Rico e feliz... até certo ponto

Manuel Estape Tous
Em Barcelona

O estudo da felicidade nos seres humanos e o bem-estar pessoal interessa cada vez mais aos economistas. A tese até hoje aceita, segundo a qual a satisfação pessoal e a felicidade aumentam de forma proporcional ao crescimento das economias nacionais e da renda dos indivíduos, é cada vez mais questionada. Em uma escala de satisfação de 1 a 7 pontos, 400 milionários dos EUA se situam em 5,8 pontos, assim como os massai do Quênia.

Saúde, dinheiro e amor. O refrão resume assim as três condições necessárias e suficientes para ser feliz, uma aspiração individual e coletiva que já figurava na pioneira Constituição dos EUA e que foi incluída no projeto de Estatuto de Autonomia catalão, de acordo com o legado de John Locke, David Hume, James Bentham e os utilitaristas.

Economia da felicidade? Não por acaso, é a ciência social que estuda como resolver o fato de as necessidades dos seres humanos serem ilimitadas e os bens materiais para satisfazê-las, escassos. A economia clássica parte do princípio de que os humanos buscam o máximo prazer. Então, a "mão invisível", segundo Adam Smith, faz que a busca individual e egoísta do prazer redunde em benefício da sociedade. Esse modelo impera desde a "grande transformação" social do século 19, que impôs o capitalismo em escala mundial e que foi descrita pelo historiador da economia Karl Polanyi.

O utilitarismo e a economia clássica deduzem, pois, que um aumento da riqueza individual e coletiva redunda em um aumento da felicidade e do bem-estar. Satisfazer necessidades é prazeroso. Parece óbvio (e é, quando se resolvem situações de necessidade e, saindo da pobreza, se ingressa na classe média).

Mas não é assim, segundo se debate atualmente com certa paixão nas faculdades de ciências econômicas dos EUA e da Europa, onde já foi criada a subdisciplina (ou microespecialização) economia da felicidade e do bem-estar. Alguns deles se reunirão nos próximos dias 9 e 10 de fevereiro no 28º Simpósio Brown da Universidade Southwestern em Houston (Texas) para debater o Produto Nacional Bruto e o bem-estar nacional bruto.

A questão remete à possibilidade de comprar a felicidade e aos sonhos de milhões de pessoas que jogam regularmente na loteria nas "sociedades desenvolvidas", com o inconfessável desejo de "comprar minha empresa e despedir meu chefe" (segundo um anúncio perspicaz da loteria do Estado de Nova York).

Porque, para complicar as coisas, as numerosas pesquisas e estudos realizados, especialmente nos EUA, mostram que às vezes os ricos são infelizes ou menos felizes que a média. Porque felicidade, bem-estar e riqueza são relativos. Os estudos e as séries históricas demonstram que os humanos, sobretudo, comparamos. Nos comparamos.

Assim, em uma escala de 1 a 7, na qual 1 significa "nada satisfeito com minha vida" e 7, "completamente satisfeito", os 400 americanos mais ricos, os multimilionários da revista "Forbes", responderam em média 5,8 pontos (contra 2,9 no caso dos sem-teto de Calcutá, como parece óbvio).

Mais difícil de acreditar, embora igualmente verdadeiro, é que nas pesquisas realizadas nos últimos 20 anos a etnia enuit, do gélido norte da Groenlândia, assim como os massai do Quênia, que não têm luz nem água corrente, ficam em 5,8 na mesma escala de felicidade vital que os milionários americanos (30% dos quais são mais infelizes que o americano médio, o que confirmaria lições como a dada pelo rapeiro assassinado Notorious BIG: "Não sei o que querem de mim; quanto mais dinheiro conseguimos, mais problemas temos").

Há uma semana, Andrew Oswald, economista da Universidade de Warwick (Inglaterra), resumiu o debate no "Financial Times" com o artigo "Os hippies tinham razão". Ele salientou que embora a renda per capita dos americanos tenha triplicado desde 1945, as porcentagens de satisfeitos, muito satisfeitos e descontentes se mantêm estáveis.

Essas descobertas representam uma "revanche", escreveu Oswald, para os hippies, os verdes, os manifestantes antiglobalização e os partidários de viver a vida sem que o trabalho represente uma tortura, e sim um meio para cobrir as necessidades básicas e indispensáveis (a definição de ambas varia com o tempo e a renda, e os luxos de ontem se transformam nas necessidades imperiosas de hoje).

No plano internacional, os estudos mostram um aumento correlato de riqueza e felicidade até um nível que se situa entre 15 mil e 20 mil euros anuais. A partir daí, e mesmo que Locke, Hume, Bentham e companhia se revirem nas tumbas, por mais que um país enriqueça não aumentará a felicidade e o bem-estar de seus cidadãos. Segundo o psiquiatra Joan Massana, "a felicidade é uma sensação falsa, artificial como uma linha de coca. É pontual, e não é normal que dure". Os economistas estudam a felicidade e sua relação com a riqueza Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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