Chávez "abençoa" o general peruano Humala

Joaquím Ibarz
Em Lima

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, aproveitou na última terça-feira (3/1) a visita do recém-eleito presidente boliviano, Evo Morales, para apresentar um novo aliado de sua causa revolucionária, Ollanta Humala, um ex-militar peruano de passado negro e presente obscuro que sobe nas pesquisas antes das eleições de 9 de abril.

Uma transmissão de televisão de Caracas confirmou na terça-feira a versão tantas vezes negada. Na tomada aparecia Ollanta Humala sorridente na primeira fila, enquanto o presidente Hugo Chávez o elogiava, lhe dava apoio e até o comparava a Dom Quixote, por ter encabeçado em 2001 um confuso levante militar contra o então presidente peruano, Alberto Fujimori.

A empatia entre o caudilho e o candidato peruano ficou evidente. Evo Morales --na escala venezuelana de sua viagem-- foi testemunha privilegiada do apoio de Chávez ao pseudo-golpista.

Humala, um ex-tenente-coronel de trajetória suspeita, atinge com força os setores mais pobres ao captar o descontentamento com a classe política. Como se não tivessem aprendido com os descalabros populistas de Alain García e Fujimori, os peruanos apóiam um candidato que os analistas identificam com uma versão andina do neofascismo indigenista.

Fundador do Partido Nacionalista Unindo o Peru, Humala conquistou o segundo lugar nas pesquisas (a firma Datum lhe dá 23% das intenções de voto, acima do ex-presidente Alan García e só a 2 pontos da direitista Lourdes Flores). Humala começou com 5% das intenções de voto e em quatro semanas subiu de 11 para 23 pontos. No sul do país ele tem uma aceitação de 41%.

Manuel Torrado, diretor da Datum, acredita que Humala cresce ao captar o voto dos partidários do ex-presidente Fujimori, que não pode se candidatar à reeleição. Com um discurso radical e incendiado, Humala encarna a decepção dos peruanos com políticos e partidos, aos quais atribuem os males do país, desde a corrupção à extrema pobreza.

O analista Fernando Rospigliosi, ex-ministro do Interior do presidente Alejandro Toledo, declara que a subida de Humala representa "uma rejeição visceral de grande parte da população aos políticos e mostra a pouca importância que se dá à democracia no Peru, sem reparar na categoria moral do candidato". Rospigliosi afirma que se Humala "ganhar acabará com a democracia e instalará uma ditadura no estilo de Hugo Chávez".

Humala tornou-se conhecido por um estranho levante militar, supostamente contra Fujimori; na realidade, suspeita-se que foi uma manobra de distração montada pelo ex-chefe do serviço de inteligência, Vladimiro Montesinos, que naquele dia fugiu do Peru para se refugiar na Venezuela sob a suposta proteção de Chávez, apesar de ser acusado de diversos casos de corrupção, assassinato e violação de direitos humanos.

Em 29 de outubro de 2000, à frente de 69 soldados, o comandante Humala capturou uma instalação mineira para exigir a renúncia de Fujimori. Há um ano seu irmão, Antauro Humala, atacou a população de Andahuaylas e assassinou quatro policiais para pedir a renúncia de Toledo da presidência.

Luis Benavente, diretor de opinião pública da Universidade de Lima, afirma que Humala tem força nos setores mais pobres, alheios a ideologias, que recebem a influência de uma corrente neomilitarista representada por Hugo Chávez.

O analista Eduardo Toche salienta que "Humala reflete a ultra-direita fascista; recebe um voto insatisfeito, sem ideologia e muito volátil, de pessoas sem cultura política, fáceis de manipular".

Ollanta --nome do idioma quechua que significa "o guerreiro que tudo vê"-- não é de esquerda mas seu discurso é antiamericano. Não é socialista, mas fala em nacionalizar as "empresas estratégicas". Destaca a origem andina de sua raça com um caráter racista.

Isaac Humala, pai de Ollanta, era um comunista da velha cepa, que Mario Vargas Llosa retratou como um personagem folclórico em seu romance "Conversa na Catedral".

Convencido de que só os descendentes dos incas são capazes de tirar o país do atraso, batizou cinco de seus oito filhos com nomes quechuas: Pachacutec, Ima Sumac, Cusicollur, Antauro e Ollanta. O ex-militar golpista causa alarme em Lima ao crescer nas pesquisas para as eleições presidenciais do Peru, em abril Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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