Entre o rap e o "corrupsamba" - artistas põem a turbulência política na música

Bernardo Gutierrez
No Rio de Janeiro

O transistor ruge entre a confusão do dial. Ruído de fundo, mudança de rede, tambores repentinos, uma voz que vai clareando entre o suingue inconfundível do samba. Pandeiro, triângulo, tambor. E uma voz que, agora sim, inunda o botequim centenário do Rio de Janeiro: "Há ladrões lá no Congresso e na fila da padaria, ladrão que rouba de noite e ladrão que rouba de dia".

Um bêbado tilinta suas moedas na mesa. Um coro de fundo de bar completa a mensagem do samba-corrupção de Bezerra da Silva. Novo ruído, confusão, o dial se perde, já voltou, esse suingue inconfundível.

Quando a corrupção ataca, o humor brasileiro explode. E justamente por isso Bezerra da Silva, o sambandido número 1, reinventor do gênero em clave picaresca, está de volta. Morreu em meados de janeiro. Mas renasce a cada dia em rádios ruidosos nos populares bares de esquina, verdadeiros termômetros culturais do Brasil.

As letras sarcásticas e críticas de Bezerra não só se apoderaram novamente das ondas como dos jornais e dos blogs. Seu samba era crítico, samba-denúncia, samba-humor: "Se anda despreocupado, você é roubado/ e se vota para deputado, você é roubado".

A voz de Bezerra soava e soa assim, direta, sincera, politicamente incorreta, cética, nítida, caipirinho-trágica. E talvez aí resida sua cativante magia: em seus mísseis corrosivos, em seus dardos críticos voando no samba.

Não é por acaso que os leitores do jornal "O Globo" elegeram "Ladrão que não acaba mais", a mítica canção de Bezerra da Silva que tocou no primeiro parágrafo, como a que melhor descreve a crise política do Brasil: "O marajá só anda engravatado. Não trabalha, não faz nada. Mas sempre está endinheirado".

Subconsciente coletivo

Bezerra da Silva --malandro, brigão, caipirilunático-- morreu aos 77 anos em 17 de janeiro passado. Despediu-se como um herói, às portas do carnaval, deixando um riquíssimo legado retro-visionário: "Quando Cabral chegou e semeou sua má semente/ roubaram o ouro, roubaram os troncos/ roubaram até o couro".

Mas o que tem a música desse sambandido que atrai todas as gerações e classes sociais? É isso: samba em estado puro, frescor, sinceridade, diversão, humor fermentado, percussão irreverente. E talvez por isso Bezerra tenha captado o subconsciente coletivo do povo e cativado jovens como os roqueiros da banda O Rappa e o rapeiro Marcelo D2, compungidos em seu enterro.

Salvando as distâncias formais, a música de Bezerra da Silva é puro rap, aguaceiros críticos. E o hip-hop de Marcelo D2 tem o inconfundível suingue do samba marginal. De fato, ele mesmo define sua música como samba-rap.

Correm maus tempos para a lírica político-social, porém. E a existência dos dois Brasis é mais patente que nunca. O que ocorre é que o dilema não fica nos opostos clássicos: ricos e pobres, brancos e negros, corruptos ou não corruptos. Transfere-se para o cultural. Ou cavalgamos no lado selvagem da vida-cultura ou em uma densa maquiagem de produtos de importação.

De um lado está o banal, o pop, o descomprometido, a bossa nova de letra fácil. Do outro está o som tribal, o rock bastardo, a heavy-crítica distorcida, o rap versado da periferia, o samba que nasceu nos subúrbios, os bailes funk das favelas.

O periférico está na moda. A favela é "cool". Os jovens "bem" da praia de Ipanema dançam insolentes hinos lúmpen: funk sujo, samba translúcido, rap escuro-vicioso. O que é mais chocante é que os grupos se confundem.

A criação sem reboco da periferia se instalou na classe executiva da boemia. Marcelo D2, rapeiro branco de coração negro, resume à sua maneira em sua canção "A maldição do samba": "Apartamento em Ipanema/ uma vida boa/ se entrasse no esquema/ mas eu busco na raiz/ não é um saco de dinheiro que me faz feliz".

E é precisamente Marcelo D2 o grande ícone cultural do momento. O segundo álbum de sua carreira, "À procura da batida perfeita", apareceu no final de 2003 sem prever grandes vôos. Mas continha uma tal dose de provocação que a explosão foi inevitável. Marcelo cometeu uma ousadia quase inédita: misturar samba e rap, destruindo seus respectivos dogmas.

Em seu disco, o artista sampleou sem complexos peças do mítico violonista da bossa nova Luiz Bonfá, do mestre do samba Paulinho da Viola, de Tom Jobim, Baden Powell, João Gilberto e até do próprio Bezerra da Silva. E os vestiu ou fantasiou com a roupagem sonora do novo milênio.

Agora D2 prossegue incontível. Em 2004 foi o rei dos prêmios MTV Brasil. O rei do rádio, dos discos de ouro, dos shows para multidões. E continua na crista da onda. Escândalos mostram atualidade de Bezerra da Silva a Marcelo D2 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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