Caos de Nova Orleans chega à campanha alemã

Marc Bassets
em Berlim

O chanceler alemão, o social-democrata Gerhard Schröder, introduziu na campanha para as eleições do próximo dia 18 a catástrofe de Nova Orleans e suas repercussões nos preços do petróleo e na política ambiental.

No último debate parlamentar desta legislatura, no qual defendeu seu legado diante da candidata conservadora, Angela Merkel (CDU/CSU), Schröder sugeriu que se analisem as conseqüências do furacão Katrina. Segundo o chanceler, a catástrofe de Nova Orleans demonstra a necessidade de desenvolver fontes de energia alternativas, como a solar ou a eólica.

A Alemanha, governada desde 1998 pelos social-democratas (SPD) e o Partido Verde, é um dos países mais avançados nesse sentido. Cerca de 10% da energia procedem de fontes energéticas não poluentes. O governo vermelho e verde também iniciou um processo para abandonar progressivamente a energia nuclear, até 2020.

"Uma política que nos afaste da dependência do petróleo é urgentemente necessária", declarou Schröder nesta quinta-feira (8/9) ao Parlamento Federal. Ele também atacou duramente as empresas que aproveitam o aumento de preços, resultado do furacão Katrina, para aumentar seus lucros, uma atitude que "não tem nada a ver com ética nem com a moral industrial". Schröder dedicou quase um quarto de sua intervenção à energia e ao meio ambiente.

Angela Merkel, favorita para suceder Schröder, propõe manter a energia nuclear, assim como reduzir o imposto ecológico que incide sobre o consumo de energia. Os democrata-cristãos atribuem aos social-democratas, mas sobretudo a seus parceiros de coalizão, os verdes, uma política ideológica afastada das leis de mercado.

No fundo do debate está o Protocolo de Kioto, destinado a reduzir os gases poluentes, que os EUA não querem assinar. Mas Schröder não pronunciou a palavra Kioto na quinta-feira. Seu ministro do Meio Ambiente, o eco-pacifista Jürgen Trittin, já o havia feito na semana passada.

Em um artigo publicado no jornal "Frankfurter Rundschau", Trittin escreveu que "o presidente americano fecha os olhos diante dos danos causados a seu país e à economia por desastres naturais como o Katrina, devido a omissões na política ambiental".

Dias depois Trittin explicou que ao publicar o artigo ninguém ainda estava ciente dos danos que o furacão havia causado, mas choveram acusações de antiamericanismo contra ele.

Nesta quinta, no Parlamento Federal, Merkel, com freqüência acusada do contrário, de ser incapaz de criticar a política de George W. Bush, comprometeu-se a tentar convencer os EUA a aprovar o Protocolo de Kioto.

Embora em nenhum momento da campanha, centrada na estagnação econômica e no desemprego maciço, a energia e o meio ambiente tenham tido um papel relevante, é um assunto prioritário para muitos alemães. E é um dos que mais separaram a centro-esquerda, hoje no poder, da centro-direita.

Desde a semana passada, quando o preço da gasolina aumentou depois do furacão no sul dos EUA, as questões energéticas e ambientais ganharam força na campanha. Na última sexta-feira a Alemanha participou de uma ação coordenada com 26 países para liberar reservas de petróleo e fornecê-las aos EUA.

No último domingo, no debate pela televisão com Merkel, Schröder dedicou vários minutos ao preço da gasolina. E lançou um argumento que pode lhe ser útil nesta campanha eleitoral, na qual os social-democratas acusam os democrata-cristãos de querer abolir o modelo social europeu: a catástrofe de Nova Orleans, disse o chanceler, é prova da necessidade de um Estado forte.

Avanço nas pesquisas

A reta final da campanha eleitoral pode ser mais apertada do que se esperava. Poucos duvidam de que os democrata-cristãos de Merkel obterão mais votos que os social-democratas de Schröder. Mas talvez não possam se aliar, como desejam, ao pequeno Partido Liberal e tenham de formar uma grande coalizão com o SPD, o que impediria Merkel de implementar grande parte de suas reformas econômicas.

Uma pesquisa publicada na quinta-feira pelo instituto Forsa apontou um crescimento do SPD, que passaria de 31% dos votos para 34%. A CDU/CSU de Merkel baixaria de 43% para 42%. A recuperação do chanceler é atribuída a sua atuação no único debate televisivo com a adversária, no domingo passado.

Segundo a maioria dos cerca de 21 milhões de alemães que assistiram ao debate, Schröder foi claramente superior a Merkel. Esta agüentou o tranco, mas o chanceler, hábil diante das câmeras, foi mais convincente.

Manfred Güllner, diretor do Forsa, explicou que a subida de Schröder se deu porque no debate ele convenceu uma parte dos eleitores social-democratas que, devido à política de cortes sociais do chanceler, ainda estava indecisa.

E essa pesquisa reflete uma mudança de tendência?

Schröder acredita que sim, e ontem disse que pretende chegar a 38%, como nas eleições de 2002. Güllner crê que ele se manterá em torno de 34%. "É altamente improvável que o SPD seja o partido mais votado", disse. "Se não houver algum fato interno, como ocorreu em Madri, o que não desejo, isso não mudará", acrescentou. Schröder cita furacão Katrina para defender sua política ambiental Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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