Muro na fronteira com os Estados Unidos provoca indignação no México

Joaquim Ibarz
Na Cidade do México

A morte de um imigrante sem documentos por um policial de fronteira dos EUA adicionou combustível à campanha empreendida pelo México para frear o projeto de lei aprovado em Washington pela Câmara dos Deputados que torna criminosos os imigrantes sem documentos e pede a construção de um muro em pelo menos um terço dos 3.200 quilômetros de fronteira entre os dois países.

No México, multiplicam-se as demonstrações de indignação pela morte de um homem sem documentos, alvejado pelas costas. A imprensa denuncia a prepotência da polícia de fronteiras americana, que "trata os sem documentos como criminosos", e salienta que a nova lei é um "insulto" para um país que, além de vizinho, é o principal parceiro comercial estratégico.

Os mexicanos sentem-se cada vez mais humilhados pelas medidas propostas pelos EUA para criminalizar o imigrante ilegal. Muitos consideram a lei uma bofetada nos que contribuem com seu trabalho para o progresso econômico do vizinho do norte.

A iniciativa do Congresso americano provocou uma avalanche de declarações nacionalistas, do presidente Vicente Fox e do ministro das Relações Exteriores aos deputados de oposição. Todos rejeitam a lei em uníssono, destacando que um novo muro provocaria muitas mortes ao obrigar os imigrantes a tomar caminhos cada vez mais perigosos através de desertos e montanhas. Em 2005, 464 mexicanos morreram tentando cruzar ilegalmente para os EUA.

A nova lei afetaria cerca de 12 milhões de imigrantes sem documentos que vivem nos EUA, dos quais pelo menos a metade é mexicana. A estes, todos os anos somam-se outros 400 mil que atravessam a fronteira. Também teria repercussões na economia do México: as remessas que os imigrantes fazem dos EUA são uma das principais fontes de divisas do país (em 2005 chegaram a US$ 20 bilhões).

O texto aprovado pela Câmara dos Deputados pretende punir os empregadores que contratarem trabalhadores sem documentos, os que permanecerem no país em situação irregular e os traficantes de pessoas. O trâmite da chamada Lei de Controle da Proteção de Fronteiras, Antiterrorista e de Controle da Imigração Ilegal --proposta por um setor dos republicanos-- é acompanhado com grande interesse no México.

A reforma ainda deve passar pelo filtro do Senado e ser sancionada pelo presidente Bush. O muro "materializa a tendência a criminalizar a migração com barreiras cujas características trazem à lembrança o Muro de Berlim", criticou a Comissão Nacional de Direitos Humanos.

Para o ex-chanceler Jorge Castañeda, a norma "vai criar mais problemas entre dois países vizinhos e amigos", mas ele diz estar convencido de que "não será aprovada pelo Senado nem por Bush". "Há cinco anos havia nos EUA um sentimento favorável, e só um pequeno setor extremista se opunha a um acordo migratório. Esse setor tornou-se mais poderoso", explicou Castañeda.

O presidente Fox acusou os legisladores americanos e o próprio governo Bush. "O que o Congresso e o governo dos EUA decidiram nos parece um péssimo sinal", ele declarou. Depois de ser criticado pela oposição por sua timidez inicial com Washington, o presidente mexicano afirmou indignado que "ninguém vai atentar e violar esses direitos e o orgulho de ser mexicanos". "O muro é uma vergonha. Não é possível que no século 21 se construam muros entre duas nações vizinhas, irmãs e parceiras", disse Fox.

No entanto, as leis migratórias do México são mais restritivas que as americanas. O comentarista Sergio Sarmiento destaca a hipocrisia de se criticar Washington quando se dá um tratamento pior aos imigrantes ilegais que a polícia mexicana captura.

"Com que cara podemos protestar contra as leis migratórias americanas quando somos ainda mais restritivos? É melhor o tratamento dado aos mexicanos no Texas do que o que recebem os guatemaltecos em Chiapas?", perguntou Sarmiento. Projeto de lei criminaliza as pessoas sem documentos na fronteira Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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