência) e outra na área de Cádiz, "avançada da marinha, capaz de dar suporte aéreo e marítimo aos porta-aviões, de ser plataforma para submarinos" e centro de reconhecimento de operações logísticas da ala aérea da frota.

Nas anteriores, queriam mobilizar "seis alas de bombardeiros médios, uma ala de reconhecimento estratégico, uma ala de escolta de aviões, duas alas de luta e interceptação e as correspondentes unidades de suporte".

A mobilização permanente em tempo de paz da força aérea e da marinha era de 14 mil homens, e "a mobilização prevista em tempo de guerra para esses dois serviços, de 47 mil".

"Esses objetivos exigirão tempo, paciência e um esforço considerável para obtê-los. Prova disso são as muitas dificuldades que enfrentamos nos passos dados até agora", disse Homer M. Byintong em maio de 1952, em pleno caminho para as bases.

Desde então permaneceu na Espanha uma sensação de insatisfação que só se diluiu com a assinatura do convênio de defesa bilateral de 1989, quando finalmente os Estados Unidos e a Espanha se trataram como iguais. Devido ao acordo, os 72 aviões F-16 da força aérea americana se retiraram de Torrejon de Ardoz em maio de 1992.

Eleições livres em 1953

A situação política da Espanha era um dos principais temas de análise da inteligência americana. Consideravam Franco um bom parceiro (embora não o mais desejado) na luta contra o comunismo. Por isso a Casa Branca queria que seu regime se mantivesse sólido e estável, e que assim os pactos bilaterais não corressem perigo.

Em um informe secreto de 11 de fevereiro de 1953 afirmava-se que "a posição do governo Franco é provavelmente mais forte agora do que já foi antes, desde 1940", mas advertia que apesar dessa força "o regime deve permanecer alerta à oposição, tanto interna quanto externa. No entanto, a oposição organizada não representa uma ameaça significativa ao atual governo, nem tem qualquer perspectiva sob as atuais condições do que será no futuro".

Os Estados Unidos estudaram a hipótese (muito remota naquela época) da realização de eleições democráticas na Espanha:

"Supondo que se desse ao povo espanhol a oportunidade pacífica de mudar seu governo mediante eleições livres, uma estimativa por alto seria que tanto o Partido Comunista como a Falange receberiam cada um menos de 10% dos votos, e a grande maioria do resto seria dividida entre monarquistas, socialistas, anarquistas e algum tipo de partido apoiado pela Igreja". O estudo indica que essa votação inevitavelmente seria marcada "pelo medo de que ocorresse outra guerra civil".

Primeiro convênio defensivo

Madri e Washington assinaram um convênio defensivo no qual o Pentágono havia desenhado um dispositivo militar que seguia uma linha diagonal de sudoeste para nordeste. Esse plano incluía a base aérea naval de Rota (Cádiz) e as bases aéreas de Moron (Sevilha), Torrejon (Madri) e Zaragoza.

Os Estados Unidos planejaram que as bases seriam unidas por um oleoduto de 800 quilômetros de comprimento. Esse dispositivo se completava com sete postos de radar e 33 instalações adicionais.

No primeiro convênio defensivo entre os dois países, os americanos se comprometeram a modernizar as forças armadas espanholas, um processo articulado por meio dos Military Assistance Advisory Groups.

Para o cumprimento desse plano foram mobilizadas três divisões de infantaria, que seguiam o modelo americano formado por cinco elementos intermediários entre o regimento e a divisão, criando um conjunto de 14 mil homens e 2 mil veículos. Vizinhos europeus poderiam vetar a Espanha autoritária na Otan Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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