Ameaça de motim no Queen Mary 2

La Vanguardia

Talvez a garrafa de champanhe não tenha se quebrado como deveria ao chocar-se com o casco do maior e mais luxuoso transatlântico do mundo na época de sua inauguração, há dois anos. Mas é certo que o Queen Mary 2 nasceu com mau agouro, e que a maldição o persegue pelos mares.

Primeiro foi a morte de 14 trabalhadores no desabamento de uma plataforma, quando o navio estava prestes a ser lançado dos estaleiros de Saint Nazaire (França). Depois, na viagem inaugural, duas senhoras tiveram de ser desembarcadas ao quebrar as pernas em acidentes.

E agora uma centena de passageiros ameaçam se amotinar depois do cancelamento de pelo menos três escalas de uma viagem de um mês e meio pelo Caribe e a América do Sul.

O Queen Mary 2, alto como um edifício de 23 andares e longo como 41 ônibus enfileirados, não acerta uma. O que é um problema quando alguns passageiros pagaram até 65 mil euros pela grande viagem de sua vida e de repente ficam sabendo que foi "encurtada" devido à avaria de uma das hélices.

O fabuloso transatlântico, propriedade da empresa britânica Cunard, saiu de Nova York e fez sua primeira escala em Fort Lauderdale (Flórida) para recolher passageiros da viagem pelo Caribe e a América Latina.

Mas, ao sair do porto, um de seus motores atingiu um canal subterrâneo e uma das quatro cápsulas de propulsão ficou inutilizada. O problema mecânico não envolve riscos de segurança, mas faz o navio perder 30 nós de velocidade em uma travessia que deve terminar em 22 de fevereiro em Los Angeles.

Em vez de optar por atrasar a escala da semana que vem no Rio de Janeiro, onde deve recolher mil passageiros, a direção da Cunard decidiu cancelar as escalas nas ilhas Saint Kitts e Barbados, assim como em Salvador, Bahia.

O pior é que informaram sobre isso quando o Queen Mary 2 já tinha saído de Fort Lauderdale, depois dos reparos necessários, em vez de dar a opção de cancelar a viagem aos que não concordassem.

A explicação da companhia é que só quando o navio atingiu o mar foi possível determinar a velocidade que perderia, e ofereceu aos passageiros um desconto de 50% no preço pago. Muitos afirmam sentir-se lesados.

Um grupo de cerca de cem passageiros, composto sobretudo de britânicos e americanos, ameaça fazer um motim a bordo, coincidindo com a chegada ao Rio de Janeiro.

Uma viagem de barco sempre tem algo de aventura, e na história da navegação houve grandes dramas provocados por piratas, icebergs assassinos ou frotas inimigas, entre outros. Mas o motim do Queen Mary 2 causou muito pouca graça aos passageiros de um transatlântico que cobra preços de luxo por um cruzeiro que deveria ser a própria perfeição.

O mercado dos cruzeiros se encontra no auge, com um crescimento anual da demanda de 10%, tendo-se beneficiado do medo dos americanos de viajar ao exterior por conta própria depois do 11 de Setembro.

O navio conta com camarotes para 2.500 passageiros, 150 mil toneladas de peso, seis restaurantes, cinco piscinas, um cinema, um teatro, uma galeria de arte e um planetário. A nave foi comparada a um cassino de Las Vegas flutuante e denunciada como um monumento ao mau gosto.

Muita gente paga até US$ 30 mil pelos seis dias de travessia entre Southampton (Inglaterra) e Nova York, e mais ainda pelos 38 dias e noites na atual turnê pelas Américas. "É o navio mais seguro do mundo", afirma sua publicidade.

Mas de pouco serve tanta sofisticação se ele se choca com um canal de navegação, rompe uma hélice, escalas são canceladas e tudo fica à deriva. Os supersticiosos, que não são poucos no mundo marítimo, dizem que é coisa do mau agouro. Passageiros que pagaram até 65 mil euros sentem-se ludibriados depois do cancelamento de escalas devido a uma avaria Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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