Berlim é uma cidade que não sabe o que quer ser

Marc Bassets
Em Berlim

Em novembro de 2002, Janine F., uma artista plástica de 24 anos, atirou-se do quinto andar do Tacheles, um conjunto de armazéns abandonados da antiga Berlim Oriental que, desde a queda do Muro, foram ocupados por artistas. Ao ver o corpo no chão, os turistas que passeavam pela região acreditaram que se tratava de uma performance e tiraram fotografias, segundo explicou na época a imprensa local.

O sórdido acontecimento, que inspirou o documentário alemão "Janine F.", apresentado na última Berlinale, é uma desgraça pessoal e nada mais. Mas o fato de os passantes terem acreditado ver ali uma obra de arte diz algo sobre a relação de certa arte contemporânea com seu público: era totalmente verossímil que aquele cadáver fosse uma obra de arte.

Um mal-entendido semelhante é ainda mais verossímil em Berlim, cidade que hoje muitos consideram uma das mecas da arte vanguardista na Europa.

Essa cidade, cenário de quase todos os dramas do século 20, é um ímã para o mais novo, o mais arriscado, o mais ousado..., a ponto de que alguns crêem presenciar um renascer da Berlim dos anos 20, a de George Grosz, da Bauhaus, de Christopher Isherwood, do cabaré e Bertolt Brecht.

A Berlim de hoje, é claro, pouco tem a ver com tudo aquilo. Mas talvez reste algo: o desejo de experimentar, uma fauna noturna exuberante e a liberdade mais absoluta. É o vale-tudo, dirão alguns, e é verdade. Aqui ninguém pergunta a ninguém por que anda pela rua de chinelos, sem camisa ou vestido com um traje sadomasoquista.

O velho editor Wolf Jobst Siedler, berlinense de pura cepa, gosta de lembrar que uma vez apostou que podia passear pela Kurfürstendamm, outrora comparada com os Champs-Elysées da capital francesa, e não encontrar ninguém usando gravata.

Pelas ruas de Berlim é difícil encontrar homens engravatados (e yuppies com pastas e pedestres apressados). Mas seria um erro pensar que o novo impôs sua ditadura.

Existe uma tensão permanente entre o velho e o novo. Ou melhor: entre um passado que ficou em ruínas em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial; outro passado, o comunista, que dividiu a cidade e brincou com a idéia de criar a cidade ideal para o homem novo, e o presente de uma cidade reunificada que busca sua identidade e não consegue encontrá-la.

Neste verão, a tensão entre os diversos passados de Berlim e seu futuro incerto é encenada no antigo centro de Berlim, em um edifício que divide os habitantes: o Palácio da República, sede do Parlamento da extinta Alemanha Oriental, situado na avenida Unter der Linden, no antigo centro da cidade, diante da catedral. Doente de amianto, sujo e depredado, esse edifício erguido em 1976, emblemático da arquitetura socialista da época, está prestes a ser derrubado.

Como despedida, um grupo de artistas instalou Der Berg (a montanha), uma instalação que permite visitar por dentro, até esta quarta-feira (24), o edifício que além do Parlamento fantoche da República Democrática Alemã abrigou uma espécie de casa do povo, com bares, restaurante e sala de concertos.

Der Berg é isso, uma montanha de plástico branco dentro do Palácio da República. Enquanto o visitante passeia, encontra instalações e uma exposição na qual vários arquitetos apresentam propostas para substituir o edifício.

Como ocorre às vezes com a arte contemporânea, Der Berg precisa de explicações para fazer sentido. Com freqüência, também, o debate acaba sendo o tema da obra. Aqui o debate é o que fazer com o Palácio da República.

Alguns habitantes são contrários a sua destruição porque vêem no palácio um símbolo da Alemanha Oriental, uma parte da história que não deve ser apagada. Outros, entre eles o Parlamento federal alemão, querem reconstruir em seu lugar o palácio real dos Hohenzollern, que reinaram na Alemanha até 1918.

Depois de mais de três séculos em pé, em 1945 o palácio ficou em ruínas. Quando os vencedores dividiram Berlim, coube ao setor soviético. Em 1950, as autoridades comunistas derrubaram os restos do palácio real. Mais tarde construíram no mesmo lugar o Palácio da República, no que pretendia ser um símbolo da passagem do poder feudal ao poder popular.

Os responsáveis por Der Berg, financiado com verbas públicas, se situam no meio e propõem uma reflexão sobre esse lugar de forte carga emocional.
O problema, para os que querem reconstruir o palácio desaparecido, é que não há dinheiro público para financiá-lo.

Acusados de sentir nostalgia da Prússia ou de querer disneylandizar Berlim, seus promotores se defendem dizendo que o palácio real é imprescindível para recompor a perspectiva original da Unter der Linden, para devolver ao centro de Berlim a coerência urbanística que a guerra e o comunismo romperam.

A idéia de construir um edifício antigo pode parecer extravagante, mas na Berlim reunificada não é tanto. Quando caiu o muro, os arquitetos e urbanistas mais vanguardistas pensaram que era sua oportunidade: uma cidade por fazer, onde poderiam experimentar sem obstáculos.

Hans Stimmann --um desses homens que, sem ser demasiado conhecido, tem mais influência que muitos políticos de primeira linha-- os conteve. Urbanista chefe da capital alemã, Stimmann impôs normas estritas a quem quisesse participar da construção da nova Berlim. Entre outras, respeitar na medida do possível o traçado de ruas anterior à guerra.

A recuperação da cidade original levou, assim, à reconstrução de edifícios que já não existiam, como o antigo comando militar, de 1873, onde hoje se encontra a sede berlinense da multinacional Bertelsmann.

Assim, a suposta cidade da vanguarda arquitetônica e artística não o é tanto. Também é a cidade da arte figurativa, de artistas como o pujante Norbert Bisky, nascido em 1970, que pinta meninos loiros que parecem saídos de um cartaz de propaganda nazista ou comunista. É também a cidade que recupera a arquitetura anterior à guerra.

Fetichismo da pedra antiga?

Neste caso não, porque se for reconstruído o palácio real será totalmente novo. E não há também fetichismo no desejo de conservar ruínas como o Palácio da República?

Talvez todo o problema seja que Berlim ainda não sabe o que quer ser quando crescer. E não há dúvida de que isso faz parte de seu encanto. Ser referência cultural mundial ou "apenas" a capital da Alemanha? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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