Direita da França atribui distúrbios à poligamia

Lluis Uria
Em Paris

As explicações de fundo sobre as causas da onda de violência nos bairros periféricos das cidades francesas --fracasso escolar, desemprego, discriminação, crise de identidade-- deram lugar a outras mais específicas, ou mesmo anedóticas. Um ministro e dois deputados da UMP vincularam os distúrbios à poligamia.

A persistência da poligamia na França, uma prática proibida legalmente mas muito difundida em certos grupos de imigrantes, passou a ocupar o centro do debate político sobre as causas que contribuíram para a explosão social nos bairros periféricos das aglomerações urbanas.

O ministro do Emprego, Gérard Larcher, foi quem levantou a bandeira em declarações polêmicas ao jornal britânico "Financial Times", nas quais atribuiu à poligamia, e à conseqüente perda de um referencial paterno forte, o "comportamento anti-social" de muitos jovens de origem imigrante e a coloca, por extensão, como "uma das causas" dos distúrbios das duas últimas semanas nas periferias de todo o país.
A idéia foi apoiada depois pelo chefe do grupo parlamentar da UMP, de direita --o partido no governo-- na Assembléia Nacional, Bernard Accoyer, que considerou que a poligamia é "seguramente uma das causas" da onda de violência nos bairros pobres e lamentou o "relaxamento" das autoridades na hora de combater essa prática, especialmente dos governos socialistas.

Outro deputado da UMP, o prefeito de Chanteloupes-Vignes, uma cidade nos arredores de Paris, declarou por sua vez que os jovens delinqüentes mais difíceis em seu município vêm "com freqüência de famílias polígamas".

A direita está começando a cultivar uma opinião nesse sentido. O jornal "Libération" reproduziu declarações feitas pela historiadora e acadêmica Helène Carrère d'Encausse à rede russa de televisão NTV, em que expôs com grande clareza esse mesmo ponto de vista: "Todo mundo se admira: por que os meninos africanos estão na rua e não na escola? Por que seus pais não podem comprar um apartamento? É claro por quê: muitos desses africanos são polígamos".

A proliferação desses comentários coincide com a constatação de que os protagonistas dos distúrbios nas últimas jornadas foram cada vez mais jovens negros --autodenominados Blacks-- e menos jovens de origem norte-africana --os Beurs.

Os partidos de esquerda e ecologistas criticaram imediatamente essas opiniões, que consideraram no melhor dos casos infundadas e no pior, racistas. Manuel Valls, o dirigente socialista e prefeito de Evry, salientou que a poligamia é minoritária e acrescentou que "dar a entender que os problemas atuais das periferias estão diretamente ligados à poligamia é insuportável". Mas até a centrista UDF, pela boca do deputado Jean-Christophe Lagarde, considerou semelhante interpretação um "absurdo".

A preocupação com a persistência da poligamia não é nova. De entrada, tem --ou tinha-- uma repercussão direta no fluxo de imigrantes que entrava no país pela via do reagrupamento familiar. E também inclui graves problemas em termos de moradia, basicamente de superlotação.

A poligamia é punida na França com penas de até um ano de prisão e multa de 45 mil euros. Mas na prática persiste certa tolerância e não impede que haja no país entre 20 mil e 30 mil famílias polígamas, sobretudo procedentes de Mali, Mauritânia, Senegal e Gâmbia.

Até 1993, houve uma total permissividade diante desse fenômeno, ao se permitir a entrada, pela via do reagrupamento familiar, de todas as esposas que fossem legais no país de origem.

A Lei Pasqua terminou com isso, ao proibir o reagrupamento nesses casos e negar a concessão ou renovação do visto de residência aos polígamos. Paralelamente, as autoridades e determinadas associações promovem a chamada "descoabitação" --a separação das esposas--, mas esse processo enfrenta a escassez de moradias sociais.

A polêmica sobre a poligamia coincide com a intenção do governo de endurecer as condições legais do reagrupamento familiar, com o fim de conter o principal fluxo de entrada de imigrantes.

Enquanto cresce o debate político, a violência diminui. A noite da última terça-feira (15/11) registrou um novo decréscimo no número de incidentes, com um total de 163 veículos incendiados (27 na região de Paris) e 50 pessoas detidas. Apesar disso, o governo mantém o estado de urgência, cuja prorrogação por três meses foi aprovada pelo Senado. Cerca de 2 mil pessoas se manifestaram na quinta-feira (17) no centro de Paris em protesto pela manutenção das medidas de exceção.

Sarkozy sobe

A evolução da crise está começando a favorecer politicamente o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, cuja imagem parecia bastante prejudicada nas pesquisas realizadas nos primeiros dias da onda de violência. Uma nova pesquisa, o barômetro mensal realizado pelo instituto Ipsos em 12 de novembro para o semanário "Le Point", constata uma subida espetacular do ministro do Interior.

Segundo essa nova pesquisa, Sarkozy sobe nada menos que 11 pontos na aprovação dos franceses, chegando a 68%. Isso também ocorre, embora em menor medida, com o primeiro-ministro Dominique de Villepin, que sobe 7 pontos (para 62%), e o presidente Jacques Chirac, que sobe 6 pontos, mas se mantém na zona de suspensão, com 54% de opiniões negativas (a pesquisa foi feita antes de sua mensagem televisiva).

Sarkozy se beneficia de um notável apoio do eleitorado socialista (40%, assim como Villepin) e quase total (90%) da extrema-direita. Há cerca de 30 mil famílias polígamas, apesar da proibição legal Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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