Amazônia quer seduzir indústria cinematográfica

Marta Ricart
Em Manaus

A Amazônia não se conforma com seu desflorestamento. No Estado do Amazonas, o maior do Brasil e que abriga um terço da selva amazônica, novas atividades e políticas pretendem um desenvolvimento econômico e social que não destrua a riqueza natural. A última tábua de salvação pretende ser o cinema. A imaginação se impõe nos setores público e privado.

A selva amazônica fica em má situação no binômio entre desenvolvimento (que inclui crescimento urbano, infra-estruturas, indústrias) e preservação ambiental. O desflorestamento (a substituição da floresta por plantações, pastos, infra-estruturas...) e a derrubada ilegal devoram a selva. Em 2004 foram desmatados 26.130 quilômetros quadrados de selva, 6% a mais que em 2003.

Nos últimos anos, aumentou a conscientização para o problema. O desenvolvimento com respeito ao meio ambiente é um dos desafios que se colocou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e também o do estado do Amazonas, dirigido por Eduardo Braga (de outro partido).

A promoção da região de Manaus, capital do Amazonas, como pólo da indústria cinematográfica é uma dessas iniciativas de atividade econômica compatível com o meio ambiente nas quais se aposta. A idéia se materializou no ano passado no Festival Mundial do Filme de Aventura, que acabava de realizar sua segunda edição. Esse evento é organizado pela companhia francesa Le Public Système Cinéma e o governo estadual, e conta com concursos de filmes e documentários (ecológicos e de animais), assim como projeções de curta-metragens e promoção de produções brasileiras.

Mas o objetivo principal é divulgar o Amazonas entre os profissionais do cinema mundial, para que vão filmar ali, explica Lionel Chouchan, produtor e organizador de festivais e um dos pais do certame. O cinema também pode ser um poderoso instrumento internacional de sensibilização para a preservação da Amazônia e de atração do turismo de aventura.

Chouchan reconhece que o pólo cinematográfico de Manaus está apenas começando, mas acredita em sua potencialidade, amparada na capacidade de sedução da Amazônia. O jovem festival já reuniu este mês um grupo significativo de diretores e atores, entre eles Roman Polanski, Claudia Cardinale, Victoria Abril e Alicia Silverstone.

Importantes produtores concordaram com que a selva amazônica pode ser um lugar perfeito para rodar, apesar de explicar que não basta ter paisagens espetaculares, mas que é preciso histórias interessantes e facilidades de produção. Eles as consideram possíveis no Amazonas, embora seja uma área distante até para a indústria cinematográfica brasileira, que se concentra na costa atlântica.

O governo do Amazonas aposta no cinema, assim como favorece a indústria eletrônica e iniciativas privadas para promover o ecoturismo --nesse âmbito já desembarcaram algumas empresas espanholas--, que cresce rapidamente. Ao mesmo tempo, o governo da região se orgulha de sua política de zona franca verde.

"É verdade que o índice de desflorestamento é elevado e crescente, mas não é igual em toda a Amazônia. Em nosso estado reduzimos o desmatamento em 39% de 2003 para 2004 --de 1.734 quilômetros quadrados para 1.054-- e além disso só afeta 2% de nossa selva", explica Virgílio Maurício Viana, secretário do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável do estado do Amazonas.

O governo defende que sua política florestal inclua medidas ambientais e de desenvolvimento étnico, ajuda às atividades econômicas das comunidades indígenas --existem 63 no Estado.

"A destruição da selva obedece a razões econômicas, e por isso não bastam políticas ecológicas. É preciso oferecer alternativas de vida compatíveis", afirma Viana, que foi professor de ciências florestais na Universidade de São Paulo até que chegou à Secretaria do Meio Ambiente dois anos atrás --cargo que não existia antes, explica.

Entre as políticas florestais está a madeira de selo verde, um certificado voluntário obtido pelas empresas que exploram o comércio de madeira com boas práticas ambientais e voltadas para a comunidade. Ele se destina a conter o desmatamento ilegal.

Miguel Ángel Soto, responsável por campanhas florestais do Greenpeace, salienta que a derrubada ilegal é uma das maiores causas de devastação da selva, e por isso o selo verde, equivalente ao comércio justo em outros produtos, é um passo na direção certa.

O Greenpeace estima que pelo menos 60% da madeira exportada pelo Brasil é cortada ilegalmente. Mas também põe a culpa nos que importam na Europa essa madeira sem selo verde. A ONG realizou em outubro um ato em Madri para denunciar que a ampliação do Museu Rainha Sofia foi feita com madeira jatobá procedente de três empresas do estado brasileiro do Pará envolvidas em corte ilegal. Soto afirma que no Amazonas também existe corte ilegal.

Outra política para reduzir esse problema é promover os produtos florestais não-madeireiros, de frutos até fibras vegetais, que os indígenas costumam explorar. Também se promovem negócios como a piscicultura.

Todas essas atividades sustentáveis têm incentivos fiscais ou contam com ajuda estatal. Viana salienta que o desafio agora é conseguir que a União Européia diminua os impostos de importação de produtos não-madeireiros do Brasil, para permitir que essas atividades alternativas sejam mais competitivas.

O secretário lamenta que a ajuda internacional para proteger a Amazônia seja reduzida --diz que é quase inexistente por parte da Espanha. Uma idéia é que as multinacionais adotem áreas protegidas para contribuir para sua conservação.

De todo modo, o Brasil tem uma luta mais ampla nos organismos internacionais: quer que dentro das políticas do protocolo de Kioto de redução de gases poluentes se inclua uma compensação pelo serviço ambiental que é prestado pela selva amazônica, "já que é a principal fonte de recursos de água e oxigênio do planeta", diz Viana.
Não é a única batalha internacional.

A Amazônia contém a metade das espécies de fauna e flora do planeta. É uma fonte incessante para a indústria farmacêutica, que se alimenta gratuitamente de suas plantas e dos remédios da tradição milenar indígena.

Autoridades e a ONG pedem até agora sem êxito que as leis mundiais de patentes farmacêuticas reconheçam e recompensem a propriedade intelectual dessa sabedoria indígena. "É uma briga dura porque há muitos interesses econômicos, mas não nos rendemos", assegura Viana.

Mais espaços protegidos

O Amazonas está aumentando os espaços protegidos, sobretudo nas zonas mais ameaçadas, nas fronteiras com os estados de Mato Grosso e Rondônia, onde cresce o desmatamento. Em dois anos passou de 7,4 milhões de hectares protegidos para mais do dobro. Tem 28 reservas, oito delas integrais, onde a única atividade permitida é o ecoturismo. Novas atividades e políticas buscam o desenvolvimento compatível com a preservação do pulmão do planeta A última iniciativa é aproveitar a sedução da selva para atrair o cinema Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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