"Não vou montar no Peru uma sucursal de Hugo Chávez", diz candidato à presidência

Joaquim Ibarz
Enviado especial a La Paz

Ollanta Humala se transformou na besta negra do Peru. Sua ascensão nas pesquisas --algumas o situam em primeiro lugar-- assusta os que temem que uma nova versão de Hugo Chávez se instale na capital peruana. Apesar de ser acusado de racista e fascista, Humala continua ganhando intenções de voto ao canalizar a ira e o rancor dos setores excluídos contra o sistema e a classe política.

Em uma entrevista que concedeu a La Vanguardia na capital boliviana, La Paz, onde esteve para assistir à posse de Evo Morales, Humala explicou os fundamentos de sua polêmica candidatura.

La Vanguardia - O senhor é identificado com Hugo Chávez e sua revolução bolivariana. O que tem em comum com o presidente venezuelano?

Ollanta Humala -
Segundo o governo, sou financiado por Chávez. Outros dizem que o narcotráfico me paga. Sou a soma de todos os medos. Não vou montar no Peru uma sucursal de Chávez, nem de sua revolução bolivariana. Nosso movimento é nacionalista, não dependemos de ninguém. Me identifico com o general Velasco Alvarado, que foi presidente do Peru, porque sou militar, nacionalista e meu discurso vai contra os partidos tradicionais que fraudam a população. Velasco foi assim.

LV - O senhor é acusado de fomentar o racismo indígena contra o branco.

Humala -
Não somos racistas, mas inclusivos. Os incas foram inclusivos, multinacionais, com diversidade cultural. Por isso se formou a confederação de nações do Tahuantisuyo. Não sou racista. Me chamam de tudo. Me acusam de ter o apoio da guerrilha colombiana Farc e do narcotráfico; me acusam de anti-semita, de golpista e de ter as mãos manchadas de sangue. A moral e a ética dos peruanos que me enchem de insultos não é maior que um grão de arroz. Eu nunca disse que sou racista.

LV - Seu pai e seu irmão Antauro mantêm claras posições racistas.

Humala -
Pediria que deixem meu pai em paz. Utilizam-no para me pegar, há falta de ética. Não sou etnocacerista (doutrina ultranacionalista fundada por Isaac Humala, que pede a vingança étnica do indígena andino).

Meu pai e Antauro dão preponderância ao aspecto racial. Para mim é impossível ligar um discurso ao fator racial. O fundamental para construir a união nacional é a cultura. Você pode ser mais branco que eu, eu mais escuro que você, mas você pode ser mais peruano que eu. Quem determina quem é puro e quem não é? A base da nacionalidade peruana se dá pelo direito de solo, e não pelo de sangue.

LV - Alguns comentaristas peruanos salientam que o senhor tem uma ideologia neofascista.

Humala -
Não somos fascistas porque não apoiamos o grande capital, mas o pequeno e médio empresário. Nosso nacionalismo talvez pareça na Europa uma coisa preocupante, porque ali viveram experiências desastrosas pela exacerbação de correntes nacionalistas, imperialistas e fascistas. Não queremos um nacionalismo imperialista; mas propomos a defesa de nossa nação.

LV - Qual é seu ideário?

Humala -
Estamos construindo um partido democrático. Não somos etnocaceristas, mas nacionalistas. O etnocacerismo nasce no seio do exército, na oficialidade jovem; era uma doutrina contra o Sendero Luminoso, com a qual se buscava ganhar a confiança do povo.

Meu irmão Antauro começa a dar precisões políticas ao etnocacerismo, algumas das quais compartilho, outras não. Pretendo construir um partido baseado no nacionalismo para defender a nação, porque o Peru é uma neocolônia. Temos os recursos naturais comprometidos com o capital estrangeiro e que não rendem benefícios para nós. Vive-se uma debilitação do exército, os setores produtivos estão sendo destruídos.

LV - Como pretende reativar a produção?

Humala -
Há atividades estratégicas de que o Estado deve participar. O Estado renunciou a participar dos recursos energéticos como gás e petróleo, deixou tudo para as empresas estrangeiras como Repsol. Estas assinaram contratos com o governo, com uma base tributária, os quais não pagam imposto de renda nem royalties. Em alguns anos recuperaram seu investimento, mas sem benefícios para a população. Por isso ela não quer saber de privatizações.

LV - O senhor nacionalizaria as empresas espanholas Repsol e Telefonica?

Humala -
Não falamos em renacionalizar nem confiscar. Respeitamos a propriedade privada e os investimentos, o que queremos é que venham e paguem seus impostos. Somos a favor do investimento estrangeiro e nacional. Mas em atividades estratégicas o Estado não pode renunciar a sua participação como proprietário. Em hidrocarbonetos e gás o Estado deve ter participação acionária. Poderia ser de 49%, 50% ou 51%. Não vamos expulsar a Repsol, a Telefonica nem qualquer empresa, mas queremos que o Estado participe como sócio, mesmo que seja minoritário.

LV - Que papel a Espanha pode desempenhar no Peru?

Humala -
Isso vamos conversar com o governo espanhol, se este humilde candidato chegar à presidência.

LV - Vargas Llosa o desqualificou em um artigo.

Humala -
Aprecio Vargas Llosa como romancista. Ele é um grande romancista, não o melhor do Peru. Em questões políticas está perdido no espaço. Não percebe o que está acontecendo na América Latina, continua vivendo no mundo de seus romances. Ollanta Humala explica diferenças entre ele e o líder venezuelano Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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