Luxemburgo resiste no comando do Real Madrid

Carlos Novo
Em San Sebastián

Afinal é verdade que Luxemburgo tem sorte. Sob um autêntico dilúvio, num desses campos do norte onde o Real Madrid odeia jogar, a equipe do brasileiro viveu uma partida enlouquecida, na qual passou por todos os estados anímicos possíveis. Conseguiu marcar no primeiro tempo, levou gols no segundo e renasceu quando Luxemburgo já se via no guichê da Varig comprando a passagem de volta.

Um empate, pobre antes de começar, mas que teve sabor de glória.

Se a derrota deixaria o técnico brasileiro à beira do precipício, a recuperação agônica pode lhe proporcionar o passaporte para chegar ao Natal e comer o torrone. Os jogadores deixaram uma clara mensagem: estão com ele. Se Florentino pedia uma melhora da imagem para preservar o técnico, esta chegou pela via racial, algo que a equipe tinha esquecido há bastante tempo.

Os brancos jogaram com mais determinação que em outras vezes, mas mostraram como nunca a falta de Ronaldo e puderam morrer pela falta de pontaria no arremate. A Real Sociedade jogou com fogo.

Jogou no lixo o primeiro ato, mas teve a virtude de esperar com vida que chegasse seu momento. Marcou em sua única aproximação da área de Iker Casillas em todo o primeiro tempo, um pênalti que o bandeirinha inventou, um contratempo que o Real Madrid não soube compensar até sua reação final.

Talvez a chuva, apesar de tudo, fosse ontem uma aliada de Luxemburgo. Dificilmente se podia jogar embaixo da cortina de água que caiu com força assim que Undiano apitou o início. Não era um problema de gramado, pois o de Anoeta drenou com perfeição. Era todo o resto: a água que não deixava enxergar, o frio, a bola pesada...

Quando alguns jogadores querem acusar seu técnico, se percebe. Quando querem salvá-lo, também. O Madrid de Anoeta foi mais que nunca um grupo unido. Com Beckham na formação inicial, apesar de suas dores crônicas nas costas, com um duplo pivô muito valente (Sergio Ramos e Pablo García), com Zidane muito ativo, Guti de ligação e movendo-se bem entre as linhas, encurralou a Real Sociedade desde o início.

Foram os nativos que especularam. Amorrortu deixou De Paula na ponta e dedicou Nihat e Aranburu a abastecê-lo. Todos os outros foram peões defensivos. Gente que deixou o Madrid fazer. A Real não o importunou. Não o pressionou com firmeza no meio de campo, como em outros anos.

Esperou, amontoada em volta de Riesgo. Diante de adversário tão generoso, o Real Madrid teve até quatro ocasiões de gol muito claras nos primeiros 20 minutos. Todas desperdiçadas. Se com Ronaldo aproveita uma em cada três, sem sua grande estrela desaproveitou as quatro, entre elas um "mano a mano" de Robinho com o goleiro e uma cabeçada de Sérgio Ramos que o travessão devolveu.

Passada a primeira meia hora, a chuva diminuiu e a pressão branca se reduziu.

Não que a Real Sociedade tenha crescido. Simplesmente o cansaço cobrou seu preço dos galácticos. A mobilização física não é seu forte. Continuaram monopolizando a bola, mas já não jogavam em profundidade.

Voltava esse Madrid que abusa de passes horizontais, onde Zidane se afasta das zonas de perigo e a partida vai se transformando em cansaço.
Quando as duas equipes já se conformavam em ir descansar sem gols, a Real Sociedade encontrou a jogada que lhe deu vida. Uma entrada de Roberto Carlos para De Paula perto da linha de fundo, diante da surpresa geral, acabou em pênalti por indicação do bandeira. Roberto Carlos apenas havia roçado o atacante. Os brancos protestaram o quanto puderam, sem êxito.

Xabi Prieto cobrou o pênalti muito bem e adiantou para os seus.
Se alguém pensava que o Madrid sairia furioso na segunda parte, se equivocou. Foi a equipe de Amorrortu que saiu mordendo. Pressionou muito acima e encontrou o segundo gol em uma ação rápida de Nihat que De Paula arrematou.

O Madrid entrou em parafuso. A partida lhe escapava na enxurrada. Para maior tragédia, sofreu a expulsão de Ramos. Pareceu que Luxemburgo atirava a toalha quando trocou Robinho por Raúl Bravo. Florentino deve ter rangido os dentes na cabine. E com tudo perdido o Madrid renasceu nos últimos três minutos. Sem jogo e com a heróica.

Foi precisamente Raúl Bravo quem decidiu resolver a confusão e marcou o 2 a 1. A Real se desmanchou como um torrão de açúcar. Quase em seguida não acertou frear um chutaço de Zidane dentro da área e o Madrid empatou e recuperou a cor. Se a partida durasse um pouco mais, teria ganhado.

A Real traz sorte para o brasileiro. Se foi difícil ganhar em seis minutos no Bernabéu, a de domingo foi uma façanha parecida. O técnico brasileiro salvou empate em cima da hora, numa reação em que os galácticos marcaram 2 gols em menos de 5 minutos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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