"Se os Estados Unidos e o Paquistão têm armas atômicas, por que não o Irã?"

Luis Izquierdo
Em Madri

Correspondente do jornal britânico "The Independent" no Oriente Médio, Robert Fisk é um dos mais antigos e conhecidos repórteres de guerra. Há mais de três décadas escreve sobre os diferentes conflitos ocorridos nessa parte do mundo e entrevistou Osama bin Laden três vezes, antes dos atentados de 11 de Setembro.

Colaborador de La Vanguardia, está publicando o livro "A Grande Guerra pela Civilização, a Conquista do Oriente Médio", no qual relata suas experiências nos últimos 30 anos.

La Vanguardia - Como o senhor vê a situação com o Irã? Parece com o que aconteceu no Iraque?

Robert Fisk -
Estou surpreso que as pessoas acreditem no que os políticos dizem, depois do que se afirmou sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Um problema adicional é que os iranianos não fizeram nada de mal. Eu me pergunto por que se permite que os EUA, a Índia, o Paquistão ou a Coréia do Norte tenham armas de destruição em massa, mas não o Irã.

LV - Haverá guerra?

Fisk -
Não acredito nisso. Já temos muitos problemas no Iraque. Fizemos uma besteira, e por enquanto basta.

LV - Quais são as perspectivas no Iraque depois que os soldados americanos partirem?

Fisk -
Seria interessante saber quando partirão. Sem dúvida o farão, mais cedo ou mais tarde. A situação está piorando e o exército iraquiano está totalmente infiltrado pelos rebeldes. Não há futuro para os americanos lá. O projeto americano está sendo um desastre.

LV - O senhor acredita que os americanos poderão partir e ao mesmo tempo cuidar do petróleo?

Fisk -
Não creio que possam continuar controlando os recursos naturais. Terão de partir de uma vez. Estar no Iraque tem um preço político, um preço que continua aumentando. Em minha última viagem aos EUA, para promover meu livro, pude detectar esse aumento da pressão sobre o presidente. Até o prefeito de São Francisco me elogiou por dizer que os americanos têm de deixar o Iraque.

LV - A situação em que se encontra o primeiro-ministro israelense não ajuda muito a prever tempos de paz no Oriente Médio.

Fisk -
Quando Arafat morreu, se generalizou a idéia de que isso foi bom para a paz. Agora se diz que quando Sharon morrer haverá mais dificuldades. Mas a realidade é que a morte dos dirigentes nunca influiu no Oriente Médio. O problema é a injustiça, tanto faz a pessoa. Sharon é um homem que criou dezenas de assentamentos e protagonizou algumas matanças de palestinos. A única coisa que fez foi retirar 8 mil colonos de Gaza, quando há muitos mais na Cisjordânia que não se mexem.

LV - Em relação às eleições na Palestina, estamos vendo com certa perplexidade que o Hamas se perfila como vencedor.

Fisk -
É uma das conseqüências das eleições: nem sempre terminam com os dirigentes mais apropriados. Mas se alguém ganha quer dizer que foi escolhido pelo povo. Estou farto de escutar as pessoas pedirem democracia na Palestina e pôr as mãos na cabeça porque podem ganhar os que elas não aprovam. Se o Hamas ganhar é uma conseqüência da corrupção com que os líderes palestinos atuaram até agora.

LV - Em seu livro, o senhor narra as três entrevistas que fez com Bin Laden.

Fisk -
É algo que terei de suportar pelo resto da minha vida.

LV - Nas três ocasiões ele o fez esperar um mês. Voltaria a fazê-lo agora?

Fisk -
Dependeria das condições, mas creio que ele não está em situação propícia para ver ninguém. Seria uma entrevista muito difícil de fazer, mas creio que a faria. Bin Laden é uma figura histórica muito importante. Posso afirmar que não fiz nada para vê-lo. Depois do 11 de Setembro ele quis entrar em contato comigo e eu não pude concretizar isso, mas sabia que ele queria outra entrevista.

LV - Em seu livro o senhor não menciona os atentados de 11 de Março em Madri.

Fisk -
Não, mas também não falo de muitos outros, como Bali. Se falo sobre o 11-S é em relação às conexões que tem com o Oriente Médio. Mas creio que o que aconteceu na Espanha está diretamente relacionado à presença de seus militares no Iraque. Não voltou a acontecer nada desde que as tropas se retiraram. Claro que a al Qaeda continua na Espanha. É uma mentalidade. Não é preciso ter carteirinha.

LV - O senhor acredita que continuará havendo atentados nos países europeus?

Fisk -
Houve uma época, depois da Segunda Guerra Mundial, em que nós ocidentais levamos as guerras para países distantes como Vietnã ou Quênia. Pensávamos que nunca nos tocariam de perto. O 11 de Setembro foi um choque. Devemos ter consciência de que essas guerras gratuitas de exportação agora estão acontecendo aqui na Europa. Já não tem sentido ler as guerras nos jornais. O que está acontecendo no Iraque nos afeta aqui. Não podemos continuar invadindo povos gratuitamente. Quem pergunta é Robert Fisk, especialista em Oriente Médio Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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