"Estive tentando fazer esse filme desde que tinha 9 anos", afirma o diretor de "King Kong"

Gabriel Ler
Em Nova York

Fisicamente ele está irreconhecível: perdeu mais de 30 quilos e não usa mais os óculos tradicionais. Mas Peter Jackson senta-se para falar com a mesma tranqüilidade de quando promovia "O Senhor dos Anéis". Tudo indica que sairá vencedor da aposta que representou recriar o clássico que o fascina desde menino.

La Vanguardia - Como conseguiu concretizar um sonho tão acalentado como criar uma nova versão de "King Kong"?

Peter Jackson -
Foi exaustivo, mas maravilhoso. Estive tentando fazer "King Kong" desde que tinha 9 anos. No dia seguinte de ver o filme original, numa sexta-feira à noite na televisão, comecei a experimentar com animação "stop-motion". No dia seguinte fiz um dinossauro de plástico e tentei animá-lo quadro a quadro. Quando tinha 12 anos tentei seriamente fazer um remake de "King Kong" com minha câmera super-8 e até fiz um modelo de Kong de argila e outro do Empire State em cartolina. Cheguei a filmar algumas cenas, mas desisti porque percebi que era um projeto ambicioso demais.

Depois tentei fazer o remake em 1996. Escrevi o roteiro e a Universal estava disposta a fazê-lo, mas quando percebeu que nosso filme ia estrear depois de "Poderoso Joe" e "Godzilla" decidiu suspender o projeto. O sucesso de "O Senhor dos Anéis" me permitiu fazer o filme com que sonhei durante tantos anos.

LV - Por que sentiu que era necessário recriar Nova York em 1933 de uma maneira tão minuciosa?

Jackson -
Para mim sempre foi muito importante ambientar o filme em 1933, porque esse é o ano em que transcorre a história na versão original. Não podia faltar Kong escalando o Empire State e atacado por aviões. O fato de que a história seja ambientada na década de 30 ajuda a acreditar que ainda existe uma ilha que não foi descoberta, na qual existem dinossauros e um macaco gigante.

Nossa filosofia com relação a conseguir que o público aceite esses seres fantásticos é que é muito importante que o resto da história seja o mais realista possível. Para Kong nos baseamos em um gorila de verdade e para reconstruir a Nova York dos anos 30 estudamos fotos e mapas da época. Construímos toda a ilha de Manhattan no computador como era em 1933. Esses elementos tão realistas servem para que a fantasia funcione no filme. Uma coisa equilibra a outra.

LV - Agora que terminou sua própria versão de "King Kong", qual é sua opinião quando volta a ver a versão original?

Jackson -
Acabo de revê-la em tela grande, em uma cópia restaurada, e gostei muito. Continua me parecendo um grande clássico do cinema.

LV - Há algo de suas próprias experiências em Hollywood no personagem do cineasta interpretado por Jack Black?

Jackson -
Não. Nos baseamos mais em Orson Welles quando era jovem para criar esse personagem, em sua natureza rebelde, em sua forma de desafiar a autoridade e sua capacidade de correr riscos.

LV - Hoje a tecnologia permite criar tudo em um filme. Houve momentos em sua carreira em que se sentiu frustrado por não poder concretizar uma idéia?

Jackson -
Claro, em meus primeiros filmes. Cada tomada era um desafio quando havia necessidade de efeitos especiais. Era preciso projetar o filme baseando-se no que era possível fazer. Mas há três anos é possível criar para a tela de forma verossímil tudo o que se imaginar.

É muito positivo, porque hoje podemos voltar a nos concentrar nos personagens e no argumento. Deixamos para trás a época em que bastava ver algo assombroso em uma tela. Agora os realizadores têm de pôr um pouco mais de conteúdo em seus filmes e conectar-se com a platéia emocionalmente. Hoje há muita liberdade na criação cinematográfica, porque já não é preciso pensar em como você vai fazer uma cena. Simplesmente tem de saber para quê precisa colocá-la no filme. "Há três anos é possível criar para a tela tudo o que você imaginar" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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