Evo Morales afirma que vai respeitar companhias de petróleo, mas revisar os contratos

Joaquím Ibarz
Em La Paz, Bolívia

A Repsol [espanhola] e as outras companhias de petróleo estatais que operam na Bolívia poderão recuperar seus investimentos e continuar obtendo lucros na Bolívia com Evo Morales. Foi o que disse o virtual presidente eleito do país no primeiro encontro com um grupo de jornalistas depois de sua vitória arrasadora no domingo.

Noah Friedman-Rudovsky/The New York Times 
Evo Morales na eleição que o consagrou, no domingo
Morales começou a adoçar seu discurso para tranqüilizar os empresários. Em suas primeiras declarações quis dar confiança aos investidores e evitar uma fuga de capitais.

Sobre o futuro da Repsol na Bolívia, comentou: "Queremos dizer às empresas que investiram na Bolívia que têm todo o direito de recuperar seu investimento. E não só têm direito de recuperar o investimento como também de obter lucros do investimento, mas lucros segundo princípios de equilíbrio. Esses contratos ilegais foram assinados quando o barril custava de 18 a 20 dólares, e agora custa mais de 60. É um tema para começar a dialogar com as petroleiras".

Ao explicar a nacionalização do petróleo e do gás natural, salientou: "Vamos nacionalizar os recursos naturais, o gás natural e os hidrocarbonetos. Não vamos nacionalizar os bens das transnacionais. Qualquer Estado tem o direito de dispor de seus recursos naturais. Existe um grande sentimento do povo boliviano de que esses recursos devem passar para o Estado. Temos de estabelecer novos contratos com as petroleiras a partir do princípio de equilíbrio. Vamos garantir que elas recuperem seu investimento e tenham seu lucro, mas não para saquear nem para roubar".

Questionado se vai indenizar as companhias de petróleo, o futuro presidente indicou: "Por que teríamos de indenizá-las, se não vamos confiscar seus bens?" Evo Morales deu a entender que pode chegar ao entendimento com as petroleiras, tal como a própria Repsol opera na Venezuela de Hugo Chávez.

Por meio de sua filial Andina, a Repsol arrasta um problema delicado na Bolívia por estar envolvida em uma operação que Chávez qualifica de "contrabando para não pagar impostos" e que poderia ocasionar a rescisão do contrato.

Fontes da empresa espanhola esclarecem que se trata de um tema administrativo em vias de solução. "Trabalhamos com total transparência, não quisemos enganar ninguém, nem deixamos de pagar impostos. As autoridades aduaneiras não presumem nenhuma culpa de nossa parte", disse o porta-voz da Repsol.

"Pelas informações que tenho, não é a Repsol que está envolvida no contrabando nem na evasão fiscal, e se não pagou impostos a empresa espanhola tem tempo de se pôr em dia", esclareceu Morales.

O líder boliviano está consciente de que as empresas de petróleo deixaram de investir na Bolívia à espera de esclarecimentos sobre o processo de nacionalização dos combustíveis.

Sobre isso, Morales comentou que "as multinacionais tinham algumas dúvidas sobre as eleições nacionais" mas que "esse triunfo do MAS, com mais de 50% dos votos, demonstra que se deve exercer o direito de propriedade, mas de maneira imediata vamos estabelecer um diálogo com as respectivas empresas".

Morales anunciou que fortalecerá as relações com as empresas de petróleo estatais. No entanto, não citou a brasileira Petrobras, uma das mais sólidas do continente, e sim as venezuelanas Petroamérica e Petrosur, um projeto de Hugo Chávez que ainda não se materializou. "É importante que as empresas estatais façam um grande consórcio", disse. O novo presidente boliviano tenta evitar uma fuga de capitais Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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