Disney em tom fundamentalista

Andy Robinson
Em Nova York

A equipe formada pela Disney e o leão Aslan, metáfora de Jesus Cristo nos romances do autor e teólogo britânico C. S. Lewis, promete arrasar graças ao novo filme "As Crônicas de Nárnia" no mercado de cristãos renascidos ou fundamentalistas americanos, formado por cerca de 30 a 40 milhões de pessoas.

A produtora Disney contratou a Motive Entertainment, empresa de marketing cristã especializada em fé e família e com vínculos na rede de igrejas cristã fundamentalista, para promover o filme. A Motive já comprovou sua capacidade mobilizadora entre essa comunidade quando, contra todos os prognósticos, transformou "A Paixão de Cristo" de Mel Gibson no filme de maior bilheteria de 2004 [nos Estados Unidos].

O novo filme --que estréia na Europa e nos EUA na próxima semana-- é baseado em "O Leão, o Bruxo e o Armário", primeiro de uma série de romances de C. S. Lewis, medievalista de Oxford que foi convertido ao cristianismo por seu colega de faculdade J. R. R. Tolkien nos anos 20.

Em colaboração com a Walden Media, de Denver (Colorado), a Disney pretende somar o público de "A Paixão..." com os de outras séries cinematográficas de fantasia como "O Senhor dos Anéis", inspirado no livro de Tolkien, e "Harry Potter", nos romances de J. K. Rowling.

Assim como esses filmes, "As Crônicas de Nárnia" aborda a luta épica entre as forças do bem e do mal. "Lewis descreve um modelo de cristianismo muito primitivo, no qual as forças do mal seqüestraram a humanidade", disse Clair McPherson, reverendo da Trinity Church em Wall Street, que celebra um chamado festival Nárnia.

Isso gera grandes possibilidades de criar um público devoto entre a comunidade de cristãos fundamentalistas. Os promotores do filme estão animando pastores e pregadores a organizar suas próprias projeções antes da estréia e incluir referências ao filme em seus sermões. Mais de 150 igrejas vão projetá-lo nas próximas semanas.

Do site da web www.narniaresources.com, que apresenta o logotipo da Disney, chega-se a um outro de materiais para pastores, com uma dezena de sermões pré-escritos com base no novo filme, com recomendações da missão do tele-evangelista Billy Graham e do poderoso pastor da mega-igreja New Life Church em Colorado Springs, Ted Haggard.

"Acreditamos que Deus fala por meio desse filme", afirma Lon Alison, do Billy Graham Center. Haggard diz a seus seguidores para aproveitar a oportunidade para alcançar "outras comunidades com a história do leão que ama e se sacrifica para libertar os filhos de Adão". A empresa Christian Publishing and Outreach utiliza imagens do filme para fazer proselitismo em 20 mil igrejas nos EUA.

Cal Thomas, jornalista ligado aos cristãos fundamentalistas, anima o público a "propiciar grandes lucros para essas empresas (Disney e Walden) para que possam rodar mais filmes desse tipo".

Já se comprovou a envergadura do mercado cultural cristão nos EUA, explica Paul Lauer, diretor da Motive Entertainment. "O mercado de fé e família consome vorazmente livros e música", ele diz, referindo-se a romances da série apocalíptica "Left Behind" e a discos de ouro de grupos de hard rock cristãos. "Também vão consumir o filme. Vai ser uma mina de ouro", prevê.

O autor

Clive Staples Lewis nasceu em Belfast em 1898 e morreu no mesmo dia em que Kennedy foi assassinado. Órfão de mãe aos 10 anos, mitificou a segurança de sua infância. Seus biógrafos indicam três Lewis com públicos diferentes: o erudito de Oxford, o autor aclamado de ficção-científica e literatura infantil e o escritor popular e radiodifusor cristão durante a guerra. Especialista em literatura medieval e suas alegorias, e em Milton, ele defende a dor e o inferno como evidências de um universo ordenado.

"As Crônicas de Nárnia" conta as aventuras de quatro crianças que são transportadas de um armário para um mundo de fantasia, uma espécie de alegoria bíblica, embora Lewis insista que há vários níveis de interpretação e "só um deles é cristão".

O leão Aslan representa a união de Jesus Cristo com Deus. A bruxa branca é o anjo caído --Satã--, enquanto os quatro meninos simbolizam a humanidade. Desde 1950 foram vendidos mais de 80 milhões de exemplares desses romances. "As crônicas de Nárnia" tenta repetir o sucesso de "A Paixão de Cristo"; os cristãos renascidos dos EUA encontram no filme baseado na obra de C. S. Lewis um material de proselitismo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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