Negócios no Cone Sul fazem disparar o resultado de grandes empresas espanholas

Mariano Guindal
Em Barcelona

A América Latina é um tobogã para as grandes empresas espanholas. Quando desacelera, arrasta para baixo seus resultados, mas quando se reativa faz disparar seus lucros. Este ano estamos no momento do doce sabor latino.

Os números são contundentes. O Santander anunciou que acabará o exercício com lucros superiores a 5 bilhões de euros, dos quais 1,5 bilhão proveniente do Cone Sul.

No BBVA as coisas são ainda mais atraentes. Como brinca seu conselheiro delegado, José Ignacio Goirigolzarri, "agora podemos dizer que somos um banco americano". No primeiro semestre a América desbancou a Espanha como primeira fonte de lucros do banco. Do 1,813 bilhão de euros de resultados obtidos até julho, 823 milhões foram procedentes do outro lado do Atlântico, o que representa um crescimento de nada menos que 62,7%.

É significativo que dessa quantia a franquia mexicana Bancomer tenha trazido para o grupo 489 milhões, um crescimento de 88% em relação ao mesmo período do ano anterior. Portanto, é de prever que este ano os negócios na América Latina superem pela primeira vez o 1,7 bilhão de euros.

Se nos fixarmos na Telefónica, as coisas não são muito diferentes. A empresa presidida por César Alierta ganhou até junho 1,85 bilhão de euros líquidos, dos quais 518 milhões provêm da América Latina, depois de crescer mais de 58%.

O mais importante é que a margem de crescimento é enorme, dada a capacidade de desenvolvimento da região. Até junho, a América Latina trouxe ingressos de 3,629 bilhões, um aumento de 12,5%. Isso se deve ao forte desenvolvimento do negócio de celulares, depois da incorporação das operadoras compradas da BellSouth, e do desenvolvimento do acesso rápido à Internet, sem esquecer a telefonia tradicional.

O negócio da Endesa na América Latina salvou seu balanço final, que foi muito afetado neste semestre pela seca, o elevado preço do petróleo e o baixo preço da eletricidade na Espanha. Os negócios na região e na Europa experimentaram crescimentos superiores a 45%.

A Repsol YPF também conseguiu que este fosse o melhor semestre de sua história. Ganhou 1,650 bilhão de euros, um crescimento de 25% graças ao encarecimento do petróleo, obtido basicamente de suas reservas na América Latina e apesar dos problemas de regulamentação que ainda tem com o governo argentino.

Não é de estranhar, portanto, que com a forte melhora experimentada pelas grandes empresas espanholas com presença na América Latina os lucros no índice Ibex 35 tenham disparado. No primeiro semestre, elas tiveram lucros líquidos de 12,882 bilhões de euros, com um crescimento de 31,4%.

O faturamento se situou em 133 bilhões de euros, superando os 25%, enquanto o resultado da exploração ficou em 22,244 bilhões, com crescimento de 23%. É preciso levar em conta que o grupo Telefónica, com Santander, BBVA, Repsol YPF e Iberdrola representam mais de 60% do Ibex.

Dito de outra forma, a influência dos negócios latino-americanos foi chave na forte alta que o mercado espanhol experimentou no primeiro semestre, superando a barreira psicológica dos 10.100 pontos.

Como afirma Juan Ignacio Crespo, responsável pela Finanduero, o sucesso na América Latina explica em boa medida que a Bolsa espanhola esteja experimentando melhor comportamento que o resto dos mercados. Ao contrário, quando a economia do Cone Sul atravessa uma recessão, a Bolsa espanhola o acusa.

Essa tese é plenamente compartilhada por Juan Carlos Ureta, presidente da Renta 4, que afirma que as grandes corporações espanholas ainda têm uma ampla margem de crescimento na Bolsa, na medida em que a economia latino-americana mantenha seu ciclo expansivo. É significativo que a Norbolsa tenha se aventurado a prever que essas boas perspectivas se manterão pelo menos até 2006.

Nem mesmo o mau momento político que atravessa o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, parece preocupar o conselheiro delegado do Banco Santander, Alfredo Sãenz, que indicou que "nosso negócio no Brasil está obtendo lucros esplêndidos e não vemos nuvens no horizonte que nos inquietem".

Apesar das boas perspectivas, a verdade é que o Brasil preocupa os analistas pelo fato de seu crescimento ser menor que o restante da zona. Como afirma Alejandro Neur, do BBVA, "a desaceleração da economia brasileira é evidente e reflete as restrições produtivas de uma economia trabalhando no limite de suas possibilidades ".

Além disso, o desgaste político do governo brasileiro, que deverá enfrentar reformas impopulares, faz temer que esse gigantesco mercado se transforme no calcanhar de Aquiles.

Melhor situação em 40 anos

O que acontece na América Latina afeta diretamente os poupadores espanhóis. Uma grande parte dos recursos colocados em fundos de pensões se orientou para empresas espanholas que investiram no Cone Sul.

Isso fez a Espanha se transformar no investidor de referência na região, depois dos Estados Unidos, com investimentos que superam 10% do Produto Interno Bruto da região. Portanto, na medida em que a economia latino-americana vá bem, irá bem para milhões de pequenos poupadores e vice-versa.

Esse é um dos principais motivos pelos quais os serviços de estudos das principais entidades do país realizam um acompanhamento detalhado da evolução econômica da região.

O "latin watch" elaborado pelo serviço de estudos do BBVA, dirigido por José Luis Escrivá, é contundente ao afirmar que a bonança econômica na América Latina se mantém firme em um ambiente internacional favorável.

"Pela primeira vez em 40 anos, a região cresce dois anos seguidos de forma sincronizada. Todas as economias do continente apresentaram índices de crescimento positivos e altos no ano passado, e continuarão a fazê-lo em 2005."

De acordo com suas previsões, neste ano a região crescerá em um ritmo de 4,1% em média, cifra inferior ao crescimento de 2004, que foi de 5,9%, mas acima da média dos últimos 15 anos, que ficou em 3%.

Escrivá argumenta que o crédito bancário está crescendo com força na região e que existem grandes possibilidades de que continue assim nos próximos meses, "embora o mais importante seja que a base de expansão de crédito é agora mais importante que no passado". A inflação está diminuindo e para o próximo ano estima-se que ficará em torno de 6%.

Essa bonança é favorecida por um bom ambiente internacional, mas é preciso levar em conta que a China e os Estados Unidos têm uma influência direta na economia da região e que ambas as economias estão em fase expansiva. Além disso, as baixas taxas de juros e o alto preço das matérias-primas servem de motor.

Iberdrola investe no México

A Iberdrola investirá US$ 1,4 bilhão (1,132 bilhão de euros) no México até 2010, segundo afirmou o presidente da companhia, Vñigo de Oriol, durante a inauguração na sexta-feira de duas centrais de ciclo combinado no país americano. A elétrica espanhola tem projetos de geração no México com capacidade de 5 mil megawatts.

Insolvência da Argentina

A Argentina será capaz nos próximos anos de enfrentar o pagamento de juros e baixar sua dívida líquida, segundo relatório do Serviço de Estudos Econômicos do BBVA Banco Francés. O prognóstico se baseia nas taxas de crescimento econômico do país, no superávit de sua balança de pagamentos e o balanço positivo entre ingressos e gastos públicos. América Latina: países emergentes se recuperam após estagnação Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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