Europa tenta quebrar monopólio dos EUA na pesquisa espacial com o satélite Galileo

Maite Gutiérrez
Em Baikonur, Casaquistão

O primeiro satélite piloto do sistema Galileo, a versão européia do GPS, já está pronto para ser lançado do centro espacial de Baikonur, no Casaquistão. O satélite Giove-A que decolou nesta quarta-feira (28/12) às 6:19 (hora da Espanha) a bordo de um foguete Soyuz, para ser colocado em órbita da Terra. Assim, o Galileo, uma iniciativa conjunta da Comissão Européia (CE) e da Agência Espacial Européia (ESA), deixará de ser um projeto para se tornar realidade.

AFP 
Se bem sucedido, satélite europeu pode ser início do fim do monopólio norte-americano na pesquisa espacial
A ativação do Giove-A abre caminho para o que será o primeiro sistema de navegação por satélite criado para uso civil, a aposta tecnológica mais importante da década na Europa, que acabará com o monopólio dos EUA nesse campo.

A missão desse satélite de fabricação britânica e que custou 28 milhões de euros é verificar se a tecnologia criada para o sistema Galileo funciona da maneira correta. Deverá comprovar a transmissão e recepção dos sinais e utilizar as freqüências que a União Internacional de Telecomunicações atribuiu ao Galileo; se não o fizer até junho de 2006 perderá as freqüências.

Se algo correr mal com o Giove-A, a ESA tem preparado outro satélite experimental que lançará em 2006, o Giove-B. Mesmo que não haja problemas com o primeiro, este será colocado em órbita. O segundo satélite foi fabricado pela Galileo Industries, um consórcio internacional do qual faz parte a empresa espanhola Galileo Sistemas y Servicios.

Calcula-se que ambos os satélites terão uma vida aproximada de dois anos, durante os quais será validado o funcionamento do sistema. No final de 2008 serão lançados os quatro primeiros satélites da rede Galileo e a partir de 2009, outros 26. Segundo o plano previsto, até 2010 a frota de 30 satélites estará totalmente lançada e o serviço entrará em sua fase de operação e exploração comercial.

Contar com um sistema próprio de navegação por satélite é imprescindível para a Europa, tanto do ponto de vista estratégico quanto do econômico. "Não é possível continuar dependendo de outro país nesse assunto, no caso os EUA; é como se não administrássemos nossas próprias rodovias", explicou a este jornal o diretor científico do Galileo, Xavier Benedicto, na apresentação do Giove-A em novembro passado na Holanda.

No aspecto econômico, prevê-se criar cerca de 140 mil empregos e contar com 2,5 bilhões de usuários até 2020. O aspecto mais destacado pela empresa Galileo, formada pela CE e a ESA, é o caráter civil do sistema europeu e sua maior precisão em relação ao GPS. Para o sistema de navegação por satélite americano, as aplicações civis estão em segundo plano, enquanto para o Galileo serão a principal atividade.

"Isso nos permitirá proporcionar um serviço mais confiável", afirmou Benedicto. O porta-voz da empresa Galileo, Hans Peter Marchlewski, salientou que no futuro a navegação por satélite será cada vez mais utilizada, "e por isso é necessário contar com um sistema que esteja sempre disponível e que garanta uma boa cobertura. Em breve, utilizar a navegação por satélite será como manusear um PC hoje".

O Galileo vai aperfeiçoar serviços que já existem, como a gestão do tráfego aéreo e naval, e oferecerá alguns novos serviços. Por exemplo, haverá a possibilidade de que uma pessoa em dificuldades emita um sinal de socorro e receba uma mensagem avisando quando será resgatada. Também será possível trafegar por qualquer cidade desconhecida e buscar as melhores rotas para alcançar um destino.

Para concorrer com o GPS, o Galileo promete uma margem de erro dez vezes menor e uma tecnologia mais avançada. Enquanto o sistema americano utiliza um único sinal para todas as suas atividades, Galileo contará com dez, seis dos quais serão de acesso livre. Outros dois serão destinados a serviços públicos regulamentados (como polícia e bombeiros) e os demais serão explorados comercialmente e oferecerão serviços mais específicos com pagamento prévio.

Uma das maiores contribuições tecnológicas oferecidas pelos satélites Galileo são os relógios atômicos. A precisão na hora de determinar a posição de um usuário depende da exatidão com que se meça o tempo, e só os relógios atômicos --que medem o tempo pelas oscilações de átomos-- oferecem tal precisão (perdem um segundo a cada 30 mil anos). Segundo Benedicto, os relógios atômicos do Galileo são os melhores do mundo. Além disso, já está sendo preparada a nova tecnologia que substituirá a primeira constelação de satélites Galileo a partir de 2025.

Mais de 3 bilhões de euros

A infra-estrutura do Galileo será complementada por uma rede de centros de controle em terra, que processarão os dados que chegarem dos satélites e controlarão suas órbitas. Dois desses centros ficarão na Espanha, mas ainda não se conhece sua localização exata. Serão administrados pela Hispasat e Aena, e dedicados à navegação aérea e à segurança civil.

A ativação do sistema Galileo, contando os satélites e os centros de controle em terra, custará aproximadamente 3,2 bilhões de euros. Quando o sistema estiver em operação, serão necessários 220 milhões de euros anuais para mantê-lo, e será explorado por um consórcio privado.

Para chegar a essa fase foi preciso superar muitos obstáculos, por falta de acordo entre os países membros da União Européia. O projeto chegou a ser paralisado em algumas ocasiões.

Putin apressado

As forças espaciais russas lançaram no domingo três satélites de navegação, também do centro espacial de Baikonur, com os quais os aparelhos em órbita do sistema Glonass --desenvolvido pelo exército russo nos anos 80-- já somam 17.

O presidente russo, Vladimir Putin, pediu ontem a seu governo que acelere a ativação do sistema --uma versão do americano GPS e do europeu Galileo--, que está atrasado por falta de verbas.

"É necessário criar o sistema Glonass mais rapidamente, antes de 2008, a data prevista inicialmente", afirmou Putin em uma reunião governamental. "É necessário ver o que se pode fazer em 2006 e 2007 e lançar o quanto antes a utilização comercial do sistema", acrescentou.

O ministro da Defesa, Sergei Ivanov, considerou que a Rússia poderia concluir o lançamento dos 24 satélites Glonass até 2008, mas o presidente desejou que o trabalho esteja pronto antes, já que os primeiros satélites lançados correm o risco de ficar obsoletos até 2008. Federação Russa lança 1º projeto da versão européia do GPS Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos