Direita critica o filme de Spielberg sobre a chacina do Setembro Negro em Munique

Andy Robinson
Em Nova York

Criticado nos Estados Unidos por tirar partido dramático do 11 de Setembro em seu último filme, "A Guerra dos Mundos", e por comparar os invasores extraterrestres com o exército americano no Iraque, Steven Spielberg provocou ainda mais irritação por sua colaboração com o dramaturgo marxista Tony Kushner em seu próximo filme, que com toda probabilidade se chamará "Vingança".

Ele conta a história do sangrento seqüestro de atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972 e os assassinatos cometidos depois pelo serviço secreto israelense, o Mossad.

Considerado durante os anos 90 como o diretor mais sintonizado com os valores conservadores da América mediana, Spielberg parece ter sofrido uma transformação desde o 11 de Setembro.

"A Guerra dos Mundos" provocou críticas pelas imagens que evocam o terror do atentado a Nova York: habitantes de Nova Jersey correndo apavorados enquanto os edifícios desmoronam, Tom Cruise esbranquiçado por uma camada de pó, um muro cheio de fotos de desaparecidos.

As imagens "só podem ser qualificadas de pornográficas", escreveu Timothy Noah em Slate.com. Também acusam Spielberg de ter incluído incentivos à resistência iraquiana. "As ocupações jamais funcionam", diz o personagem de Tim Robbins no filme.

"Para as pessoas de outras partes do mundo, esse filme é sobre o medo das invasões americanas. É claramente sobre a guerra no Iraque", disse seu roteirista, David Koepp. O filho de Cruise no filme escreve um ensaio sobre a ocupação francesa da Argélia.

Esse já é um terreno perigoso para um diretor da corrente dominante como Spielberg. Mas a colaboração com Kushner é pura dinamite. Assim como o diretor, Kushner é judeu, mas foi um opositor incansável da política israelense nos territórios palestinos.

Ao mesmo tempo, conseguiu colocar sofisticadas reivindicações políticas em obras como o seriado de televisão "Anjos na América" e o musical da Broadway "Caroline or change", que ganhou prêmios Emmy e Tony.

Colaboradores de Spielberg disseram ao "New York Times" que ele "nunca esteve tão disposto a cortejar a controvérsia". O diretor consultou-se com Bill Clinton e com seu próprio rabino. O filme, com um elenco americano e israelense, estréia em dezembro.

A decisão do governo de Golda Meir de autorizar o assassinato dos palestinos supostos seqüestradores de um grupo de atletas israelenses, que morreram num tiroteio com a polícia alemã em 1972, é especialmente relevante no contexto atual, quando as execuções sumárias de supostos terroristas é tema de debate nos Estados Unidos e na Europa. Pelo menos um dos assassinados pelo Mossad era inocente, na verdade o camareiro libanês-norueguês Ahmed Buchiki.

Spielberg afirmou em um comunicado enviado ao "New York Times", ao jornal Israel "Maariv" e à rede de televisão árabe Al Arabiya que a "resolução implacável" dos agentes do Mossad "deixou lugar a dúvidas", e isso tem lições para "o confronto em que nos encontramos hoje".

Esse tipo de comentário enfureceu colunistas neoconservadores nos Estados Unidos, que acusaram Spielberg e Kushner de manter uma "equivalência moral" entre os terroristas e o Estado israelense.

Norman Podhoretz, um destacado neoconservador, escreveu assombrado: "Spielberg, herói dos judeus (...) faz um filme sobre a reação israelense a um ato terrorista em colaboração com um homem [Kushner] que considera que Israel efetuou uma repressão brutal contra a intifada". Cineasta deixa de representar os conservadores e passa a atacá-los Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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