Eleição de Ronaldinho como melhor jogador do mundo mostra êxito do "barcelonismo"

Felip Vivanco
Em Barcelona

Sonhos. A vida se preenche perseguindo os sonhos, tentando apanhá-los com a rede de caçar borboletas ou com as mãos, ou com o que seja. Alguns são alcançados, outro só servem para continuar correndo. Assim é para a maioria dos mortais: os sonhos são sonhos, mas para Ronaldo de Assis Moreira tudo é diferente.

AFP 
O atacante Ronaldinho mostra o prêmio da Fifa antes de partid do Barcelona contra o Celta de Vigo
Erguido aos altares inatingíveis do futebol mundial. Com o cabelo preso e um terno negro como a noite, sem logotipos. Coroado o melhor jogador de todos os confins pela segunda vez consecutiva, três semanas depois de receber a prestigiosa Bola de Ouro. Exultante mas sereno. Elevado à estratosfera, onde quase ninguém tem forças para respirar, o brasileiro, o estandarte azul-grená, reina nas alturas. Sem discussão. Sem dúvida. Sem complexos. Sem descanso. E com um enorme abraço a seu primo, seu parceiro, seu irmão, Samuel Eto'o.

O centro de Zurique estava ontem à noite abaixo de zero, crepitando pelo gelo e a neve até que o sorriso do azul-grená aqueceu as veias da cidade e as do mundo inteiro via satélite, até que seus olhos começaram a transbordar ao receber o Jogador do Mundo da Fifa, varrendo na votação o meio-campo do Chelsea, Frank Lampard, e seu companheiro de equipe, seu irmão negro, Samuel Eto'o. A alemã Birgit Prinz (513 pontos) ganhou pelo terceiro ano consecutivo, superando a brasileira Marta (429) e Shannon Boxx (235), com Maribel Dominguez, Marigol, em sexto (115).

Para Ronaldinho, a noite de terça-feira (20/12) será inesquecível, para sua família e também para o planeta azul-grená. O brasileiro conteve um lago de emoções a ponto de transbordar em uma jornada intensa, em um dia de prantos de alegria e emoções fortes, em uma tarde-noite de denúncia do racismo e de homenagem às origens humildes de milhões de pessoas que vivem em um sem-fim de rincões onde a vida é pouco menos que insuportável.

"Agradeço a meus companheiros de clube e seleção. Sem eles não estaria aqui. Agradeço a minha família, que sempre esteve ali nos momentos difíceis, e a Deus, por me dar saúde, por me deixar fazer o que mais gosto e poder fazer as pessoas felizes", recitou apressado, tentando não ser vencido pelas lágrimas.

Ronaldinho recebeu o prêmio sob o olhar atento de sua mãe, Miguelina, e com dois Joãos na mente, seu pai (morto há 18 anos) e seu filho, que não havia nascido no prêmio anterior. Recebeu-o com a sensação de que não é "nem o melhor nem o pior do mundo, mas o mais feliz. Tenho muita vontade de vir aqui mais vezes, e estou muito feliz por estar aqui, por representar o Barça, por manter meu nível de jogo".

Assim falou o "chefe", como o batizou brincando Samuel Eto'o antes de uma festa de gala em que estiveram Laporta, Begiristain e o ex-diretor Echevarria, convidado de Eto'o.

O atacante de Camarões foi brilhante e sentimental em suas declarações. "Creio que não há palavras para poder explicar o que estou vivendo. O melhor (de minha carreira) está por chegar, meu sonho é ser o número um do mundo, e isso também passa por superar golpes como o de não estar na próxima Copa".

Eto'o citou o próprio "Ronaldinho, Xavi, Puyol, Deco..." num agradecimento geral à equipe por tê-lo feito crescer como jogador. O atacante lembrou suas origens: "Há poucos anos eu jogava na rua. Na África há pessoas que têm de se preocupar com comer e beber; o sonho de um menino africano é muito limitado, demais, e eu graças a meu pé estou aqui, e esse é um sentimento único que vou tentar conservar por toda a minha vida".

Foi muito político, mas disse que não quer seguir os passos do liberiano George Weah quando se aposentar: "Queremos que nossos países melhorem, mas sou sincero demais e muitos políticos, não".

O ano de Eto'o foi bom, mas, para sua infelicidade, não estará na Copa. Em troca, o de Ronaldinho quase não tem máculas. O brasileiro usou uma camiseta com o lema "Joga bonito" como forma de reivindicar a beleza. 2005 acaba para ele com uma compilação de grandes sucessos, que começa aqui em Zurique, que continua com a Liga, a Copa das Confederações, a Bola de Ouro e novamente o prêmio da Fifa. Falta a Campeões. Para ele e para todo o barcelonismo. Craque leva 2º prêmio consecutivo superando Lampard e Eto"o Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos