Instabilidade no Oriente Médio faz o preço do petróleo bater recorde

Manuel Estapatous
Em Barcelona

O barril de petróleo beirou nesta terça-feira (9/8) os US$ 64 no mercado de referência de Nova York, empurrado por fatores geoestratégicos em torno da crescente instabilidade que se verifica no Oriente Médio com os últimos acontecimentos no Irã e no Iraque, sentimento que se estendeu na terça-feira como um rastro de pólvora quando se soube que o governo Bush havia decidido fechar por dois dias (até a quarta) suas delegações diplomáticas na Arábia Saudita, após receber ameaças "credíveis" sobre possíveis atentados terroristas contra interesses americanos.

As crescentes incertezas em torno das relações entre o Ocidente e os países citados --três dos cinco maiores exportadores de petróleo do mundo-- coincidem com fatores técnicos que tensionam os mercados há vários meses, como a forte demanda que não cede apesar de os preços terem dobrado desde o final de 2003 e a insuficiente capacidade da indústria de refino, especialmente nos Estados Unidos.

Sem necessidade de sabotar as instalações iraquianas, como vêm fazendo desde meados de 2003, os terroristas que protagonizaram a guerra contra os Estados Unidos e seus interesses ocidentais em todo o mundo conseguiram na terça-feira provocar uma forte alta das cotações do cru, enquanto Washington informava sobre o fechamento de sua embaixada na capital saudita, Riad, e seus consulados em Jedá e Dahran durante os dias de terça e quarta, devido a uma "ameaça" contra os edifícios representativos do país presidido por George W. Bush.

Essas ameaças ocorrem apenas uma semana depois que a morte do rei Fahd voltou a deixar claros os frágeis fundamentos do país que contém um quarto das reservas mundiais de petróleo, e a ausência de líderes saudáveis e relativamente jovens na família real.

A Arábia Saudita, com uma produção em torno de 9,5 milhões de barris diários, é o maior produtor e exportador de petróleo do mundo, e praticamente o único que ainda pode aumentar sua produção para satisfazer a demanda (embora os crus adicionais de que dispõe sejam muito pesados e difíceis de refinar, e por isso são vendidos com um desconto superior a US$ 10 por barril).

No fechamento desta edição, o cru leve de referência nos Estados Unidos --o mais caro porque é mais fácil de refinar e transformar em combustível-- chegou a custar US$ 63,90, US$ 1,6 a mais que no fechamento da última sexta-feira, o que representa seu preço nominal mais alto desde 1983.

Em Londres, o barril de Brent para entrega em setembro subiu para US$ 62,65, 1,9% a mais que na sexta-feira. Em ambos os casos foram batidos os preços máximos históricos nominais registrados em 3 de agosto passado, devido à troca de octogenários no trono saudita e apesar de o rei Fahd não governar de fato desde 1995, quando sofreu um derrame cerebral.

A diferença entre preços reais e nominais não é insignificante, já que permite comparar as cotações atuais com as registradas no primeiro (1973-74) e no segundo (1979-1981) choques do petróleo.

Neste ano, o barril de cru leve de referência nos Estados Unidos teve um preço médio de quase US$ 53 (28% a mais que em 2004) e o Brent, US$ 51,85, 36% a mais que durante o exercício anterior. Esses preços, assim como o dos combustíveis, são nominais.

Em termos reais, descontando os efeitos da inflação e da perda de poder aquisitivo do dólar, as cotações atuais se situam acima dos níveis alcançados durante o embargo árabe entre 1973 e 1974 (US$ 11,60 nominais; US$ 44,55 em dólares de 2004), mas abaixo dos máximos históricos alcançados durante a revolução no Irã em 1979 (US$ 30 nominais; US$ 78,50 de 2004) e o início da guerra entre Iraque e Irã em 1980 (US$ 35,70 nominais, que são equivalentes a US$ 82,15 do ano passado).

"Estamos preocupados com a possibilidade de interrupções no abastecimento. Estamos em um momento de fraqueza na atual mudança de governo saudita. E isso pode representar uma oportunidade para se confrontar a estrutura política saudita", explicou à agência Bloomberg o vice-presidente da empresa comercializadora de petróleo Advest.

"O impulso vem das inquietações sobre a segurança no Oriente Médio, mas também do mercado de combustíveis", resumiu Kevin Norris, analista do Barclays Bank.

Diante desse panorama, não é de estranhar o progressivo retorno dos especuladores aos mercados de energia, sobretudo depois de terça-feira, quando o novo poder iraniano retomou suas atividades nucleares em suas instalações de enriquecimento de urânio de Isfahan, reabrindo uma frente de conflito direto com os Estados Unidos e Israel.

Enquanto isso, as refinarias americanas reduziram sua produção por problemas de manutenção e o galão (3,78 litros) de gasolina alcança nos Estados Unidos o preço recorde de US$ 2,339. Fechamento da embaixada saudita dos EUA eleva o cru para US$ 64 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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