"Criei um Zorro infeliz no amor, mais vulnerável", afirma a escritora Isabel Allende

Xavi Ayún
Em Barcelona

A romancista chilena Isabel Allende (Lima, 1942), uma das autoras em língua espanhola mais vendidas no mundo, mudou de registro em seu novo livro, "El Zorro - Comienza la Leyenda" [O Zorro - Começa a Lenda] (ed. Plaza & Janés).

O romance recria o estilo, digamos, de "Batman Begins" --o início de um dos heróis de ficção mais conhecidos do mundo, o mascarado que defendia a população dos abusos das autoridades na Califórnia espanhola.

De sua residência em Sausalito (Estados Unidos), Allende respondeu às perguntas de La Vanguardia.

La Vanguardia - Como teve a idéia de escrever sobre o Zorro?

Isabel Allende -
A idéia não foi minha. O personagem foi criado em 1919 por um autor americano de novelas populares. Um tal Gertz comprou os direitos e depois os negociou com a Disney para fazer as séries de televisão e os filmes que todos vimos.

Atualmente os direitos voltaram para a família Gertz e eles entraram em contato comigo no verão de 2003 para me pedir que escrevesse um romance sobre o Zorro. No início me senti ofendida: "O que essa gente está pensando? Sou uma escritora séria, não escrevo por encomenda!" Mas depois comecei a estudar a época, o início do século 19, e decidi aceitar o desafio.

LV - Qual é sua base histórica real?

Allende -
O Zorro nunca existiu, foi criado por Johnston McCulley e lançado à fama pelo ator Douglas Fairbanks, que fez um filme mudo.

LV - É o herói hispânico dos Estados Unidos?

Allende -
O Zorro é um herói internacional. Sabe que 64% dos chineses o conhecem? Na Alemanha o número sobe para mais de 90%. Avós e netos gostam igualmente do Zorro. Mas sim, é um herói hispânico e portanto continua sendo muito querido pelos imigrantes na Califórnia e nos Estados Unidos.

LV - Seu personagem está a meio caminho entre a cultura americana e a indígena. A senhora, residente nos Estados Unidos, também se sente entre duas águas?

Allende -
Eu me encontro entre muitas águas. Meus pais eram diplomatas, de modo que passei a infância viajando. Depois do golpe militar no Chile (1973), fui refugiada política na Venezuela. Mais tarde me apaixonei por um americano e acabei transformada em imigrante nos Estados Unidos.

LV - É verdade que a senhora teve aulas de esgrima para escrever o livro, como os atores aplicados?

Allende -
Estudei manuais de esgrima e assisti a algumas aulas somente como espectadora, para me habituar com os movimentos, que devia escrever na novela. Mas não saberia me defender com um florete.

LV - Acredita que o heroísmo personalista que o Zorro encarna está em crise?

Allende -
O mundo está cheio de Zorros, tanto mulheres como homens, que se dedicam a fazer o bem, a defender os fracos, a questionar a autoridade... São heróis anônimos, que talvez não tenham a teatralidade e o encanto do Zorro, mas são indispensáveis em qualquer sociedade. Para cada malvado há mil pessoas decentes dispostas a sacrificar-se por seus ideais, mas pouco sabemos delas. O mal é escandaloso, o bem é discreto.

LV - Que importância tem o amor?

Allende -
Em todos os meus livros o amor tem um papel fundamental, porque creio que é a mais importante motivação do ser humano, mais que o medo ou a ambição. Por amor fazemos coisas incríveis. Não me refiro só ao sexual, mas ao amor de mãe, de amigos, de companheiros, pela justiça, pela natureza, etc.

No livro, não pude evitar que o Zorro fosse romântico, mas o fiz enamorar-se de mulheres que não correspondem a seus sentimentos. Ao fazê-lo infeliz no amor, fica mais simpático e vulnerável. Teria sido terrível um Zorro como um James Bond. Como acho tolo esse James Bond!

LV - Não teme que o fato de adotar um personagem de literatura popular atraia a hostilidade dos críticos?

Allende -
Faço cada livro pelo puro prazer de escrever. Se me preocupasse com a crítica, não voltaria a escrever uma só palavra.

LV - Qual é sua opinião sobre a obra original?

Allende -
Não teve pretensões literárias. McCulley escreveu centenas de novelas populares, folhetins e roteiros de televisão. Era um homem muito criativo e um trabalhador incansável, que nunca pretendeu ocupar um lugar nas letras universais. Talvez aí resida seu maior encanto. A autora, que concebeu uma espécie de "Zorro: Begins", fala a LV Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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