"Tento entender o terrorista", diz Salman Rushdie

Xavi Ayén
Em Barcelona

Salman Rushdie já não é o escritor mais procurado do planeta, mas sim um dos mais lidos. Há sete anos foi abolida a "fatwa" [condenação] que pesava sobre suas costas, e nesse tempo o escritor redescobriu "os prazeres do dia-a-dia, como passear ou ir a um jogo de futebol" (como nesta quarta-feira, no campo do Barça, sem ir mais longe).

Seu último romance, "Shalimar o Palhaço", recém-lançado pela Mondadori (a edição em catalão pela Magrana está em fase final), conta a história de Shalimar, um motorista indiano que trabalha para um diplomata ocidental que acabará assassinando. O terrorismo islâmico, a política internacional das grandes potências e o amor nos tempos do ódio são alguns temas que sobrevoam a obra.

La Vanguardia - Existiu algum dia uma Caxemira tão feliz como a do início do livro?

Salman Rushdie -
É a que eu conheci! Era a Caxemira dos meus avós. Quando menino, embora vivesse com meus pais em Bombaim, sempre passávamos dois meses por ano lá. Era um lugar belíssimo, e muita gente da Índia toda escapa para suas montanhas no verão. Lembro do lugar com uma aura mágica. Conviviam pessoas de diferentes raças e religiões: hindus, muçulmanos e até judeus. Progressivamente, o ódio e a destruição tomaram conta da região, e sinto-me muito triste quando vejo no que se transformou. As pessoas tinham um islamismo muito tolerante. Não escolhi um tema abstrato, queria uma história verdadeira e concreta.

LV - O romance se passa na Califórnia, em Londres, na Índia, em Paris... na atualidade, durante a ocupação nazista da França e em outras épocas próximas. Ao mesmo tempo, tudo acontece através de quatro personagens. O que quis conseguir com essa trama fluida?

Rushdie -
Essa não é a história de um lugar. É uma história sobre o mundo de hoje e como as pessoas estão se movendo. Eu quis refletir como acontecem as coisas em nossa época: você vai pela rua com sua história nas costas e encontra outras pessoas que por sua vez têm suas próprias histórias, e ambos os relatos se entrecruzam, e ao mesmo tempo fala por celular com alguém que está na Índia, que por sua vez... Vivemos todos em um contexto mais amplo que antes. Meu tema é esse: a colisão de culturas, religiões, histórias, civilizações, lugares, épocas...

LV - Como o senhor vê as novas medidas contra o terrorismo islâmico na Grã-Bretanha?

Rushdie -
Poucos dias atrás em Londres foi realizada uma conferência de grupos islâmicos para falar com o governo. Isso é repugnante: voltamos a nos reunir e a participar da política atendendo a questões étnicas e religiosas, formamos coletivos de paquistaneses, indianos... Vamos abandonar o século 19! Quantos filósofos ou religiosos conservadores animaram as pessoas a se imolar em atentados suicidas? Esse é o tema. Por que até agora Blair permitiu que semelhantes discursos fossem feitos nas mesquitas britânicas? Por que seis meses antes do 11 de Setembro os EUA subvencionavam projetos educacionais dos taliban? Eu falei com pessoas do governo e elas estavam convencidas de que com essa política garantiam a integridade do território britânico, que não haveria atentados. Ocorreu o contrário. A grande maioria dos muçulmanos da diáspora, os que vivem no Ocidente, é quase na totalidade contra as práticas terroristas, são pessoas construtivas. Afirmo que não vejo ódio em qualquer esquina, está só em determinadas pessoas, muito poucas.

LV - O senhor nunca pensou "Se eu não tivesse escrito aquilo..." Nesta obra se conteve?

Rushdie -
Não. Eu escolhi o ofício de escritor. Se você não utilizar todas as suas habilidades narrativas para escrever livremente, está morto, literariamente falando. Estou muito seguro do que faço e de por que o faço. A hostilidade contra o meu trabalho vem de longe, e ainda hoje existem grupos de muçulmanos que protestam contra meu livro, mas agora é uma piada.

LV - É um romance de terrorismo ou de amor?

Rushdie -
As duas coisas. São grandes temas, não é verdade? O amor e a morte... Ao ambientar a ação na Caxemira atual, descrevo bases de treinamento de terroristas islâmicos, mas a engenharia narrativa é simples: um amor traído que gera um sentimento enorme de vingança. O livro é uma tragédia shakespeariana, e o resto é contexto. Não me atreveria a visitar pessoalmente um campo de jihadistas, mas me documentei, explico como os próprios terroristas se dividem em castas e os suicidas são a mais baixa, a ponto de os superiores os olharem por cima do ombro... Escrevi com espírito documental.

LV - Até o terrorista parece simpático. O senhor não foi bom demais?

Rushdie -
É muito fácil fazer uma caricatura de um fanático... quase tão fácil quanto se transformar em um deles. A mim me interessa refletir essa parte horrível que se aninha em todos nós, como é a vida cotidiana de um terrorista, quem são seus seres queridos, seus rasgos de humanidade, esforçar-me para compreendê-lo... Quero que as pessoas se sintam vinculadas sentimentalmente, afetivamente, a Shalimar. Que sintam carinho por ele, apesar de seu lado escuro. Que vejam que as pessoas são sempre complexas, que não vivemos em um mundo de bons e maus. Não quero personagens simples: em Dostoievski, o que menos importa é quem é o assassino, por isso começo pelo crime, mostrando tudo. Shalimar é um ser humano real. Também reflito o paradoxo de que, fazendo o mesmo que o embaixador -- resistir contra o ocupante --, ele é um terrorista e o outro, um herói. Quer dizer, não há uma opção moral de minha parte. Ao leitor não importa quem é o bom; prefere que lhe tornem compreensíveis as questões difíceis. Como escritor, não vou consertar o mundo, mas posso tratar desses temas.

LV - Não lhe falta sentido de humor: a primeira vítima de Shalimar é um romancista ateu...

Rushdie -
Não sou eu, eu estou vivo. Me baseei num escritor argelino que foi assassinado exatamente assim. O nem todos têm a sorte de ser protegidos pela polícia, como eu. Às vezes é a própria polícia que os mata.

LV - Há uma lenda urbana que diz que durante a "fatwa" o senhor morou em Barcelona. Inclusive um amigo meu afirma que o via tomando café da manhã em um bar. É verdade?

Rushdie -
(Risos) Sinto decepcioná-lo, mas nunca morei em Barcelona, embora a tenha visitado com freqüência. Existe a mesma lenda em várias outras cidades do mundo... "Meu novo livro é uma tragédia shakespeariana, de amor traído e vingança, a "jihad" é só o contexto", completa o escritor, que está lançando o romance "Shalimar o Palhaço" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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