Woody Allen renova seu idílio com Barcelona

em Barcelona

"Sou só um clarinetista amador. Se não fosse famoso, as pessoas não viriam aos meus concertos. Vêm mais para me ver do que para escutar."

Com essa humildade Woody Allen encara sua faceta musical, sempre à sombra de sua extensa carreira cinematográfica. Mas sua habitual autocrítica não pareceu afetar muito o público catalão, a julgar pela excelente resposta que lhe deu ontem à noite em seu concerto no Palau de la Música, um dos pratos fortes do Festival del Millenni.

Completamente lotado, e com todos os ingressos vendidos semanas antes, o recinto modernista desfrutou do carisma do cineasta americano e do virtuosismo dos músicos de primeira linha que formam a New Orleans Jazz Band.

Passavam alguns minutos das 21:30 quando Allen, vestindo camisa azul de mangas arregaçadas e calças de veludo marrom, apareceu em meio a uma sonora ovação. Situado no centro do palco, com ar tranqüilo, demorou muito pouco para se desfazer dessa mistura de timidez e simpatia que o caracteriza e começou a marcar o ritmo com a perna esquerda.

O público recolheu seu entusiasmo e deixou-se conquistar desde o início pelas melodias da banda conduzida por Eddy Davis. O concerto seguiu os tempos clássicos de uma sessão de clube, com uma base rítmica acelerada e solos dos vários instrumentos intercalados. Às vezes quase conseguiram transformar o Palau no salão do hotel Carlyle em Nova York, onde a banda se apresenta todas as segundas-feiras.

Além do diretor de "Match Point" no clarinete, o grupo é composto por Eddy Davis no banjo, o contrabaixista Conal Fowkes, Robert García na bateria, a pianista Cinthya Sayer -- que traz outro toque cinéfilo ao grupo, já que apareceu em filmes de Allen como "A Rosa Púrpura do Cairo" e "Tiros na Broadway", o trompetista Simon Wettenhall e o trombonista Jerry Zigmont.

Depois de aquecer o público com as três primeiras peças cheias de ritmos sulinos de jazz clássico, Allen dirigiu-se à platéia pela primeira vez para agradecer sua presença e apresentar sua visão do espetáculo: "Continuando, vamos lhes oferecer canções de desfile, funeral, tradicionais, de casa... Espero que passem um bom momento e apreciem", afirmou. O público acolheu suas palavras com uma nova ovação.

Depois o concerto derivou em uma fase de puro jazz, com solos constantes de Allen e companhia. Durante as canções, Eddy Davis conduzia com excelente atitude e bom humor os passos de seus companheiros.

Entre as canções, algumas instrumentais e outras cantadas por algum membro do grupo -- todos se atreveram com o microfone, menos o baterista --, destacou-se uma combinação de jazz e conga, em castelhano, com o baixista Fowkes como protagonista. O número em espanhol da banda foi recebido com um estrondo espetacular.

No trecho final, o cineasta fechou a noite depois de mais de uma hora e meia de concerto com a apresentação, um a um, dos componentes da banda, e juntos tocaram uma última peça de pé diante da enésima ovação do público.

A noite foi a quarta ocasião em que o clarinetista Allen visitou a capital catalã. Dessa vez tendo a música como pretexto, o artista polivalente renovou o idílio que há anos mantém com a cidade de Barcelona.

Ao chegar ao hotel Palace ontem, Woody Allen confessou estar "encantado" com sua nova visita a Barcelona. "Estou muito contente por estar outra vez nesta cidade. Me emociona voltar a tocar aqui, porque é uma de minhas cidades favoritas e é cheia de lugares interessantes."

Assim como nos demais concertos de sua turnê européia, o artista chegou acompanhado de sua esposa, Soon Yi, suas duas filhas pequenas e sua irmã, Letty Aronson. Amável, mas com aspecto cansado, Allen não deu pistas sobre o estado das negociações para rodar um filme em Barcelona, talvez em 2007. "Ainda não há nada certo", disse. "Meu próximo filme provavelmente será rodado em Londres. Mas é cedo para dizer qualquer coisa sobre filmar em Barcelona", afirmou. Com a New Orleans Jazz Band, o cineasta tocou ontem para um público entusiástico Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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