Democratas encurralam Bush depois da tragédia

X. Mas de Xaxas
Em Washington

O Katrina ofereceu à oposição democrata a oportunidade que esperava para minar a base política do presidente George W. Bush. Obrigados a conter suas opiniões sobre a guerra no Iraque para não prejudicar o moral das tropas nem dar argumentos à rebeldia, os congressistas democratas utilizaram a má gestão da Casa Branca em Nova Orleans para lançar uma grande ofensiva.

Harry Reid, líder da minoria democrata no Senado, se pergunta: "Quanto tempo o presidente passou tratando da crise enquanto estava de férias?"

Essa pergunta é chave, e de sua resposta depende grande parte do mandato que resta a Bush na Casa Branca. Se os democratas conseguirem demonstrar que a falta de liderança na primeira semana da crise foi culpa de Bush, ele será até 2008 o mais manco dos "patos mancos", como são chamados os presidentes sem poder efetivo.

Poucas coisas os americanos perdoam menos que a falta de liderança em momentos de crise. Por isso Bush conseguiu tanto apoio quando falou do ponto zero de Nova York dois dias depois do 11 de Setembro, e por isso está perdendo simpatias agora.

O presidente, que demorou quase uma semana para visitar a região devastada, conta com o apoio de somente 41% da população, uma baixa pontuação histórica, segundo uma pesquisa da Zogby. Recuperar esse apoio é tão urgente que Bush enviou ontem o vice-presidente Cheney para a Louisiana.

Cheney, que estava há várias semanas sem aparecer em público --o que havia voltado a levantar suspeitas sobre sua saúde--, passou o dia apagando incêndios políticos e declarando que "estamos fazendo progressos significativos".

As imagens de televisão, porém, continuam mostrando o que ninguém pensava que poderia ocorrer em uma grande capital americana: cadáveres apodrecendo nas ruas alagadas de Nova Orleans, sem que ninguém tenha se preocupado até agora em retirá-los. O Corpo de Engenheiros do exército, que conseguiu reparar 10% das estações de bombeamento de água da cidade, teme que os corpos sejam sugados pelas bombas.

O estado de ânimo que essas situações provocam na opinião pública é aproveitado pelos democratas mais ambiciosos. A senadora Hillary Clinton, por exemplo, uma das aspirantes à presidência, atacou com firmeza Bush por ter escolhido Michael Brown, um homem na sua opinião sem experiência alguma, para dirigir a Fema, a agência federal encarregada de administrar as catástrofes naturais.

Nancy Pelosi, líder dos democratas na Câmara dos Deputados, afirma que juntamente com o desastre natural na semana passada houve outro humano, provocado pelos erros da Fema.

A Fema e as autoridades locais mantiveram o controle nos dias anteriores e posteriores à passagem do furacão sobre como se deveriam atender os cidadãos de Nova Orleans. A democracia local, um dos grandes orgulhos do sistema político americano, foi incapaz de fazer o governo federal compreender a dramaticidade da situação, e o governo falhou estrepitosamente, segundo reconheceu o próprio presidente Bush.

Uma comissão parlamentar dominada pelos republicanos será encarregada de averiguar o que aconteceu. A investigação, que terminará em 15 de fevereiro, é a primeira realizada pelas duas câmaras do Congresso de forma conjunta desde o escândalo da venda de armas ao Irã para financiar a luta ilegal contra o regime sandinista na Nicarágua, nos anos 80.

A iniciativa conta com o apoio de Dennis Hastert, presidente da Câmara dos Deputados, e de Bill Frist, líder da maioria republicana no Senado.

Mas os democratas consideram que essa comissão, dirigida por um Congresso republicano e efetuada sob uma administração republicana, de nada servirá. Em seu lugar pedem a formação de uma comissão independente semelhante à do 11 de Setembro.

A Casa Branca, que fará uma investigação por conta própria, assim como a Fema, considera que não é hora de buscar culpados e de utilizar a catástrofe com fins partidários, mas de trabalhar para solucionar os problemas dos desabrigados.

Para enfrentar os custos de seu atendimento e da reconstrução, as duas casas do Congresso aprovaram nesta sexta-feira (9/9) os US$ 51,8 bilhões que Bush havia solicitado, o que eleva o custo do resgate e das indenizações a US$ 62,3 bilhões.

Tudo indica, porém, que o custo final chegará aos US$ 200 bilhões. A Fema, por exemplo, está gastando mais de US$ 2 bilhões por dia fechando contratos para construir novas residências para os desabrigados.

O governo tenta conter dessa forma as duras críticas, não só democratas como também dos meios de comunicação, que comparam o abandono da população vulnerável de Nova Orleans ao abandono de feridos em um campo de batalha.

O jornal "The New Orleans Times-Picayune" publicou uma carta aberta a Bush afirmando que "nossa população merecia um resgate. Para vergonha do governo, muitos dos que poderiam ter sido resgatados não o foram".

O presidente Bush, consciente de que seu mandato depende em grande parte das decisões que ele adotar nas próximas semanas, limpou sua agenda para o restante do mês para se dedicar ao Katrina.

Por enquanto fica estacionada a agenda legislativa para este outono, que se concentrava em uma nova redução de impostos sobre lucros de capital (que beneficia os mais ricos) e um corte nos subsídios de saúde para os mais pobres, duas medidas muito impopulares, especialmente em estados pobres como Louisiana e Mississipi. Comissão do Congresso vai analisar a resposta ao furacão Katrina Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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