"A figura do caubói sempre foi a grande fantasia do coletivo gay", afirma Ang Lee

Lluis Bonet Mojica
Em Barcelona

Em outubro do ano passado, Ang Lee, 52, apresentou "O Segredo de Brokeback Mountain" na Semana de Cinema de Valladolid (Espanha), onde foi entrevistado por La Vanguardia.

Cineasta de Taiwan formado em Nova York, Lee conseguiu saltar do cinema autóctone ("O Tigre e o Dragão" ou "O Banquete de Casamento", em que já abordou em tom de comédia o tema da homossexualidade) para o quadrinho "cult" "Hulk", passando pela adaptação literária de Jane Austen em "Razão e Sensibilidade" ou os EUA de Watergate em "Tempestade de Gelo".

Agora desmistifica um gênero tão americano quanto o western em "O Segredo de Brokeback Mountain", que estréia em Barcelona nesta sexta-feira (20/01). Abaixo, a entrevista com Ang Lee.

La Vanguardia - Causa surpresa que tenha sido um cineasta de Taiwan quem finalmente revelou o componente homossexual do filme de caubói.

Ang Lee -
Evidentemente, é algo que sempre esteve aí. É claro que a grande fantasia erótica do coletivo gay sempre foi representada pela figura do caubói. Não gosto de revelar um detalhe de meu filme, mas há muitos homens que dizem a suas esposas que vão pescar com amigos e a partir de "O Segredo de Brokeback Mountain" as mulheres saberão que se trata de outro tipo de pescaria. Os homens não terão mais essa desculpa...

LV - O western era quase veneno para a bilheteria, na gíria de Hollywood, e o senhor mesmo fracassou na bilheteria com "Cavalgada com o Diabo".

Lee -
Antes se filmavam muitos westerns porque era um gênero que estava na moda. Quando comecei a rodar "Cavalgada com o Diabo", compreendi por que os diretores tinham deixado de fazer westerns. Mas agradeço à tecnologia digital. Agora é muito mais fácil fazer filmes desse tipo ou de aventura, sem necessidade, por exemplo, de ter de trabalhar com animais. Bem, Hitchcock já disse que os animais eram atores muito complicados...

Em um filme como "O Segredo de Brokeback Mountain", em que a montanha é essencial para a história, o desafio era importante. Revi muitos westerns contemporâneos e percebi que não tinham qualquer relação com os que eu tinha visto quando menino.

LV - O seu é um western contemporâneo, sobre a história de amor de dois caubóis que entre 1963 e 1983 formam suas respectivas famílias.

Lee -
Meu filme parte de um breve relato de Annie Proulx ao qual tive de acrescentar muitas coisas até conseguir uma estética visual que fosse além da estritamente literária. A linguagem do espaço, o tempo e o corporal não têm nada a ver com o verbal. Como o roteiro acompanhava muito de perto os sentimentos íntimos dos protagonistas, tive de trabalhar muito para privilegiar os aspectos visuais.

LV - Qual foi o maior desafio no filme?

Lee -
O grande desafio foi confrontar a épica da paisagem majestosa com a intimidade da história de amor vivida por seus dois protagonistas. Como eu já disse, o filme é baseado em um relato curto mas dotado de um ar épico. A dificuldade consistia em mostrar trechos de vida, 20 anos de sentimentos compartilhados. Além disso, como os dois protagonistas não falam entre si, ou falam muito pouco, a imensidão da paisagem era muito importante e se transformava em mais um personagem. Tínhamos de combinar a grandeza das montanhas com a intimidade de uma história de amor.

LV - Em certo momento do filme, um dos vaqueiros, interpretado por Jake Gyllenhaal, diz ao outro (Heath Ledger) que se não falar ficará paranóico.

Lee -
A violência desse personagem sai para o exterior quando algo o assusta, sente medo e não pode falar. É o lado mais obscuro do personagem. Os silêncios que há entre os protagonistas ajudam muito no desenvolvimento do drama, e o que utilizam para mostrar seus sentimentos mais ocultos é a linguagem corporal. Era preciso criar situações conflituosas para que se visse como reagem, como se movem e o que fazem com seu corpo, porque essa é sua maneira de se expressar.

LV - É difícil na Hollywood de hoje encontrar textos literários interessantes para adaptar ou roteiros originais?

Lee -
Na verdade está cada vez mais difícil encontrar material interessante. Não perco o entusiasmo, mas percebo como é complicado encontrar histórias que me permitam perscrutar o interior das pessoas. Mas estou muito longe de desiludido. Há temas e personagens que ainda tenho a ilusão de filmar.

LV - Podemos supor que o lançamento de "O Segredo de Brokeback Mountain" nos EUA teve dificuldades.

Lee -
A distribuição começou muito lenta e em circuitos quase de arte e ensaio. Depois, graças ao boca-a-boca, passamos para salas maiores. Era importante apresentar o filme da maneira certa, pelo menos nos EUA. Porque se as pessoas só falassem que se tratava de um western gay, esse rótulo poderia dificultar a difusão em setores majoritariamente conservadores. Para diretor, "desafio era confrontar épica com a história de amor" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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